Já foi o tempo em que a natureza representava uma barreira definitiva para o desenvolvimento de algumas culturas fora das condições ideais. O Brasil é hoje um dos países que melhor dominam o arsenal para domar o clima desfavorável, corrigir as características do solo e contornar outros problemas. Um exemplo recente disso é a surpreendente experiência que está sendo realizada no país com o objetivo de cultivar oliveiras em solo nacional. Parece tão improvável quanto plantar abacaxis na Finlândia, mas as pesquisas têm avançado. Elas começaram há dois anos, quando foi trazido de Israel um lote de 120 mudas de oliveiras para a realização de testes na região do Vale do São Francisco, na Bahia. Como as árvores costumam produzir azeitonas em temperaturas entre 10 e 13 graus centígrados, os especialistas envolvidos no projeto criaram alguns métodos químicos e físicos para induzir o processo no calor tropical. Nos últimos meses, finalmente, foram colhidas as primeiras azeitonas made in Brazil. Embora o número de unidades seja bastante modesto -- 12 no total --, os cientistas confiam que estão perto de realizar mais um "milagre" dentro dos laboratórios agrícolas brasileiros. "As plantas ainda são muito jovens e estamos esperando boas novidades para as próximas safras", diz o agrônomo Paulo Roberto Coelho Lopes, responsável pelo projeto.
Quem conhece a história da pesquisa agrícola no país não duvida que, dentro de alguns anos, os brasileiros terão azeite de oliva nacional em suas mesas. Lopes faz parte do time de especialistas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) que se tornou referência internacional nessa área depois de realizar outras façanhas no campo. Uma das mais conhecidas consistiu em viabilizar a produção de soja na região do cerrado. Oriunda de clima temperado, a planta exigiu mais de duas décadas de pesquisas envolvendo melhoramento genético, correção do solo e novas técnicas de plantio para adaptar- se a novas condições. O processo de tropicalização foi um tremendo sucesso. Além de aumentar a produção nacional, a ponto de os grãos serem hoje o principal item da pauta de exportações brasileiras, a experiência abriu espaço para pesquisas semelhantes com diversas culturas, como trigo, algodão e cevada, entre outras.
Uma das armas mais conhecidas do arsenal dos cientistas para tropicalizar espécies é a genética. No caso da soja, por exemplo, foram necessárias pesquisas num banco de dados com cerca de 8 000 variedades da planta até chegar à fórmula ideal para o cerrado. Uma estratégia semelhante foi a que viabilizou o desenvolvimento de um pólo produtor de vinhos no Vale do São Francisco. Especialistas afirmavam que uvas para vinho só podiam ser produzidas com qualidade em regiões localizadas entre os paralelos 30 e 45 do hemisfério norte e entre os paralelos 29 e 43 do hemisfério sul -- o que, no Brasil, restringiria as áreas de cultivo aos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Mas o melhoramento genético permitiu vencer esse obstáculo climático. "Estamos fazendo excelente vinho no paralelo 8 do hemisfério sul, muito próximo à linha do Equador", afirma o português João Santos, diretor técnico da ViniBrasil, empresa formada pela parceria entre o grupo vinícola português Dão Sul e a importadora brasileira Expand. Atualmente, sete vinícolas estão instaladas na região, produzindo cerca de 7 milhões de litros de vinho por ano.
Ao lado da manipulação genética, o uso de novas técnicas de irrigação tem representado uma poderosa ferramenta no desafio de vencer o clima para viabilizar uma série de cultivos. Um exemplo disso é o café. Ele foi introduzido na região do cerrado na década de 70, mas só recentemente começou a apresentar bons resultados. No início, o amadurecimento dos frutos era desigual -- no máximo 30% da colheita era composta de grãos de alta qualidade. Para uniformizar a maturação, os pesquisadores desenvolveram uma técnica conhecida como estresse hídrico. Trata-se de uma forma de enganar a planta: após um período de irrigação farta, o fornecimento de água é suspenso durante cerca de dois meses, com o objetivo de simular a estação seca da África, continente de origem do café. Resultado: a florada passou a ser mais uniforme, elevando o índice de café de qualidade para 85%.
Embora os especialistas da Embrapa estejam por trás de boa parte dessas façanhas no campo, a adaptação de uma espécie ao país nem sempre exige grandes investimentos em pesquisa. Às vezes é resultado do esforço empírico de produtores individuais, como está acontecendo no Rio Grande do Sul com o mirtilo. Conhecida no exterior como blueberry, a pequena fruta azulada, originária da América do Norte, foi introduzida na região de Caxias do Sul no fim da década de 90. O agricultor Nestor Soga foi um dos primeiros a apostar na frutinha, usada na produção de geléias e licores. Hoje, passados oito anos desde as primeiras experiências, ele colhe 5 toneladas por ano de blueberry, além de vender mudas da planta para outros produtores. O agricultor chegou a esse ponto depois de desenvolver novas técnicas de irrigação para garantir o crescimento das mudas. "O segredo é colocar 2 litros de água por dia, podar com regularidade e tomar cuidado com o vento, porque a raiz é fina e superficial", afirma Soga.

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