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Em busca do equilíbrio verde

 | 14.06.2007

Empresas, produtores e ONGs fazem acordos e discutem novos procedimentos para evitar que o progresso econômico no campo passe por cima das normas trabalhistas e ambientais

 

Paulo Fridman/ Polaris

Cortadores em São Paulo:denúncias de condições desumanas de trabalho

Por Daniela Gillone

EXAME 

Durante os últimos cinco anos, o Mato Grosso liderou o ranking dos estados com o maior número de desmatamentos no país. A questão fez com que o movimento ambientalista iniciasse uma grande pressão sobre as autoridades e os fazendeiros locais, sobretudo os sojicultores, responsabilizados pelas ONGs de patrocinar boa parte da destruição. O alvo predileto foi o governador Blairo Maggi, do PMDB, que concilia a agenda de político com a de empresário encarregado das propriedades campeãs de produção de soja no planeta. Em 2005, ele recebeu dos ativistas o título "Motosserra de Ouro". Em razão desse histórico de beligerância, foi considerado muito relevante um acordo firmado em Cuiabá há poucos meses entre os principais envolvidos na questão. Entidades importantes, como o Instituto Socioambiental (ISA) e o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), irão fiscalizar os produtores rurais de Mato Grosso, com anuência dos próprios, a fim de evitar cultivos em áreas de proteção ambiental nas safras 2007 e 2008. "Esse acordo significa que os setores estão se organizando e buscando soluções para os problemas", afirma André Lima, advogado do ISA.

Zonas cinzentas
Quais são os principais problemas que atingem a imagem do agronegócio brasileiro
Força de trabalho
Há um alto índice de informalidade de mão-de-obra nas empresas, e alguns setores submetem os trabalhadores a condições desumanas
Meio ambiente
Os produtores são acusados de ignorar as regras ambientais a fim de garantir a expansão de seus negócios
Sistema de produção
O agronegócio ainda não erradicou práticas arcaicas, como as queimadas nos canaviais, que geram poluição com fuligem

O avanço de cultivos sobre áreas de proteção ambiental, como no caso de Mato Grosso, representa apenas um dos focos de questões preocupantes. Há também problemas graves ligados à manutenção de práticas arcaicas -- como a das queimadas em canaviais, que geram poluição com fuligem -- e uma série de denúncias com relação ao uso irregular de mão-de-obra. Por causa desse cenário, o protocolo firmado entre ONGs e fazendeiros em Cuiabá é um exemplo de que podemos estar diante de uma nova era no campo brasileiro, na forma de maior preocupação dos produtores com questões que ameacem a sustentabilidade do negócio. Existem alguns empresários que despertaram para a necessidade de mudanças urgentes. Mas a maior força motriz por trás de algumas transformações que começam a ocorrer é mesmo a econômica. "Muitos consumidores, além de evitar comprar móveis de empresas que desmatam a Amazônia ou produtos de companhias que infringem leis trabalhistas, também pressionam as multinacionais para que não importem matérias-primas de fornecedores que agem de forma irregular", afirma Roberto Waack, diretor do Forest Stewardship Council (FSC), organização internacional voltada para a certificação do manejo florestal responsável.

Independentemente da motivação por trás de algumas iniciativas, o fato é que há um número cada vez maior de produtores e empresas trabalhando para que o progresso econômico no campo não passe por cima das normas ambientais ou trabalhistas. No universo da soja, além do recente protocolo de Cuiabá, há outra iniciativa ambiciosa envolvendo a proteção da floresta Amazônica. Diante das seguidas denúncias de avanço de produtores na região da floresta, os processadores e exportadores de grãos decretaram no ano passado uma moratória. Segundo o acordo, essas empresas comprometeram-se a não comprar grãos produzidos em áreas devastadas por um período de dois anos. Ao mesmo tempo, em parceria com grandes ONGs ambientalistas, os envolvidos no setor começaram a discutir os critérios para a criação de um selo de certificação ambiental para a soja plantada na Amazônia e em outras regiões do mundo.

Outra boa notícia é que grandes em presas têm hoje projetos muito consistentes na área de sustentabilidade. Um exemplo é a Suzano Papel e Celulose, que conserva em média 40% da cobertura vegetal original em suas plantações de eucaliptos -- isso representa o dobro do estipulado por lei. Outra iniciativa importante partiu da União de Indústrias de Cana de Açúcar (Única). No início de junho, a entidade assumiu o compromisso com o governo de São Paulo para eliminar até 2014 as queimadas nas chamadas " áreas mecanizáveis". Em muitos casos, adotar uma atitude desse tipo representa um custo nada desprezível para as companhias envolvidas. A Sadia investiu recentemente cerca de 60 milhões de reais em seu Programa de Suinocultura Sustentável. O projeto consistiu na implantação de sistemas biodigestores em 850 propriedades de fornecedores, com o objetivo de evitar a liberação na atmosfera do gás metano proveniente dos dejetos dos animais.

Muitas vezes, porém, as soluções para alguns dos problemas do setor de agronegócio não dependem apenas de investimentos das empresas. Um caso típico diz respeito à mão-de-obra que labuta nas plantações de empresas do setor de açúcar e álcool. Mais graves do que a baixa remuneração e o alto índice de informalidade são as condições de trabalho. O saldo é trágico. Somente em São Paulo foram registradas 18 mortes em canaviais nos últimos três anos. A suspeita é que essas ocorrências foram provocadas por exaustão física dos cortadores de cana.

A solução óbvia é a substituição dos cortadores por equipamentos capazes de executar a mesma função. Algumas empresas estão bem à frente nesse processo. A Moema, uma das grandes usinas do interior paulista, investiu nos últimos anos 50 milhões de reais para mecanizar 50% do corte de cana. "No futuro, pretendemos chegar a 90%", afirma Maurílio Biagi Filho, presidente da Moema. À medida que as usinas investem em mecanização, porém, aumenta também a preocupação com o desemprego em massa no campo que esse processo pode acarretar. Uma das alternativas para contornar o problema é o investimento na qualificação dos atuais cortadores para outras funções no campo. O episódio mostra que o caminho do agronegócio brasileiro rumo aos padrões desejáveis de sustentabilidade, além de não ter atalhos fáceis, encontra-se apenas no começo.

 
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