
As empresas no Brasil estão no começo de um longo caminho. Nos últimos anos, começaram a se dar conta de que não podem continuar a operar da forma como fizeram até hoje, sem se preocupar com os impactos de sua operação. Vários fatores -- como os apagões de energia, os protestos das ONGs ou mesmo a extinção anunciada de algumas espécies de peixes -- estão levando algumas companhias a reconsiderar seu modelo de negócios para evitar crises maiores e garantir sua atuação no futuro. Um passo importante nesse caminho é descobrir uma maneira de manter ou melhorar os resultados tratando dos impactos -- econômicos, ambientais e sociais -- do negócio na sociedade.
Essa é uma tarefa complexa. E, para realizá-la, é fundamental tratar o assunto como qualquer questão de gestão, fazendo diagnósticos e estabelecendo metas e prioridades. Boa parte das empresas ainda desperdiça uma energia preciosa implementando um grande número de ações socioambientais sem nenhuma conexão com os efeitos provocados por suas atividades. Por isso, essas ações acabam tendo um resultado limitado. Para administrar os impactos é necessário passar por algumas etapas e avaliar a estratégia e a operação com um novo olhar. É preciso compreender os desafios do setor e identificar as expectativas mais relevantes dos públicos que se sentem afetados pelo negócio.
Será que no setor financeiro, por exemplo, o trabalho infantil na cadeia produtiva deve ser tratado no mesmo patamar que a questão dos juros e do spread bancário? Os bancos afetam mais a sociedade por meio de sua política de juros e do spread. Afinal, em razão das taxas atuais, as microempresas podem ceder à tentação de adotar práticas trabalhistas inadequadas -- como o trabalho infantil -- para reduzir seus custos e conseguir honrar suas dívidas. Ao tratar do impacto diretamente ligado a seu negócio, as empresas atuam também na resolução de questões que afetam a sociedade de maneira mais ampla. E de forma mais consistente, já que combatem a causa do problema, e não apenas os seus efeitos.
Uma vez identificados os impactos mais relevantes, a companhia deve, então, disseminar internamente o entendi mento sobre eles. Ao promover uma reflexão em todas as áreas, é possível buscar uma visão objetiva das questões, baseada em fatos concretos, e não somente na opinião de algumas pessoas. Esse entendimento pode ser também validado por meio de consultas aos públicos de interesse, incluindo especialistas setoriais, fornecedores e clientes. O setor de bebidas, por exemplo, só reconheceu recentemente a questão da água como uma de suas grandes prioridades ao aprofundar a interação com especialistas e stakeholders. O mesmo acontece com o setor alimentício em relação à obesidade ou com o de agronegócios em relação ao aquecimento global. Com a interação mais próxima, torna-se possível identificar prioridades de forma criteriosa, implementar ações e mudanças efetivas e estabelecer um processo relevante e transparente de prestação de contas.
* Vincent Menu é sócio da Rever Consulting, consultoria especializada no planejamento e na implementação de estratégias de sustentabilidade empresarial