A transformação do etanol brasileiro numa das principais estrelas do mercado energético global vem fazendo a alegria de Sertãozinho, município com pouco mais de 100 000 habitantes do interior de São Paulo, a 350 quilômetros da capital. Localizada no coração da rica região canavieira do norte do estado, que concentra extensas plantações e cerca de 50 usinas de açúcar e álcool, a cidade é hoje o principal pólo de tecnologia para essa indústria no país. Graças a isso, ganhou o apelido de Vale do Silício do etanol. Existem por lá aproximadamente 500 empresas, das quais 90% são voltadas para o fornecimento de todo tipo de máquinas e equipamentos para o setor. O local abriga também dois eventos que estão entre os maiores do mundo nessa área -- a Feira Internacional da Indústria Sucroalcooleira (Fenasucro) e a Feira de Negócios e Tecnologia da Agricultura da Cana-de-Açúcar (Agrocana). Eles são realizados simultaneamente, e sua última edição, no final do ano passado, reuniu um público de 55 000 visitantes. "Os negócios por aqui passam por um momento excepcional", afirma Marcelo Pelegrini, secretário da Indústria e Comércio de Sertãozinho.
A economia da cidade gira hoje em torno do etanol. As avenidas do município são repletas de galpões de empresas que fabricam produtos para o setor, divididas em quatro distritos industriais (um quinto está em construção). Em sua maior parte, os empreendimentos são de pequeno e médio porte, com faturamento anual entre 2 milhões e 120 milhões de dólares. Com grande dose de orgulho, o empresariado local costuma dizer que em Sertãozinho é possível comprar uma usina completa, desde os parafusos mais simples até a turbina de co-geração de energia. "Além do 'kit básico' para montar uma usina, as empresas locais investem pesado no desenvolvimento de novas tecnologias para impulsionar a produção", afirma Mário Garrefa, presidente do Centro das Indústrias de Sertãozinho e Região (Ceise).
Um dos exemplos de empresas que produzem tecnologia de ponta para o negócio é o da fábrica de automação industrial Smar. Instalada na cidade desde 1974, ela encontra-se hoje na liderança do segmento de produção de equipamentos para controle eletrônico de processos industriais no país e também é uma das maiores do mundo nesse campo. Entre outros itens desenvolvidos pela Smar estão alguns dos mais eficientes softwares para gerenciar processos importantes dentro das usinas, como a variação de temperatura das caldeiras. Para continuar à frente no mercado, a Smar investe 12% de seu faturamento anual de 100 milhões de reais em pesquisa e desenvolvimento. Para isso, mantém uma equipe de 200 funcionários -- entre engenheiros, físicos e matemáticos --, especializada no desenvolvimento de softwares e equipamentos. Esse time ajudou a empresa a tornar-se campeã brasileira do setor em número de patentes -- são aproximadamente 50, das quais 30 já foram homologadas ou aprovadas, enquanto as restantes aguardam a certificação. "Só algumas empresas dos Estados Unidos e do Japão podem concorrer conosco", afirma o empresário Paulo Lorenzatto, um dos proprietários da Smar.
O bom momento do etanol reflete-se diretamente na economia de Sertãozinho e nos resultados das indústrias ali instaladas. Nos últimos anos, a arrecadação de ICMS pela prefeitura mais que triplicou (veja quadro). Isso é um reflexo direto dos resultados financeiros das empresas ligadas ao circuito do álcool, que são de longe as maiores pagadoras de impostos da cidade. O faturamento da Smar, por exemplo, aumentou 25% em 2006. A previsão é que, até o final de 2007, ele cresça mais 50%. Além de venderem para o aquecido mercado interno, as companhias do Vale do Silício caipira vêm ganhando espaço no exterior. A Caldema, por exemplo, uma das maiores fabricantes de caldeiras para usinas no país, já exportou para mais de 20 países, entre eles Irã, México e Argentina. Atualmente, as vendas internacionais representam uma fatia de 10% do faturamento anual de 114 milhões de reais da Caldema. É da empresa um dos projetos mais inovadores do setor, uma caldeira do tipo Monodrum. Considerado o maior do mundo em sua categoria, com 2 500 toneladas e 30 metros de altura, o equipamento, avaliado em 50 milhões de reais, tem capacidade de produção equivalente à de três caldeiras convencionais.
O estágio de desenvolvimento de empresas como a Caldema é fruto de uma tradição de Sertãozinho no setor que remonta aos anos 50. Naquela época, instalou-se na cidade a pioneira nesse ramo, a Zanini, responsável pela criação de inúmeros equipamentos inovadores para a produção de etanol e uma das maiores desse mercado até os anos 80. A partir de então, devido à crise do programa Proálcool, a Zanini começou a enfrentar dificuldades. Em 1992, para sobreviver, fundiu-se com outra empresa do setor, em Piracicaba, o que gerou a companhia DZ. A sociedade não deu certo e foi encerrada em 1994. Boa parte dos funcionários mais qualificados da antiga Zanini resolveu continuar no ramo, investindo em negócios próprios, gerando o embrião que resultou no atual Vale do Silício caipira.
| Máquina de riqueza | |
| As 500 empresas ligadas ao mercado de etanol em Sertãozinho são as maiores geradoras de receita para o município. Com a evolução dos negócios do setor,a arrecadação de ICMS mais que triplicou nos últimos seis anos | |
| Arrecadação de ICMS (em milhões de reais) | |
| 2000 | 34 |
| 2003 | 45 |
| 2005 | 60 |
| 2006 | 113 |
| Fonte: Secretaria da Fazenda do Governo do Estado de São Paulo | |
A TGM, uma das gigantes nacionais do mercado de turbinas para usinas, está na relação das empresas que nasceram de uma "costela" da Zanini. Todos os seus cinco proprietários trabalharam como técnicos ou gerentes da pioneira do álcool na cidade. Calcula-se que mais de 90% dos empresários que tocam negócios ligados ao etanol em Sertãozinho tinham algum tipo de relação com a Zanini. "Com o fim dessa empresa, somente quem conhecia bem o ramo sabia que ele tinha potencial para recuperar-se depois da crise do Proálcool", afirma Lorenzatto, que trabalhou como engenheiro da Zanini antes de montar a Smar. Como demonstra a atual fase da economia de Sertãozinho, a aposta dos empreendedores do Vale do Silício do etanol revelou-se acertada.