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O fim do desperdício

 | 30.11.2006

Ao pregar o uso correto da energia elétrica, a Celpe trabalha para manter e incluir consumidores de baixa renda

 

Por Rodrigo Cavalcante

EXAME 

Dos mais de 2,2 milhões de clientes residenciais atendidos pela Companhia Energética de Pernambuco (Celpe) em 185 municípios, mais da metade são de famílias pobres, como as comunidades de baixa renda da periferia do Recife. Até poucos anos atrás, os profissionais da Celpe não conseguiam sequer entrar em alguns bairros para realizar serviços técnicos ou regularizar o abastecimento. Com medo de que ficassem sem energia caso suas ligações clandestinas, conhecidas como "macaco" em Pernambuco, fossem desativadas, alguns moradores chegavam a ameaçar fisicamente os técnicos que tentassem trabalhar nessas regiões.

Esse clima de medo e intimidação começou a ser rompido há cerca de cinco anos, quando a Celpe decidiu criar programas que já beneficiaram mais de 140 000 famílias carentes de Pernambuco. Os projetos incluem conscientização sobre o uso correto de energia e doações de lâmpadas e de eletrodomésticos mais econômicos, além de investimentos em educação e em iniciativas de geração de renda -- como o programa Luz no Empreendedorismo, que apóia o estabelecimento de pequenos negócios. As comunidades beneficiadas, em contrapartida, sentem-se responsáveis pela regularização do abastecimento. "Temos de ser realistas", diz José Humberto Castro, presidente da Celpe. "Não há como manter e incluir clientes de baixa renda se a conta de energia não for compatível com sua capacidade de pagamento."

Desde que foi privatizada, em 2001, e adquirida pelo grupo Neoenergia (holding formada pela Previ, pelo grupo espanhol Iberdrola e pelo Banco do Brasil), a Celpe tem se empenhado em aprimorar essa forma de relacionamento com a comunidade. Em relação ao meio ambiente, investiu mais de 80 milhões de reais em redes elétricas protegidas para evitar danos às árvores centenárias da região central de Recife. Também gastou mais de 4 milhões de reais na poda orientada de árvores próximas às redes elétricas. Em Fernando de Noronha, a empresa adotou rígidas normas ambientais na Usina Termelétrica de Tubarão, o que lhe garantiu a certificação ISO 14001. As práticas incluem cuidados com a reciclagem de resíduos e transporte de óleo em   contêineres especiais para minimizar qualquer impacto no arquipélago.

Para garantir que seus valores sejam seguidos pelos mais de 1 700 funcionários, a Celpe adota uma política de disseminação de seu código de ética. Desde 2004, representantes de todas as áreas da companhia integram um comitê responsável pela avaliação da conduta na relação com governo, fornecedores e prestadoras de serviço. "O código, entregue na integração de cada novo profissional à empresa, não é encarado apenas como uma orientação", diz Luiz Carlos Teixeira, superintendente de gestão de pessoas da Celpe. Teixeira diz que, das 27 demissões feitas em 2005, 13 se deram por desrespeito direto ao código, conforme determinação do comitê. Há pouco mais de um mês, seus integrantes sugeriram o cancelamento do contrato com uma empresa pernambucana que presta serviços à Celpe por desrespeito à legislação trabalhista, o que foi efetivamente realizado. A Celpe também cuida do treinamento dos profissionais e promove auditorias regulares para constatar o cumprimento das normas de segurança.

Apesar de a empresa ter conseguido uma boa assimilação de seu código de ética e aumentado sua participação no mercado de baixa renda, a sua principal meta é fazer com que a responsabilidade social seja vista não apenas como uma bandeira institucional mas também como uma oportunidade de negócio. Uma das dificuldades para isso é a falta de concorrência em seu estado. Essa relativa tranqüilidade no mercado tende a fazer com que as ações sejam vistas como parte da identidade corporativa da empresa -- e não apenas como uma questão de sobrevivência. Por mais paradoxal que possa parecer, a outra dificuldade é o próprio sucesso das ações de responsabilidade social. Como é uma das poucas companhias a investir fortemente nessa área em um estado repleto de demandas sociais, a Celpe acaba sendo cobrada para apoiar programas de instituições que nem sempre têm a ver com sua estratégia.

Essa é uma das razões pelas quais o grupo Neoenergia, que além da Celpe controla as distribuidoras da Bahia e do Rio Grande do Norte, vem tentando padronizar as políticas de responsabilidade de todas as suas empresas para que elas se viabilizem dentro do modelo de negócio da holding. "Estamos integrando as práticas, o que tem melhorado os indicadores de cada empresa", diz Marcelo Corrêa, presidente do grupo Neoenergia.

Ficha técnica
Notas
Desempenho nas duas etapas de avaliação
Etapa 1 - Questionários
Questionário Estratégia de Negócios (até 30 pontos) 11,3
Questionário Relacionamento com os Públicos (até 70 pontos) 61,5
Etapa 2 - Avaliação EXAME
Avaliação da estratégia de responsabilidade social e do envolvimento dos funcionários com o tema (até 40 pontos) 39
Pontos fortes
Os contratos com os fornecedores seguem normas éticas, de segurança e respeito ambiental
O código de ética profissional é auditado por um comitê formado por membros de todas as áreas da companhia
A empresa adota uma postura de co-responsável pela segurança e pelo treinamento dos terceirizados
Pontos fracos
Mais de 60% dos demitidos em 2005 tinham mais de 45 anos de idade
A empresa não tem uma política formal de promoção da diversidade
A integração da área de responsabilidade social aos departamentos responsáveis por investimentos estratégicos não está consolidada
 
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