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10 000 erros, um acerto

 | 26.07.2007

No arriscadíssimo negócio da biotecnologia, a pioneira Genentech é um raro caso de sucesso

 

Richard Morgenstein

O sofisticado laboratório da Genentech: ao todo, a companhia mantém 50 projetos em andamento nas áreas de oncologia, imunologia e regeneração de tecidos

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Por Lucas Bessel

EXAME 

No ramo da biotecnologia, empresas lucrativas são raras. Os prazos de desenvolvimento de novos produtos chegam a 20 anos e os riscos para o capital investido são imensos. Estima-se que, de cada 10 000 moléculas pesquisadas nesses laboratórios, apenas uma chegue ao mercado em forma de medicamento. Financiar uma pesquisa desse tipo consome até 1 bilhão de dólares -- e as chances de reprovação do medicamento nas fases finais de testes são bem reais. É justamente nesse cenário inóspito que a Genentech se destaca. Fundada em 1976, numa época em que a sigla DNA era ouvida apenas nos laboratórios das universidades, a Genentech foi a primeira empresa americana a usar biotecnologia na produção de medicamentos. Desde que registrou lucro pela primeira vez, em 1979, a empresa nunca deixou de gerar dividendos para seus acionistas. Em 2006, a Genentech faturou 9,2 bilhões de dólares e teve lucro de 2,4 bilhões, a melhor performance de toda a sua história. De seus laboratórios na região de São Francisco, na Califórnia, saem as bases para alguns dos medicamentos mais eficazes e revolucionários no combate ao câncer, como o Rituxan, para tratamento de linfoma. Sozinho, responde por 2 bilhões de dólares do faturamento da empresa. O valor de mercado da Genentech é 82 bilhões de dólares, 20 bilhões a mais do que o da Bristol Myers Squibb, colosso da indústria farmacêutica, com faturamento duas vezes maior.

A fórmula do sucesso da Genentech se resume a uma palavra: inovação. Diferentemente das empresas tradicionais, que pesquisam e produzem medicamentos com moléculas sintetizadas em seus laboratórios, a Genentech usa substâncias produzidas com células vivas. Seu foco está em áreas relegadas a segundo plano por outras indústrias, como tipos raros de câncer não tratáveis pela quimioterapia tradicional ou doenças do sistema imunológico. Seus cientistas são recrutados entre os pesquisadores das melhores universidades americanas, todos com respeitável bagagem de pesquisa acadêmica. A empresa foi a primeira a criar, ainda nos anos 70, um ambiente de trabalho muito próximo ao da academia americana, notadamente da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF) e da Universidade Stanford, de onde vieram seus primeiros pesquisadores. Os cientistas contam com regalias únicas que não existem em outros laboratórios farmacêuticos, como a possibilidade de pu  blicar resultados das pesquisas desenvolvidas na empresa nas principais revistas científicas do mundo. "A valorização do cientista tornou-se parte fundamental do negócio das empresas de biotecnologia", diz Peter Tollman, especialista em biotecnologia e consultor do Boston Consulting Group nos Estados Unidos. "Os pesquisadores querem ser bem pagos, mas também querem ver sua pesquisa chegar ao mercado para ajudar pacientes."

A inspiradora do Google e da Apple
A Genentech criou um modelo de gestão que foi incorporado por várias empresas de tecnologia do Vale do Silício, entre elas Google e Apple
Data de fundação
1976
Presidente
Arthur Levinson
Faturamento em 2006
9,2 bilhões de dólares
Número de empregados
10 500
Fábricas
Três, todas nos Estados Unidos
Produtos
Seu primeiro grande sucesso foi uma variedade de insulina humana produzida com base na engenharia genética, em 1982. Hoje, produz principalmente drogas voltadas para o tratamento de câncer, como Rituxan, Avastin e Herceptin

Foi a Genentech que criou, mais de 20 anos atrás, a possibilidade de os empregados usarem parte de seu tempo de trabalho no desenvolvimento de projetos pessoais -- uma das iniciativas copiadas com sucesso pelo Google, onde é possível dedicar 20% do tempo de trabalho às próprias pesquisas. Na Genentech, esse tempo é variável e pode chegar a 100%, dependendo da complexidade e da relevância da pesquisa -- questão que é avaliada pela empresa. A Genentech também tem um sistema bastante peculiar para definir quais linhas de pesquisa de medicamentos receberão investimentos. Uma vez por ano, cientistas e pesquisadores apresentam seus argumentos a uma banca composta de 13 Ph.Ds., que decidem aonde alocar os recursos. Apenas no ano passado, a empresa investiu 2 bilhões de dólares em pesquisa. Ao todo são 50 projetos em andamento nas áreas de oncologia, imunologia e crescimento ou regeneração de tecidos. Para a Genentech, o crivo da banca é uma forma de garantir que não haja privilégios nem apadrinhamentos entre os pesquisadores. Os resultados são palpáveis. Além dos excepcionais resultados financeiros, a empresa apresentou uma média anual de crescimento da ordem de 40% entre 2003 e 2006.

Assim como a Apple tem Steve Jobs e o Google Larry Page e Sergei Brin, a Ge  nentech é personificada pelo bioquímico Arthur Levinson, presidente da empresa desde 1995 e integrante do conselho desde 1996. Levinson, de 57 anos, foi um dos pioneiros no estudo do gene HER2/neu, um dos causadores do câncer de mama, e o responsável pelo desenvolvimento da droga Herceptin contra a doença. O medicamento foi lançado em 1998 e teve vendas de 1,7 bilhão de dólares no ano passado. Cientista prolífico, publicou mais de 80 artigos em revistas científicas e tem registradas em seu nome 11 patentes. "O fato de ter um presidente-cientista mostra como são profundas as raízes da Genentech no setor de pesquisa. Essa é uma das razões para a empresa ter uma cultura voltada para a inovação", diz o consultor Tollman, da BCG.  

TAMANHO COMPROMETIMENTO com a pesquisa científica tem um custo -- bastante alto, por sinal. A Genentech não tem pruridos em manter na estratosfera os preços de seus medicamentos para garantir a lucratividade. Um ano de tratamento com Avastin, para o câncer no intestino, custa 55 000 dólares. Cada dose de um medicamento chamado Lucentis, para tratar cegueira, custa 2 000 dólares. "Temos margens respeitáveis porque são elas que custeiam as novas pesquisas. Mas isso não significa que sejam margens abusivas. Não chegam nem perto das margens da Microsoft ou da Oracle, por exemplo", disse o presidente Levinson ao The Wall Street Journal, há pouco mais de um mês, em uma de suas raras entrevistas. A Genentech não é vista com muita simpatia pelos órgãos públicos de saúde dos Estados Unidos, obrigados a custear os tratamentos de doentes que não podem pagar. O Congresso americano também tem pressionado para que a empresa reduza os preços.

Além de ter alta lucratividade, a Genentech conta com outro tipo de apoio que lhe permite concentrar todo o seu esforço em pesquisa. Desde 1990, o laboratório suíço Roche é dono de 56% das ações da empresa. Quando comprou a participação, a Roche optou por não interferir na gestão da Genentech, como forma de afetar o mínimo possível a base de conhecimento e a cultura inovadora da companhia. "O papel da Genentech no nosso modelo de negócios é criar novos produtos, com toda a liberdade de atuação", diz o diretor de operações comerciais da Roche no Brasil, João Carlos Ferreira. A independência entre ambas chega a tal ponto que há acordos de confidencialidade que não permitem que uma empresa tenha acesso às pesquisas da outra. A Roche tem o direito da primeira recusa aos produtos desenvolvidos pela Genentech. Depois disso, a empresa californiana é livre para negociar com outras farmacêuticas. É um arranjo insólito, mas promissor, principalmente por injetar ar fresco num setor que vive em crônica crise de inovação e minado por versões genéricas que corroem os lucros das empresas.

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