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Entrou areia no acarajé

 | 05.04.2007

O novo governo da Bahia resolveu trocar tudo na área do turismo -- e o modelo do estado, referência na área, pode estar em risco

 

Divulgação

Praia de Itacaré, no litoral sul do estado: exemplo de sucesso do modelo baiano

EXAME 

Nos últimos anos, a Bahia transformou-se num exemplo incontestável de sucesso na área turística. Referência nacional no setor, o estado conseguiu mapear as regiões com maior potencial, melhorou a infra-estrutura (incluindo aeroportos e estradas) e investiu pesado em marketing. O resultado é que as praias e as atrações baianas tornaram-se um dos principais destinos do país e foco de grandes investimentos. Uma breve demonstração da pujança baiana: dos 150 empreendimentos hoteleiros em projeto ou em construção no país, a Bahia é, segundo levantamento feito pelo ANUARIO DE TURISMO EXAME, responsável por quase 30%. Boa parte do bom desempenho baiano pode ser atribuída a um importante fator: a continuidade administrativa. Por quase duas décadas, o governo estadual esteve nas mãos do grupo controlado pelo senador Antonio Carlos Magalhães, o que facilitou a implantação de projetos de longa maturação -- com metas, objetivos, plano de ação e claros resultados. Com a vitória de Jacques Wagner, do PT, nas últimas eleições para o governo da Bahia, que encerrou 16 anos de hegemonia política do grupo de ACM, esse modelo está em risco.

Mudança radical
As principais alterações do governo do PT no setor de turismo da Bahia

Nova diretoria
Houve uma mudança não só nos cargos políticos mas também no corpo técnico

Estatística
O governo petista afirma que os números do turismo no estado eram inflados e promete revelar a "verdade estatística"
Revisão dos contratos
O novo governo vai realizar auditoria na Bahiatursa, com foco na revisão de contratos e em convênios

Os primeiros sinais de que começou a entrar areia no acarajé foram dados logo nos primeiros dias da nova administração. Wagner promoveu uma mudança completa na equipe que gerenciava o turismo no estado. Além da tradicional (e até esperada) troca de guarda nos cargos políticos, a gestão petista resolveu mudar vários profissionais de carreira. A Bahiatursa, órgão que cuida do fomento e da organização do turismo no estado, teve todas as suas diretorias mudadas. Ao todo, foram substituídos 28 funcionários em toda a estrutura da empresa. Só para efeito de comparação, seria como se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tivesse trocado todos os postos-chave de um órgão técnico como a Receita Federal quando ele assumiu a Presidência da República. Além disso, Wagner paralisou todas as operações da Bahiatursa ao iniciar uma auditoria nas contas, nos contratos e nos convênios da empresa (o que gerou desconfiança entre os atuais investidores e um péssimo sinal para grupos que estão pensando em aplicar recursos em território baiano). "Pode até mudar a máquina, mas não pode prejudicar o funcionamento dos projetos já estabelecidos", diz Evanilson Nunes Montenegro, diretor da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis.

Hoje há também uma guerra sendo travada em torno das estatísticas do turismo no estado. Uma das primeiras providências do atual secretário da pasta, o publicitário Domingos Leonelli, foi duvidar dos números divulgados pelos seus antecessores. Para ele, as estatísticas sobre o turismo baiano eram propositadamente infladas pela administração anterior. "Uma das coisas a restabelecer por aqui serão os números reais do setor", disse Leonelli em entrevista ao anuário EXAME. Segundo ele, recordes como o de 800 000 turistas durante o Carnaval de Salvador, que fez com que a cidade entrasse no Guinness Book como dona do maior Carnaval de rua do planeta, com 2 milhões de pessoas pulando nas ruas, não passam de mito. "Salvador tem 29 000 leitos. Mesmo que cada morador da cidade receba um turista, não dá para abrigar todos", afirma Leonelli. De acordo com Eliana Dumet, uma das dirigentes da gestão anterior, a alegação de Leonelli não faz sentido. "São contabilizados como turistas os moradores, por exemplo, das 16 cidades que ficam no entorno de Salvador e onde moram mais de 600 000 pessoas", diz Eliana. "Essas pessoas vêm para a capital, brincam e retornam para suas casas no mesmo dia."

A polêmica em torno de quantos são os turistas que visitam a Bahia não altera o substancial: as qualidades do modelo baiano. Para construir um projeto de turismo bem-sucedido, a Bahia traçou um planejamento em três etapas. A primeira foi delineada na década de 70, com a prospecção de áreas com potencial turístico. Nesse período tomou corpo a estratégia de desenvolver ações mercadológicas com base na culinária, na religião, no artesanato e em outros ícones da cultura baiana. "Naquela época era tudo mato", lembra Paulo Gaudenzi, economista e professor de história que construiu toda a sua carreira no setor de turismo e comandou a secretaria do estado durante 11 anos. Segundo ele, desbravar a região de Porto Seguro, que hoje recebe 1,2 milhão de turistas por ano, foi uma aventura. "Voávamos em um monomotor cuja hélice pegava no tranco. Amarrávamos uma corda na hélice e puxávamos todos juntos para que ela funcionasse", diz. O segundo momento importante, nos anos 80, foi a atuação da Bahiatursa, órgão oficial de turismo do estado, em busca do mercado internacional. Pela primeira vez, contemplou-se uma política coordenada de ações no mercado externo, com a presença constante da Bahia em eventos do calendário mundial.

Por fim, a Bahia deu um salto qualitativo no turismo na década de 90, quando se inseriu no Programa de Desenvolvimento Turístico do Nordeste (Prodetur), programa de financiamento do setor turístico. Nessa fase o estado deu prioridade a investimentos em infra-estrutura básica e em serviços públicos. Nos últimos 16 anos, por exemplo, foi investido 1,7 bilhão de dólares em esgoto sanitário, construção de aeroportos, recuperação de estradas e outras obras para que a Bahia desse um salto de qualidade. De 1979 a 2005, o fluxo de turistas estrangeiros passou de apenas 5 600 para 341 000 por ano. No mes mo período, o número de visitantes nacionais aumentou de 1 milhão para 5,2 milhões por ano. Mais gente, mais dinheiro. A receita gerada pelos turistas passou de 60 milhões para 1,2 bilhão de dólares. "Esperamos que essa evolução continue", diz o empresário Cícero Sena, proprietário de rede de hotéis Porto Belo e presidente do Salvador Convention Bureau. "A capacidade gestora da nova administração já poderá ser testada na próxima temporada, em julho."

Por enquanto, uma das decisões aparentemente acertadas da administração petista foi separar as pastas de Cultura e Turismo -- uma evolução em relação às administrações anteriores. Ao dividir essas duas pastas, o governo tende a ganhar mais eficiência. Em nível federal, isso foi feito com acerto quando o presidente Lula separou o Turismo do Esporte -- ambos os ministérios ganharam agilidade. Mas isso é insuficiente para compensar a descontinuidade da estratégia. Um caso é o do ex-presidente da Bahiatursa Cláudio Taboada. Aos 38 anos de idade, Taboada foi um dos profissionais atingidos pela mudança do poder na Bahia. Ele começou a trabalhar no órgão em 1995, portanto há 12 anos, como estagiário. Foi subindo de cargo em cargo até se tornar o presidente da empresa, em 2003. Com o novo governo, perdeu espaço e, sem muita cerimônia, o cargo. Atualmente, presta consultoria em turismo para os governos do Distrito Federal e de Santa Catarina. Sem profissionais como Taboada, que carregam a expertise do que foi feito por lá, a Bahia pode acabar perdendo o cetro de mais bem-sucedido projeto de turismo do Brasil para outras praças.

 
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