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Comunicação com consistência

 | 30.11.2006

O exemplo da British Petroleum mostra o que um bom relatório de sustentabilidade precisa (mesmo) dizer

 

Jim Richardson/Corbis

Plataforma da BP e relatório de sustentabilidade ( abaixo): assuntos polêmicos tratados abertamente

Por Tatiana Vaz

EXAME 

Nos últimos anos, o interesse crescente da sociedade pelo comportamento das empresas transformou os relatórios corpo rativos em ferramentas poderosas de comunicação. Com isso, os tradicionais balanços sociais -- criados como uma espécie de vitrine para as boas ações das companhias -- estão evoluindo para complexos relatórios de sustentabilidade, que têm como objetivo descrever para acionistas, clientes e consumidores, entre outros, as ações e os resultados das empresas nos campos econômico-financeiro, social e ambiental. Muitos desses documentos, porém, perdem-se num mar de informações desconexas, irrelevantes ou que não conseguem esclarecer os verdadeiros desafios enfrentados pelas empresas. A necessidade de transformá-los em peças de comunicação consistentes levou a Global Reporting Initiative (GRI) -- organização internacional que elabora diretrizes para relatórios de sustentabilidade -- a lançar, em 2006, um novo padrão de indicadores. Batizado de G3, ele pretende ajudar as empresas a avançar no quesito "materialidade" -- a identificação dos impactos que realmente afetam os negócios e a sociedade.

Mas que relatório pode ser considerado um exemplo de comunicação eficiente? EXAME fez essa pergunta a três organizações internacionais: a AccountAbility, ONG que defende a ética e a transparência na prestação de contas das empresas; a Utopies, consultoria especializada em negócios e desenvolvimento sustentável; e a própria GRI. Um relatório apontado pelas três como modelo foi o da British Petroleum, uma das maiores companhias de petróleo e gás natural do mundo, referente aos resultados de 2005. Veja nestas páginas o que faz com que esse relatório seja exemplar.


Transparência
Em seu relatório, a BP trata abertamente de assuntos sensíveis ou polêmicos. O documento relata, por exemplo, a explosão ocorrida numa refinaria do Texas em março de 2005. O acidente — que provocou a morte de 15 funcionários — foi um dos maiores da história da empresa. O relatório traz informações sobre os fatores que provocaram a explosão, a quantia a ser paga em indenizações para trabalhadores feridos e parentes dos funcionários mortos e as iniciativas tomadas para evitar novos problemas.Outros temas delicados, como demissões, acidentes de trabalho, desmatamento e emissão de gás carbônico, também são apresentados com detalhes e estatísticas comparativas ano a ano.

Credibilidade
Para dar credibilidade ao documento, tanto os aspectos econômico-financeiros como os socioambientais expostos no relatório são auditados por uma consultoria externa, a Ernst & Young. No relatório, há vários comentários dos auditores. Alguns são positivos — como a declaração de que, em visitas às refinarias de gás, foi constatado que a BP está incentivando os fornecedores a adotar boas práticas trabalhistas e ambientais. Mas há também comentários negativos — como a crítica ao fato de que os funcionários demonstraram ter pouca familiaridade com o código de conduta da empresa.

Relacionamento
O relatório revela como as partes interessadas participam da política de responsabilidade social da BP e os canais de comunicação específicos para cada grupo. O objetivo é mostrar que a companhia aposta no relacionamento com os stakeholders como forma de monitorar a evolução dos impactos ambientais e sociais de sua atuação.

Objetividade
Vários relatórios apresentam conteúdo pobre e, muitas vezes, confuso. O da BP reúne numa só página as principais conquistas da empresa — como um investimento programado de 8 bilhões de dólares em dez anos na criação de uma nova linha de negócios voltada para o desenvolvimento de tecnologias limpas —, assim como seus principais problemas e desafios — como os gastos e as fatalidades provocados pelo furacão Katrina. Em cada capítulo — não importa se o assunto é segurança, meio ambiente ou relacionamento com públicos de interesse — apresenta os resultados obtidos no ano anterior e as perspectivas a ser alcançadas no próximo.

Gestão de riscos
Apresentar os riscos que podem ameaçar os negócios — e descrever a maneira como a empresa está se preparando para administrá-los — deve ser um dos principais objetivos de um bom relatório de sustentabilidade.A BP dedica algumas páginas à questão. Para facilitar a compreensão do tema, os riscos são divididos em três tipos: os relacionados à capacidade da empresa de cumprir sua estratégia, os riscos de reputação e aqueles inerentes ao negócio e ao setor de atuação. A empresa também detalha os mecanismos utilizados para controlar os riscos. Aquecimento global
A BP dedica um capítulo inteiro ao tema, considerado crítico para seu futuro. O capítulo começa com um contexto geral sobre mudanças climáticas, o impacto sobre o setor e a estratégia da BP. Em seguida são apresentadas as tecnologias alternativas em desenvolvimento pela empresa, como as de geração de eletricidade por hidrogênio e gás natural e a participação em planos de desenvolvimento de biocombustíveis.

Relevância
A BP desenvolveu uma metodologia própria para tratar a “materialidade”. Por meio dela, são identificados os temas de sustentabilidade mais relevantes e que devem constar no relatório. Com base nas expectativas de stakeholdersinternos e externos, a empresa levanta o conjunto dos temas considerados importantes. Cada tema é, então, analisado com base em duas variáveis: o nível de conhecimento público sobre a questão e o possível impacto que ela pode ter na capacidade da empresa de cumprir seu plano estratégico.Quanto maior o conhecimento e maior o impacto, mais chances o assunto tem de ser considerado “material” e ser incluído no relatório. Um tema considerado essencial de acordo com essa análise, por exemplo, diz respeito aos desafios da empresa no campo da saúde dos funcionários, da segurança e do meio ambiente.

 
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