Em 1996, o produtor rural Vanir Kolln deixou o Paraná e se instalou com a família no oeste baiano, mais precisamente na cidade de Luís Eduardo Magalhães, a 954 quilômetros da capital do estado, onde iniciou suas plantações de soja e milho. Onze anos depois, como a colheita de lucros não foi satisfatória, seus três filhos não demonstram o menor interesse em dar continuidade ao negócio desenvolvido pelo pai na fazenda de 1 600 hectares. A história está longe de representar uma exceção. O sindicato dos produtores rurais do município, presidido por Kolln, fez no início do ano uma pesquisa com os 310 associados para saber se eles já haviam pensado em desistir. Nada menos que 70% deles disseram que sim. Para quem olha de longe, é um pouco difícil entender essa situação de desânimo. O PIB de Luís Eduardo Magalhães evolui 20% ao ano desde 2000, um número de deixar até chineses e indianos de queixo caído. Além de viver um momento economicamente excepcional, o lugar possui terra fértil e sol em abundância. "Se contássemos com uma boa infra-estrutura, isso aqui seria o paraíso", afirma Kolln.
Atualmente, a produção de grãos de Luís Eduardo Magalhães e outras cidades do oeste baiano é escoada pelos portos de Aratu e de Ilhéus, localizados a mais de 900 quilômetros. "Qualquer cultura que necessite rodar mais de 500 quilômetros para chegar a um terminal está em desvantagem", diz o agrônomo José Maria da Silveira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um dos autores de recente estudo sobre os efeitos dos gargalos logísticos no estado. Segundo Silveira, até agora essas deficiências têm sido compensadas por vantagens competitivas. Uma delas é o custo da terra, em média 2 500 reais por hectare, enquanto no interior de São Paulo chega a 6 000 reais por hectare. O uso intensivo de tecnologia também representa um diferencial da região. Por ser uma fronteira agrícola nova, quem chega ao lugar já começa utilizando as mais modernas técnicas de produção. "Mas a situação atingiu o limite e, caso não sejam feitas obras importantes no setor de transportes, o futuro do agronegócio na Bahia estará comprometido", afirma Silveira.
Um dos projetos considerados prioritários é o da construção da ferrovia LesteOeste (veja quadro abaixo). Ela teria 560 quilômetros de extensão e permitiria ligar o oeste da Bahia ao porto de Aratu. Mas a obra vem sendo tocada em banho-maria devido a seu elevado custo, estimado em 1,7 bilhão de reais. Outro problema que precisa ser atacado com urgência na área de transportes é o da manutenção das rodovias. De acordo com um levantamento do Guia Quatro Rodas Rodoviário, a Bahia tem 1 454 quilômetros de estradas em péssimo estado de conservação -- só Minas Gerais, que tem 1 743 quilômetros de estradas ruins, é pior nesse quesito. "Por causa das estradas esburacadas, pagamos fretes até 35% mais caros que os de outras regiões", diz o produtor Humberto Santa Cruz Filho, presidente da Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba).
Num período em que o agronegócio vem crescendo em vários lugares do Brasil, a participação da Região Nordeste nesse mercado ainda é relativamente pequena. Na safra de grãos deste ano, os nove estados nordestinos vão colher 11,4 milhões de toneladas, 8,6% do total do país. Isso mesmo com a região tendo os resultados inflados nos últimos anos pelo ótimo desempenho do oeste baiano. Os plantadores de soja desse local vão produzir em média 2 900 quilos por hectare nesta safra, ante 2 600 quilos na Região Sul. A performance nas fazendas de café é 20% superior à média nacional. No algodão, a região colhe 4 400 quilos por hectare, produtividade só alcançada por Mato Grosso. "Temos tecnologia e terra boa. Só falta um jeito de levar a produção sem perder tanto no caminho", diz o produtor Santa Cruz.
Em outros estados do Nordeste, os agricultores enfrentam o mesmo problema da falta de infra-estrutura. A exemplo do oeste baiano, o principal gargalo é o do setor de transportes. A grande esperança está na construção da ferrovia Transnordestina, vista como o caminho ideal para melhorar o escoamento de grãos e do algodão do cerrado piauiense e maranhense e das frutas produzidas em Pernambuco. Para o alento dos produtores da região, a Transnordestina foi selecionada entre as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, com custo estimado em 4,5 bilhões de reais. "Entre as obras do PAC, a Transnordestina é uma das que estou mais seguro de que sairão do papel, graças ao interesse político em fazê-la", diz Paulo de Tarso Resende, especialista em logística da Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais. É esperar para ver.