
Quando recebeu a missão de percorrer a favela de Heliópolis, uma das maiores da capital paulista, para emprestar dinheiro aos moradores, Rosimeire da Silva, agente do Programa Real Microcrédito, do Banco Real, achou que seria uma tarefa simples. Afinal, teria contato com pessoas que muitas vezes não têm acesso ao crédito no mercado financeiro ou nem mesmo conta bancária. Na prática, não foi tão fácil como ela imaginava. Rosimeire foi ignorada diversas vezes e chegou a ser expulsa de uma funilaria, cujo dono se recusava a acreditar que um banco estava ali, no meio da favela, disposto a emprestar dinheiro a quem necessitasse. "Ele xingava e dizia que banco só ia lá para cobrar e nunca para emprestar dinheiro a pobre", afirma Rosimeire. "Foi preciso paciência para conquistar a confiança dos clientes."
O esforço de Rosimeire e de outros 79 agentes do Real é um dos fatores que contribuíram para o sucesso do Real Microcrédito, que desde 2002 oferece empréstimos a microempreendedores em regiões carentes da periferia de São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco. A taxa de juro dos empréstimos -- de 2% ao mês para financiamentos de até 1 500 reais e de 3,95% para valores superiores -- é equivalente a quase um quinto do que cobram as financeiras. Além disso, não há burocracia para a liberação do crédito, sendo necessários apenas identidade, CPF e comprovante de residência. Até o final de outubro, o programa -- que tem parceria com a Accion International, ONG especializada em microfinanças -- tinha mais de 10 000 clientes ativos e uma carteira de 15,8 milhões de reais.
Um exemplo do impacto desse dinheiro na vida de moradores de bairros de baixa renda é a história de Manoel Nolasco, de 42 anos, dono de uma mercearia na favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. Desde 2002, ele já fez quatro empréstimos para investir em mercadorias para seu negócio. Com o dinheiro, comprou um imóvel e tirou a mercearia dos fundos de sua casa. Num espaço mais amplo e com mais produtos na prateleira, seu faturamento triplicou. "O microcrédito melhorou muito a vida da minha família", diz Nolasco.
O trabalho dos agentes do Real não se limita a liberar o crédito. Eles atuam como consultores dos clientes, dando sugestões sobre como aplicar o dinheiro e aumentar as vendas. Além de servir de alavanca para o desenvolvimento econômico e social nas regiões em que atua, o Real Microcrédito deve atingir seu ponto de equilíbrio em 2007 e se tornar financeiramente viável.
| A prática | |
| Dados técnicos | |
| Início | 2002 |
| Investimento em 2006 (em reais) | 5 milhões * |
| Pontos de destaque | |
| Promove a distribuição de renda Incentiva o desenvolvimento social de comunidades carentes | |
| * De janeiro a outubro/2006 | |