A jornada na Frankanna, no município de Carambeí, na região de Campos Gerais, no interior do Paraná, começa às 3 horas da manhã, com a primeira ordenha das 920 vacas holandesas. O trabalho executado no curral é supervisionado pelo gerente do turno com a ajuda de um sistema de câmeras de vídeo. Se for detectado algum problema com os animais, é convocado um veterinário para examinar o caso. Cuidados parecidos são observados em todas as outras atividades da fazenda de 2 000 hectares. Os dejetos provenientes da criação de suínos, por exemplo, passam pelo tratamento de um biodigestor, que impede a propagação na atmosfera do gás metano e o transforma em fertilizante do solo ou combustível para a secagem de grãos. As colheitas de soja, milho, cevada ou trigo também são obtidas por meio de um sistema no qual a Frankanna foi uma das pioneiras no Brasil. Trata-se do chamado plantio direto, em que o terreno não é arado por máquinas e as sementes são depositadas sem a remoção da palha natural do solo. Além de economizar no combustível dos tratores, a técnica protege o terreno da erosão.
De propriedade do fazendeiro Franke Dijkstra, um holandês que chegou ao Brasil aos 5 anos de idade com a família, logo após a Segunda Guerra Mundial, a Frankanna destaca-se no universo do agronegócio por conciliar práticas inovadoras de gestão e resultados excepcionais. No campo dos grãos, por exemplo, a produtividade de soja, acima de 4 000 quilos por hectare, é o dobro da média nacional e uma das maiores do mundo. A fazenda também obtém um rendimento da cultura de milho comparável ao dos Estados Unidos, os líderes internacionais desse mercado. "Mesmo numa região de excelência rural, como é o caso de Campos Gerais, a Frankanna consegue se destacar", afirma Fábio Meneghin, consultor da Agroconsult, empresa especializada em agronegócio. Da fazenda, saem matérias-primas para empresas como Batavo, Danone, Nestlé, Perdigão e Ambev. Seu faturamento anual é estimado em 7 milhões de reais.
Graças a seu perfil diferenciado, a propriedade recebe visitas constantes de estrangeiros e já foi tema de reportagens em grandes publicações internacionais do setor, como o Farm Journal, um dos mais conceituados periódicos do agronegócio nos Estados Unidos. O proprietário da fazenda também vive recebendo homenagens pelo desempenho no campo. Uma das principais foi a Comenda de Mérito Científico do Ministério da Ciência e Tecnologia, recebida do presidente Lula há dois anos pelos resultados do sistema de plantio direto da Frankanna. "Trata-se de um modelo muito mais sustentável, porque não há queimadas, preservamos a qualidade do solo, usamos menos defensivos e, mesmo assim, obtemos alta produtividade", afirma Franke, de 65 anos, que conciliou até recentemente a administração da fazenda com as funções de presidente da Batavo. Ele deixou o cargo em março, depois de 12 anos à frente da empresa. Atualmente, administra a Frankanna com a ajuda de seu filho Richard, de 37 anos, e do genro Maurício Greidanus, de 44. Existe por lá ainda uma brigada de 45 funcionários.
| Fenômeno no campo |
| O que faz da Frankanna uma fazenda diferenciada no agronegócio brasileiro |
| Eficiência A produtividade das culturas de soja e milho chega a ser mais do que o dobro da média nacional |
| Gestão Os empregados têm participação nos resultados de acordo com o de empenho de sua unidade produtiva. Em anos de resultados excepcionais, os bônus podem chegar a três salário |
| Integração As diferentes unidades vendem os produtos entre si.Como não há frete envolvido na operação, eles chegam a custar 20% menos do que o preço de mercado |
| Tecnologia Softwares e câmeras ajudam a controlar o andamento da produção. Quando uma vaca produz 5% menos do que o habitual,por exemplo, um veterinário é chamado imediatamente para examiná-la |
A família que comanda a fazenda é descendente de um clã bastante tradicional de produtores holandeses. Segundo documentos, eles estão no ramo desde 1560. Embora tenha embarcado para o Brasil ao lado de seus pais ainda criança, Franke tem lembranças da viagem. No navio, os Dijkstra trouxeram as primeiras espécies de gado holandês para o país -- 42 novilhas e um touro. "O danado pulou da embarcação em pleno oceano Atlântico, e foi uma loucura para a tripulação conseguir resgatá-lo, mas acabou dando tudo certo", afirma Franke. Apesar das cabeças de gado de seu pai, ele só foi ter seu pedaço de terra em 1958. "A Frankanna começou com 89 hectares, onde plantávamos milho e criávamos uns porcos", diz. A situação começou a mudar no final dos anos 70, quando o jovem holandês implementou o sistema de plantio direto que ajudaria a fazer a fama da propriedade e expandir seus negócios. Por causa dos resultados do novo sistema, a Frankanna começou a crescer na década de 80, com a aquisição de terrenos vizinhos.
Uma das marcas principais da Frankanna é a busca constante de inovações para melhorar o rendimento de suas atividades ou economizar custos. O biodigestor, implantado em 2004, por exemplo, exigiu investimento de 300 000 reais. Segundo cálculos dos administradores, esse dinheiro será recuperado num prazo de cinco anos, somente com a economia na compra de fertilizantes. Toda a produção da fazenda hoje é monitorada por softwares: desde a mortalidade dos suínos até o plantio de soja. O sistema de oito câmeras de vídeo foi instalado no curral há oito meses, a um custo de 3 000 reais. "Não é um Big Brother rural, só queremos poder identificar um eventual percalço no processo para então corrigi-lo", afirma Franke. A produção de leite responde por 30% da renda da fazenda. O restante do fa turamento vem dos grãos (50%) e da suinocultura (20%).
Em suas políticas de gestão, a Frankanna também é freqüentemente citada como exemplo de práticas diferenciadas (veja quadro na pág. 54). Num universo com ainda grandes problemas relacionados à desordem contábil e a um alto índice de informalidade na mão-de-obra, como é o caso do agronegócio brasileiro, a fazenda adota já há algum tempo práticas como a divisão da propriedade em unidades produtivas, com metas anuais estabelecidas e lucros compartilhados entre os funcionários em caso de resultados acima da média. Em anos excepcionais, os bônus podem chegar a até três salários. A exigência por formação de boa qualidade fez com que a fazenda montasse uma escola, em 2005, para melhorar a qualificação de seus funcionários. "Queríamos que todos tivessem, pelo menos, o Ensino Médio. Conseguimos cumprir essa missão", diz Richard. A política rendeu também ganhos de produtividade, pois os funcionários passaram a usar melhor as máquinas e a dosar as matérias-primas. Ainda hoje, todos os empregados são obrigados a participar de pelo menos um curso de reciclagem por ano, freqüentando aulas com temas como plantio, pulverização e manutenção de tratores.
A política de investimento constante na qualificação da mão-de-obra também tem como objetivo preparar a equipe para as próximas etapas no desenvolvimento dos negócios da Frankanna. "Num futuro próximo, pensamos em ter produtos acabados e até mesmo atuar em novas áreas, como a de madeira para a indústria de papel e celulose", diz Franke. A diversificação vai ao encontro de outra preocupação da família: a sucessão. Hoje, a sinergia entre as divisões da fazenda é garantida porque há um administrador que dá a última palavra em caso de qualquer imbróglio. No entanto, foram feitos documentos para que a próxima geração, que já tem seis membros, não se preocupe com disputas de poder. A fazenda será divida pelo número de herdeiros, que serão acionistas da Frankanna. Mesmo se um deles não quiser fazer parte da gestão, sua parte nos dividendos estará assegurada. "Entre parentes, temos de viver como amigos e negociar como inimigos. Só assim vamos continuar sendo amigos", diz Franke.

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