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Davi e Golias de mãos dadas

 | 27.07.2007

Segundo um dos maiores especialistas em inovação do mundo, a força do capitalismo americano é somar a criatividade dos empreendedores com o poder das grandes corporações

 

Don Hogan Charles/The Newyork Times

William Baumol

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Por André Lahóz

EXAME 

O economista William Baumol, de 85 anos, tem uma receita para países que buscam o crescimento -- é preciso combinar a energia dos empreendedores e a capacidade produtiva das grandes empresas. É o que defende em seu novo livro, Good Capitalism, Bad Capitalism, and the Economics of Growth and Prosperity ("Capitalismo bom, capitalismo ruim e a economia do crescimento e da prosperidade", ainda sem tradução no Brasil), escrito conjuntamente com outros dois economistas, Robert Litan e Carl Schramm. Professor da Universidade de Nova York e um dos maiores especialistas mundiais em inovação, Baumol diz que quase todas as descobertas da história decorreram da criatividade de inventores individuais, apesar de toda a fortuna gasta pelas grandes corporações em pesquisa e desenvolvimento. Mas as empresas são vitais na hora de aperfeiçoar essas invenções e torná-las mais fáceis de usar. "Davi e Golias precisam andar juntos", disse em entrevista a EXAME. "É isso que traz crescimento econômico de verdade."  

Por que o senhor fala em seu livro de capitalismo bom e ruim?
Porque há pelo menos quatro variações importantes atualmente, algumas claramente superiores às outras. O primeiro é o capitalismo oligárquico, encontrado em muitos países da África, em que poucas famílias ricas controlam a maioria dos meios de produção e barram qualquer tipo de inovação que possa trazer mudança. É o menos efetivo -- há casos de países que estão encolhendo, um fenômeno inacreditável num mundo coalhado de inovações e cada vez mais dinâmico. No segundo tipo de capitalismo, quem comanda a economia é o governo. Nesse caso, há vários exemplos de países estagnados que conseguiram passar a crescer -- caso, por exemplo, de Coréia do Sul e Brasil. O problema é que os governos têm dificuldade na hora de escolher os setores mais promissores, o que tende a fazer com que o crescimento se esgote. Por isso, vários países desse grupo hoje estão se submetendo às forças de mercado.

O terceiro tipo de capitalismo é o de grandes companhias, ilustrado pelo exemplo japonês. É um modelo que funciona por um tempo, mas que tende a gerar poucas inovações e fazer com que o crescimento desacelere. Já no quarto tipo, o capitalismo empreendedor, inovações não faltam. Nesse caso, uma parte grande da economia é comandada por pequenas empresas muito criativas, sempre em busca de novos produtos, novos mercados e novos métodos de produção. Concluímos que o melhor é a combinação dos dois últimos.

Onde se vê essa combinação?
Os Estados Unidos ainda são o melhor exemplo. Ao longo da história, vemos que uma enorme proporção das inovações radicais -- coisas como o avião ou o computador pessoal -- foi criada por pequenas empresas. As revoluções partem dos empreendedores. Mas as grandes companhias são vitais para aperfeiçoar essas invenções e torná-las mais confiáveis e fáceis de usar. Os irmãos Wright inventaram o avião. Mas é preciso uma Boeing ou uma Airbus para fazer um moderno avião que cruze o globo. É o que chamo de parceria entre Davi e Golias.  

Mesmo hoje as pequenas firmas são necessárias?
Sem dúvida, apesar de as grandes corporações concentrarem 70% dos investimentos privados em pesquisa e desenvolvimento. Basta olhar o caso da indústria de tecnologia. Google e Microsoft começaram como empresas minúsculas,  mas olhe o que se tornaram e seu papel na história do capitalismo.

Há exemplos de países emergentes que combinam os dois melhores tipos de capitalismo?
Taiwan, Israel e Irlanda são exemplos de sucesso, todos com muito investimento em pesquisa e desenvolvimento. O que fizeram? Souberam usar a inventividade de seus empreendedores em benefício da sociedade. Vale a comparação com a antiga União Soviética. Ela tinha um excelente sistema educacional e cientistas de primeira linha, responsáveis por muitas invenções. Mas essas inovações eram quase sempre canalizadas para o uso militar. Também vale lembrar o exemplo da Escócia, país responsável pela maioria das invenções que levaram à Revolução Industrial e que depois ficou para trás. Os incentivos estavam direcionados do jeito errado. 

Como assim?
É natural, em qualquer lugar, que as pessoas mais empreendedoras busquem o sucesso, inclusive financeiro. Vamos pensar na Roma antiga ou na China medieval. Muita gente enriqueceu nessas sociedades, mas não por ter oferecido um produto novo aos consumidores. O jeito mais fácil de ficar rico era por meio de corrupção ou de guerras. O sistema de premiação daquelas sociedades levava os melhores cérebros a buscar um emprego no aparato estatal. Ou então a criar uma espada melhor. E olhe que tanto Roma quanto China legaram uma série de invenções, mas elas simplesmente não foram levadas ao mercado. Júlio César era obviamente um empreendedor, mas canalizou sua capacidade em campanhas militares. Numa sociedade moderna, ele provavelmente enriqueceria criando algo produtivo. 

Como um país como o Brasil pode canalizar a energia inovadora do jeito certo?
A primeira coisa a fazer é garantir proteção ao empreendedor com um bom sistema de patentes e um sistema judicial efetivo. Também é muito importante que os contratos sejam rigorosamente respeitados. São coisas desenvolvidas a partir do século 18 e que levaram a nobreza inglesa a parar de bajular o rei e passar a construir coisas. Outra idéia interessante é criar uma agência que facilite a importação de tecnologias. Todos os países vivem de tecnologias de outros. Até os Estados Unidos, responsáveis por menos de 30% das novas tecnologias, vão ficar para trás se não conseguirem usar os 70% restantes. Essa agência teria a responsabilidade de manter-se informada sobre as inovações e, se forem de interesse, iniciar negociações para importá-las. Imagine que haja 50 empresas brasileiras que possam se beneficiar de uma inovação. Não faz sentido que todas tenham de correr atrás da tecnologia. 

Boas universidades são importantes?
Sim. Uma mensagem particularmente importante para países da América Latina é que haja competição também nas universidades. Os melhores alunos e professores têm de receber tratamento especial, senão o que se tem é uma universidade medíocre. Mas a inovação depende de muito mais do que boa educação. Temos nos Estados Unidos universidades de ponta, mas é verdade que, na média, nossa educação é pior que a européia. No entanto, somos líderes em inovação. Uma possível explicação para essa liderança é a forma como lidamos com o fracasso. Na Europa, um empreendedor que vá à falência terá sua reputação liquidada. Nos Estados Unidos, os empreendedores vão à falência quatro ou cinco vezes ao longo da vida. E sempre conseguem começar de novo.

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