
Poucos assuntos evoluíram tão rapidamente no universo empresarial brasileiro nos últimos anos como a discussão sobre a responsabilidade corporativa. Pode-se dizer que as empresas, em menos de uma década, passaram por pelo menos três estágios. Primeiro foi a era da filantropia, que deu visibilidade às ações de voluntariado e aos investimentos sociais realizados nas comunidades do entorno. Mais tarde a conversa tornou-se mais abrangente e passou a envolver a ética e a transparência no relacionamento com as partes interessadas. O objetivo era mostrar que a responsabilidade corporativa é, na prática, sinônimo de boa gestão. Acompanhar de perto essa evolução tem sido o papel e o desafio do GUIA EXAME DE BOA CIDADANIA CORPORATIVA desde seu lançamento, em 2000. Em sua sétima edição, o guia procura mostrar que a discussão está mais uma vez mudando de patamar.
As empresas estão, agora, no estágio da preocupação com a sustentabilidade. O contexto atual -- marcado pela urgência de temas como a degradação ambiental e a exclusão social e pela emergência dos movimentos sociais e de novas potências globais, entre outros aspectos -- leva as companhias a lançar um novo olhar sobre suas responsabilidades e seus impactos na sociedade. O resultado é que as questões ambientais e sociais, que sempre foram marginais aos negócios, estão finalmente chegando ao coração da estratégia. Em todos os setores, executivos e especialistas discutem como transformar a sustentabilidade numa oportunidade. Como afirma Fábio Barbosa, presidente do banco Real, numa das reportagens desta edição: "O desenvolvimento sustentável deixou de ser uma conversa de ambientalistas e chegou às companhias".
| Conheça as principais estatísticas das 201 empresas participantes da pesquisa nesta edição |
| Valores e transparência |
| 89% possuem conselho de administração com auditoria independente |
| 47% têm código de conduta e programa de disseminação de valores |
| 34% elaboram balanço social ou similar, com ações sociais e ambientais |
| Meio ambiente |
| 93% desenvolvem campanhas internas relacionadas ao consumo consciente e à ecoeficiência |
| 81% priorizam a contratação de fornecedores que tenham boa conduta ambiental |
| 30% possuem sistemas de gestão ambiental padronizados e formalizados |
| Relacionamento com os públicos |
| 68% têm um ouvidor do consumidor ou profissional com função similar |
| 64% integram os trabalhadores terceirizados a seus programas de treinamento |
| 44% possuem programa específico de responsabilidade social para a cadeia de fornecedores |
| 39% possuem normas escritas sobre a ética no relacionamento com o poder público |
| 36% possuem política de promoção da diversidade e proíbem práticas discriminatórias |
| 27% têm política formalizada de relacionamento com a comunidade do entorno |
Essa nova realidade está mudando a forma como elas desenvolvem seus produtos e se relacionam com seus parceiros. Empresas como Toyota, Philips e GE hoje falam em "produtos responsáveis", com impacto ambiental reduzido em todas as etapas de seu ciclo de vida. Companhias como British American Tobacco, Diageo e Kraft Foods adotam o discurso do marketing responsável e do consumo consciente. Nos Estados Unidos, a Wal-Mart está se transformando num ícone dessa nova era. A gigante do varejo mundial desenvolveu uma estratégia de sustentabilidade que envolve a redução da geração de resíduos e do consumo de energia das lojas, a diminuição da emissão de gases de efeito estufa no transporte de mercadorias e a ampliação da compra de orgânicos, entre outros temas. A implementação dessas práticas na cadeia produtiva da Wal-Mart poderá influenciar a atuação de milhares de empresas no mundo todo.
| As prioridades estratégicas |
| Neste ano, a pesquisa do guia incluiu perguntas sobre estratégia de negócios. Segundo as empresas participantes, os desafios que mais representam suas prioridades para os próximos anos são: |
| 1 - Desenvolver os recursos humanos |
| 2 - Aumentar a qualidade dos processos, produtos e serviços |
| 3 - Investir em inovação, pesquisa e desenvolvimento |
| 4 - Expandir o negócio geograficamente |
| 5 - Reduzir custos |
| De acordo com as empresas, para executar essas estratégias será necessário investir principalmente em: |
| Qualidade do atendimento |
| Educação |
| Relações com fornecedores e terceiros |
| Saúde e segurança dos funcionários |
| Diversidade e inclusão |
| Análise do risco socioambiental das atividades da empresa |
A pesquisa
Também no Brasil existe uma transformação em curso. Para refleti-la, a pesquisa do GUIA EXAME DE BOA CIDADANIA CORPORATIVA -- da qual participaram neste ano 201 companhias de todos os portes e regiões do país -- sofreu algumas mudanças. Com a ajuda da Rever Consulting, consultoria especializada em sustentabilidade e negócios com sede em São Paulo, foi criado um novo questionário sobre estratégia. O objetivo era analisar a relação entre as prioridades estratégicas das empresas, suas práticas de gestão e as questões de sustentabilidade relevantes para seu setor de atuação. As empresas responderam também a um questionário baseado nos Indicadores Ethos sobre valores e transparência, meio ambiente e relacionamento com funcionários, consumidores e clientes, governo e sociedade, comunidade e fornecedores.
A segunda etapa da análise das empresas (veja explicação sobre a metodologia na pág. 19) foi feita por uma equipe de jornalistas do GUIA EXAME DE BOA CIDADANIA CORPORATIVA. A avaliação consistiu no levantamento de evidências sobre a incorporação de aspectos sociais e ambientais à definição e à gestão de negócios. Os jornalistas entrevistaram executivos, funcionários e representantes de grupos de interesse das 25 companhias com melhor pontuação nos questionários. Analisaram também o relatório de sustentabilidade e a descrição das práticas de gestão das empresas. Com base nessa análise, foram escolhidas as dez empresas-modelo em responsabilidade social e os dois destaques regionais desta edição:
Empresas-modelo
- Ambev
- Banco Real
- Basf
- Celpe
- CPFL
- Elektro
- Promon
- Refap
- Serasa
- Suzano
Destaques regionais
- Coelce (Nordeste)
- Laboratório Sabin (Centro-Oeste)
Práticas responsáveis
Além de responder aos questionários, as empresas descreveram suas práticas de gestão nos sete temas dos Indicadores Ethos. Cerca de 700 práticas foram apresentadas. Essas ações foram avaliadas por uma equipe formada por especialistas em responsabilidade social e por jornalistas da revista EXAME com base em critérios como clareza de objetivos, utilização de indicadores, resultados e relação com a estratégia de negócios. As cerca de 400 práticas que apresentaram a pontuação mínima exigida constam desta publicação. A análise apontou também os 14 destaques de 2006:
Valores e transparência
- Linha Direta de Conduta Ética – Alcoa
- Conselho de Sustentabilidade – Banco Real
Funcionários
- Programa de valorização da diversidade – CPFL
- Programa Aids Care – Volkswagen
Meio ambiente
- Sistema de gestão ambiental – Ambev
- Programa Top Verde – Embraco
Fornecedores
- Cadeia sustentável de suprimentos – Kraft
- Programa de fornecedores regionais – Wal-Mart
Consumidores/clientes
- Microcrédito – Banco Real
- Marketing responsável – Kraft
Comunidade
-Avaliação econômica de projetos sociais – Itaú
- Fomento ao capital produtivo– Odebrecht
Governo e sociedade
- Juruti Sustentável – Alcoa
- Projeto Mais Vida – Unilever
| Como escolhemos os modelos |
| Veja aqui como chegamos às empresas-modelo e aos destaques regionais desta edição |
| Etapa 1 - Questionários Nesta etapa, as 201 companhias participantes da pesquisa responderam a dois questionários: |
| 1 - Questionário Estratégia de Negócios – 30 pontos Desenvolvido para EXAME pela Rever Consulting, o objetivo desse questionário era analisar a relação entre a estratégia de negócios da empresa e as questões de sustentabilidade consideradas mais importantes para sua implementação.As perguntas tratavam dos temas considerados prioritários no planejamento estratégico, das práticas de gestão atuais e da relação desses aspectos com a sustentabilidade. |
| 2 - Questionário Relacionamento com os Públicos – 70 pontos Desenvolvido com base nos Indicadores Ethos, o objetivo desse questionário era avaliar o relacionamento da empresa com seus públicos de interesse.As perguntas diziam respeito a valores e transparência, meio ambiente e relacionamento com funcionários, fornecedores, consumidores/clientes e governo/sociedade. |
| As notas dos dois questionários foram somadas e as 25 companhias com melhor pontuação passaram então para a segunda fase da pesquisa. |
| 3 - Avaliação da estratégia de responsabilidade social e do envolvimento dos funcionários com o tema – até 40 pontos Nessa etapa, as 25 companhias finalistas passaram por uma avaliação qualitativa feita pelos jornalistas do GUIA EXAME DE BOA CIDADANIA CORPORATIVA. A avaliação consistiu na checagem de dados dos questionários, em entrevistas com os principais executivos, funcionários e representantes de grupos de interesse e na análise das práticas de gestão das empresas.As principais questões avaliadas foram: |
| • A incorporação de aspectos sociais e ambientais na definição e na gestão do negócio • O relacionamento com as partes interessadas • A compreensão dos impactos causados pela atividade da empresa e das questões de sustentabilidade relevantes para seu setor de atuação • O envolvimento dos funcionários com a responsabilidade social • O conteúdo do relatório de sustentabilidade |
| As 25 companhias finalistas receberam novas notas (as notas da primeira etapa não foram consideradas) e as dez com melhor pontuação foram apontadas como empresas-modelo.Os destaques regionais foram escolhidos entre as companhias restantes, com base na sede da empresa e em sua nota na avaliação. |