Nos últimos tempos, ocorreu no país o fenômeno da multiplicação dos leilões rurais de animais de elite. Segundo levantamento da revista especializada DBO, entre 1997 e 2006, o número de eventos realizados por ano saltou de 329 para 965 -- ou seja, praticamente triplicou. Nesse período, o faturamento do circuito cresceu quase dez vezes, passando de 48 milhões de reais para 452 milhões. As festas são também cada vez mais sofisticadas. Hotéis cinco estrelas, casas de shows, salas de concertos e outros espaços nobres das grandes cidades transformaram-se em palco desse tipo de acontecimento. Uma parte dos convidados chega a bordo de jatinhos e helicópteros. Nessas festanças, regadas a vinhos e uísques importados, costumam ser distribuídos entre os convidados mimos como jóias e viagens. O público-alvo dos organizadores é formado por empresários, celebridades, profissionais liberais e investidores -- gente pouco familiarizada com os negócios no campo, mas capaz de assinar num piscar de olhos um cheque de mais de 1 milhão de reais para arrematar um boi premiado. Muitas vezes, a propósito, as grandes estrelas da festa nem aparecem no pedaço. Os lotes de animais ofertados são exibidos em telões de alta definição.
Os leilões de elite são aqueles que negociam animais que estão no topo da pirâmide de sua espécie. No caso do gado bovino, são os exemplares que, no processo de melhoramento genético, se destacaram por características como maior ganho de peso, precocidade sexual e fertilidade. Esses eventos vêm ganhando destaque em razão do crescimento do número de festas, dos valores envolvidos e dos colunáveis que as freqüentam (veja calendário ao lado). "Os leilões brasileiros de gado de elite estão hoje entre os mais animados e sofisticados do mundo", afirma o engenheiro agrônomo Antonio Carlos Pinheiro Machado Júnior, diretor técnico de uma das empresas que movimentam esse circuito, a AgroZurita, que pertence ao presidente da Nestlé, o executivo Ivan Zurita.
Dono do maior plantel de gado da raça simental sul-africano do país, com cerca de 700 animais, Zurita promove dois leilões por ano, que faturaram 9,5 milhões de reais em 2006. Um deles acontece em sua fazenda em Araras, no interior de São Paulo. O outro costuma ser feito no Terra ço Daslu, espaço de eventos da famosa butique de luxo da capital paulista. O empresário tem atraído uma constelação de famosos, como o cantor Roberto Carlos e as apresentadoras Hebe Camargo e Adriane Galisteu. Para os compradores que não têm fazendas para acolher o gado, Zurita criou um sistema de hospedagem em sua propriedade em Araras. No quesito "colunáveis por metro quadrado", só a festa promovida recentemente por outra celebridade televisiva, a apresentadora Ana Maria Braga, pode rivalizar com a do presidente da Nestlé. Criadora da raça brahman, ela promoveu em abril um leilão na Estação das Artes, na praça Júlio Prestes, um dos lugares mais elegantes de São Paulo. Cada lote de animais leiloado deu direito a um anel de ouro para o comprador. O custo total da festa: 450 000 reais.
O luxo de leilões como esse não tem similar em outros países. O Buzzard Hollow Ranch, maior negociador de simental sul-africano nos Estados Unidos, só recentemente passou a servir bebidas mais refinadas durante os remates. É fácil entender o motivo. Os americanos têm muito mais tradição em realizar negócios nesses eventos. Por lá, praticamente todos os animais são comercializados em leilão, sem que haja a necessidade de fazer muito esforço em termos de promoção para garantir a presença de um bom número de investidores. No Brasil a coisa é diferente. Estima-se que apenas 30% do gado seja leiloado -- o restante é negociado diretamente entre vendedores e compradores. Dessa forma, por aqui, o espetáculo tornou-se peça fundamental para chamar a atenção de potenciais compradores.
Uma das pessoas de fora do circuito rural que se tornou um freqüentador de peso desses eventos é o empresário João Carlos Di Gênio. Dono da maior rede privada de ensino do país, os colégios e faculdades Objetivo, com faturamento anual estimado em mais de 2 bilhões de reais, Di Gênio entrou nesse universo em 2000. Desde então, calcula-se, já gastou quase 20 milhões de reais na compra de pouco mais de uma dezena de animais. Sua aquisição mais recente, Urca, é uma vaca nelore arrematada por 1,9 milhão de reais. Nesse caso, Di Gênio assumiu apenas metade do investimento. Seu sócio na empreitada foi o ex-governador paulista Orestes Quércia, que pagou o restante da oferta vencedora. O remate ocorreu em maio na ExpoZebu, a maior exposição de gado zebu do mundo, na cidade mineira de Uberaba. Nessa última edição do evento, os 44 leilões realizados renderam 63 milhões de reais, com a venda de quase 1 500 animais. O exemplar mais caro foi justamente a vaca da dupla Di Gênio-Quércia.
Apesar de chamarem atenção pelo crescimento no mercado, pelos números envolvidos nas vendas e por todo o glamour que cerca o negócio, os eventos com animais de elite ainda representam uma parte pequena de um grande mercado. A cada ano, estima-se que aconteçam aproximadamente 3 000 leilões rurais no Brasil de vários tipos de animais -- bois, cavalos, suínos e ovelhas -- de diferentes raças. Um dos fatores que estão impulsionando os eventos é a excelente fase vivida pelo mercado bovino no Brasil. Apesar de o aparecimento recente de focos de febre aftosa ter gerado grande turbulência no setor, houve uma rápida recuperação e, neste ano, o país assumiu a posição de líder do mercado mundial de exportação de carne bovina, tanto em volume quanto em receita. "Esse cenário atrai cada vez mais gente interessada em investir na compra de animais", afirma o pecuarista Jonas Barcellos, que está no ramo há 17 anos. Ex-proprietário das lojas Duty Free, ele tornou-se um dos reis dos leilões nacionais. Em sua fazenda em Uberaba, no interior de Minas Gerais, ocorrem os dois principais arremates de nelore no país -- o Elo da Raça, em maio, e o Mata Velha, em setembro. Juntos, eles faturaram mais de 18 milhões de reais em 2006.
| Pregão eletrônico | ||||
| Como está a briga entre as duas principais emissoras especializadas na transmissão de leilões rurais | ||||
| Canal | Emissora | Data de criação | Número de eventos transmitidos por ano | Faturamento (em R$ milhões) |
| Canal Rural | RBS | 1996 | 449 | 450 |
| TerraViva | Bandeirantes | 2005 | 237 | 300 |
O crescimento do setor vem abrindo espaço também para novos nichos de negócios. Um dos que mais vêm crescendo é o de leilões 100% virtuais, ou seja, sem a presença física dos compradores, que acompanham o pregão pela TV. São eventos em que os investidores previamente cadastrados pela empresa promotora dão seus lances por telefone e fazem o pagamento com boleto bancário. O líder do segmento é o Canal Rural, do grupo RBS, que transmite 449 eventos por ano e fatura no mesmo período aproximadamente 450 milhões de reais -- quase mil vezes mais do que em 2000, quando a emissora começou a transmitir leilões. "Estamos caprichando cada vez mais na produção dos leilões para fisgar a atenção das pessoas que ficam zapeando pelos canais", afirma Donário Lopes de Almeida, diretor comercial do Canal Rural. Outra emissora que está apostando no segmento é a Bandeirantes. Ela lançou em 2005 o Terra Viva, com programação e modelo de negócios semelhantes aos do Canal Rural. No ano passado, a emissora transmitiu 237 leilões e faturou 300 milhões de reais. "Nos próximos anos, a tendência é que a maioria dos leilões no país ocorra de forma virtual", diz Celso Tavares, diretor executivo do canal TerraViva.