
Depois de quatro anos de tentativas, a Petrobras conseguiu, em setembro deste ano, ser indicada para o Dow Jones Sustainability Indexes (DJSI), índice que reúne empresas socialmente responsáveis cotadas na bolsa de Nova York. Preocupada com sua imagem no mercado internacional, a companhia buscava um "selo" que pudesse referendar seu compromisso com a sustentabilidade e diferenciá-la da concorrência. "O Dow Jones Sustainability é uma ótima vitrine. Fazer parte dele é uma forma de mostrarmos ao mundo nosso compromisso com a gestão responsável", diz Luiz Fernando Neri, gerente de responsabilidade social da Petrobras. Embora a participação no índice seja recente, os executivos da estatal já sentem mudanças em relação à maneira como a empresa é vista no mercado. Por exemplo, eles vêm recebendo convites para fazer palestras para investidores no exterior. "Notamos um crescimento do interesse dos investidores e analistas por informações sobre a empresa", afirma Neri. "Isso, no futuro, poderá significar mais investimentos e mais negócios."
No mundo todo, empresas de diversos setores vêm se empenhando para fazer parte da carteira de índices de sustentabilidade, como o DJSI. O principal objetivo dessas companhias é tornar-se mais atrativas para os fundos que investem em empresas tidas como socialmente responsáveis. Estima-se que só nos Estados Unidos esses fundos movimentem mais de 1 trilhão de dólares por ano. "Para atrair a atenção desses investidores não basta ser responsável -- é preciso mostrar que se é", diz William Eid Júnior, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas de São Paulo. Na teoria, a participação num índice de sustentabilidade é como um atestado de que a companhia possui boas práticas de governança corporativa, de gestão ambiental e de relacionamento com consumidores, funcionários e fornecedores, entre outros. Na prática, a participação nesses índices vem representando ganhos financeiros. Veja o caso do DJSI. Desde que foi criado, em 1999, seu desempenho tem sido consistentemente superior ao Índice Dow Jones, da bolsa de Nova York. Nos primeiros nove meses de 2006, por exemplo, o DJSI registrou valorização de 15,9% -- ante 14% do Índice Dow Jones.
| O que mede o ISE |
| Alguns dos assuntos abordados no questionário de avaliação do Índice de Sustentabilidade da Bovespa |
| Gestão responsável |
| A política de remuneração dos executivos está vinculada ao desempenho da empresa nas áreas econômica, ambiental e social? |
| Existe um sistema de gestão de riscos voltado para oportunidades relacionadas às questões de sustentabilidade? |
| Há algum instrumento de gestão para monitorar e mitigar os impactos indiretos das atividades da companhia? |
| A empresa possui metas voltadas para a aferição de objetivos relacionados à sustentabilidade? |
| Meio ambiente |
| A empresa possui uma política corporativa ambiental? |
| Avalia os aspectos e os impactos ambientais potenciais e efetivos de suas atividades, processos, produtos, serviços e pós-consumo? |
| Possui programas ou iniciativas formais destinadas à redução da emissão de gases de efeito estufa? |
| A descrição formal das funções do principal executivo e dos demais diretores inclui atribuições e responsabilidades ambientais? |
| Governança corporativa |
| A empresa garante direitos de tag along* para as ações ordinárias além dos que são legalmente exigidos? |
| Estabelece em seu estatuto a arbitragem como solução de conflitos societários? |
| Divulga os critérios de remuneração e benefícios atribuídos aos conselheiros e diretores? |
| Há uma avaliação formal do desempenho do executivo principal pelo conselho de administração? |
| Fonte: Bovespa; * Tag along: extensão parcial ou total a todos os acionistas das mesmas condições obtidas pelos controladores na venda da empresa |
A visibilidade adquirida pelo DJSI deu origem a outros índices de sustentabilidade mundo afora. Em 2001 foi criado o FTSE4good Global, da bolsa de Londres, e em 2003 o Socially Responsible Index, da bolsa de Johanesburgo, na África do Sul. No Brasil, o Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa (ISE) completa um ano de existência em dezembro de 2006. Sua valorização foi de 21,6% até outubro, ante 17,3% do Ibovespa. Criado sob a coordenação do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-SP, o ISE foi composto de uma carteira de 28 empresas em seu lançamento. Entre elas Bradesco, Embraer, CPFL e Perdigão. Essas companhias enfrentaram um processo de seleção que teve por base o conceito do triple bottom line e tiveram de responder a um questionário que avalia aspectos econômico-financeiros, sociais e ambientais (veja quadro). Ao longo de 2006, o questionário passou por ajustes e ficou mais seletivo. Foram incluídas, por exemplo, questões sobre direitos humanos, corrupção e contribuições para campanhas eleitorais. Depois de submetido a audiência pública, ele foi encaminhado para as companhias que representam os 150 papéis mais líquidos do Ibovespa.
A NOVA CARTEIRA DO ISE, que deverá ser composta de no máximo 40 empresas, será conhecida no início de dezembro. Apesar de os critérios terem ficado mais rígidos, a expectativa dos especialistas é que um número maior de companhias tenha os requisitos para ser selecionadas. Isso porque, das 15 empresas que estrearam no pregão neste ano, 11 foram para o Novo Mercado, o grau mais alto de governança corporativa da bolsa. "Se a empresa se preocupa com governança e com transparência, a possibilidade de tratar de outros fatores da sustentabilidade é maior, o que dá a ela mais chances de integrar o índice", diz José Guimarães Monforte, presidente do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). Empresas que fizeram parte do ISE em 2006 afirmam que o ingresso no índice foi bom para os negócios. "Iniciamos nosso processo de internacionalização, e estar no ISE aumenta nossa credibilidade lá fora", diz Luiz Henrique Valverde, diretor de relações com investidores da petroquímica Braskem. "Em nossas reuniões com analistas e investidores estrangeiros, as questões relativas à sustentabilidade são freqüentemente abordadas."
A resposta ao questionário dos índices de sustentabilidade pode ser uma oportunidade de identificar riscos e aprimorar o modelo de gestão da empresa. "Utilizamos o questionário do DJSI como exercício e, aos poucos, fomos implementando melhorias na nossa estratégia de sustentabilidade", diz Neri, da Petrobras. Uma das medidas adotadas foi a criação do comitê de gestão social e ambiental, responsável por monitorar as atividades da empresa. A Suzano Petroquímica baseou-se no questionário do ISE para rever suas práticas socioambientais. "O ISE nos alertou para questões importantes que não faziam parte do nosso dia-a-dia", afirma Simone Soares, diretora da área corporativa da Suzano Holding. A companhia, por exemplo, não tinha documentos que pudessem confirmar seu compromisso com as recomendações do Pacto Global das Nações Unidas, que trata de princípios relacionados à defesa dos direitos humanos, das condições de trabalho, do meio ambiente e do combate à corrupção pelas empresas. Além disso, não incluía as políticas socioambientais na pauta de discussão do conselho de administração. "No último ano, resolvemos essas questões", diz Simone.