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O novo salto do agronegócio

 | 14.06.2007

Depois da grave crise nos últimos anos, o setor se recupera com velocidade impressionante no Brasil, bate recorde de produtividade e desponta para liderar o mercado mundial dos negócios do campo no século 21

 

Depósito de milho no Paraná: safra de 134 milhões de toneladas de grãos

Por Felipe Seibel

EXAME 

Durante a ditadura do Estado Novo, entre 1937 e 1945, Getúlio Vargas gostava de utilizar em discursos a expressão "celeiro do mundo" para traduzir a idéia de que o Brasil estava destinado a se transformar num gigante dos negócios do campo. Essa imagem, que sempre soou como mais um dos arroubos ufanistas da era Vargas, nunca fez tanto sentido quanto agora. O país hoje é, inquestionavelmente, um dos grandes da área em termos de produtividade e emprego de alta tecnologia, além de possuir um grande potencial de evolução. Essa posição privilegiada é reconhecida por vários especialistas internacionais, como o ex-secretário de Estado americano Colin Powell, que descreveu o Brasil como a nova superpotência agrícola, e o agrônomo americano Norman Borlaug, prêmio Nobel da Paz em 1970 em reconhecimento à sua contribuição ao processo conhecido como "revolução verde", que permitiu triplicar o plantio de alimentos nas últimas cinco décadas. Numa visita a Mato Grosso do Sul, Borlaug surpreendeu-se com a pujança das plantações e declarou não haver dúvida sobre qual nação tem atualmente vocação para liderar o agronegócio mundial. "O Brasil pode representar um papel tão importante no cenário da agricultura quanto os Estados Unidos nessa área durante o século 20", afirmou.

Por qualquer ângulo que se analise o mercado, o tamanho que o Brasil adquiriu no campo do agronegócio é impressionante. O país é líder mundial de exportação de açúcar, café, suco de laranja e soja. Assumiu também a dianteira nos segmentos de carne bovina e frango, depois de ultrapassar tradicionais concorrentes, como Estados Unidos e Austrália. Essas boas posições devem consolidar-se ainda mais nos próximos anos (veja quadro ao lado). Até 2015, a participação nacional no mercado internacional de soja deve crescer dos atuais 36% para 46%. No caso do frango, o salto será de 58% para 66%. Nas áreas em que o país ainda tem uma fatia pequena do comércio mundial, as evoluções devem ser muito maiores. Na suinocultura, por exemplo, de acordo com previsões dos especialistas da área, o Brasil deve quadruplicar sua participação, conquistando metade do mercado internacional. "Num futuro próximo, a suinocultura será tão importante para a balança comercial do país quanto são hoje o frango e a carne bovina", afirma Pedro de Carmargo Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína (Abipecs).

As vantagens do Brasil no campo da agricultura são enormes. Nenhum outro lugar do mundo tem a mesma conjunção de vantagens naturais, como clima favorável, água e terras em abundância para a utilização agrícola. De acordo com estudo da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o país possui 60 milhões de hectares de terrenos utilizados em algum tipo de atividade no campo -- e outros 300 milhões de hectares ainda disponíveis. Entre os países avaliados pela pesquisa da FAO, a Rússia é o segundo país com maior estoque de terras disponíveis -- 160 milhões de hectares. Os Estados Unidos, por sua vez, possuem "apenas" 150 milhões de hectares para a expansão de sua atual fronteira agrícola.

Raio X agrário
Algumas das principais características do setor, segundo levantamento do ANUÁRIO EXAME DE AGRONEGÓCIO entre as 500 maiores
Desempenho em 2006
Vendas (em bilhões de reais) 402
Lucros (em bilhões de reais) 8
Controle acionário Em nº de empresas
Brasileiro 388
Estatal 6
Estrangeiro 106
Número de mepregos
586000

Além das vantagens naturais, existe uma conjuntura muito favorável para os negócios do Brasil no campo nos próximos anos. Num cenário de curto prazo, o país deve beneficiar-se da alta de preços de algumas das principais commodities agrícolas no mercado internacional, como café, açúcar e soja. A tendência de valorização varia de 10% a 15%, dependendo da cultura. Essa inflação vem sendo ocasionada por quebras de safras de importantes países produtores e pelo aquecimento da demanda por alimentos provocada pela evolução da população mundial. Essa pressão deve tornar-se ainda maior no futuro. Com taxa de crescimento demográfico mundial estimada em 30% até 2020, proporcionada em sua maior parte por China e Índia, haverá um impulso grande para o aumento da produção de alimentos. "O Brasil é a nação que tem as melhores condições para suprir essa necessidade", afirma Marcos Jank, presidente do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Ícone).

A atual posição do país no mercado agrícola mundial deve-se, essencialmente, à capacidade empreendedora dos agricultores. A grande evolução tecnológica e de produtividade obtida nas últimas décadas representa uma das mais bem-sucedidas histórias de empreendedorismo do capitalismo brasileiro. Nem sempre, é verdade, o setor esteve sintonizado com a modernidade. Até o início da década de 80, com bastante justiça, essa área era vista como uma das mais atrasadas, capaz de sustentar-se apenas com ajuda estatal -- por exemplo, pela via de créditos subsidiados concedidos por instituições como o Banco do Brasil. Naquela época, o país produzia pouco mais de 50 milhões de toneladas por safra. Depois de um tempo, a muleta do crédito subsidiado acabou e os produtores tiveram de se virar por conta própria. Boa parte resolveu investir na profissionalização da gestão e em melhorias de técnicas de plantio, área em que a ajuda dos técnicos da Empresa Brasileira de Agropecuária (Embrapa) revelou-se fundamental, como na saga da conquista do cerrado pela soja. Como resultado dessa evolução, o Brasil deverá colher em 2007 nada menos do que 134 milhões de toneladas de grãos, um recorde histórico.

A pequena participação estatal no agronegócio brasileiro pode ser medida pelo ranking das 500 maiores empresas publicado neste anuário. Entre as empresas listadas, apenas 6% são controladas pelo governo. No conjunto, as 500 maiores foram responsáveis por mais de 400 bilhões de reais em vendas e um lucro de 8 bilhões de reais em 2006 (veja quadro na pág. 18). Um dos grandes destaques da lista foi a evolução das empresas do mercado de açúcar e álcool, impulsionada pelo crescente interesse mundial em torno do etanol. Oito delas estão na relação das que mais cresceram no ano passado entre as 500 maiores do agronegócio. O setor também foi o campeão de exportações no universo avaliado por este anuário, com vendas de 9,1 bilhões de reais no ano passado. "O atual estágio do agronegócio é muito promissor, mas não basta a iniciativa privada fazer a lição de casa. É preciso que o governo acabe de uma vez por todas com os gargalos que inibem hoje um crescimento ainda mais forte do setor", afirma Jank.

O impulso do etanol
De acordo com o levantamento EXAME/Fipecafi, graças aos biocombustíveis, o setor de açúcar e álcool teve um desempenho acima da média em crescimento e exportações
Crescimento
Entre as 20 empresas do agronegócio que mais evoluíram em 2006, oito são do setor de açúcar e álcool
Exportações
O setor foi o campeão em vendas para o exterior no período
Setor Exportações em 2006 (em R$ bilhões)
1º Açúcar e álcool 9,1
2º Óleos, farelos, farinhas, massas e conservas 8,8
3º Aves e suínos 7,9
4º Madeira, celulose e papel 7,8
5º Atacado e comércio exterior 4,9

Um dos grandes entraves é a infra-estrutura, em particular a precariedade da malha rodoviária do país. De acordo com uma das pesquisas mais recentes sobre o assunto, elaborada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), dos 84 832 quilômetros avaliados, 37% encontram-se em estado péssimo de conservação e outros 32% possuem alguma deficiência. Em razão desse tipo de problema, regiões com potencial no agronegócio, como o Nordeste, ainda não conseguiram deslanchar (veja reportagem na pág. 24). As medidas de controle sanitário também estão na relação de assuntos importantes que vêm sendo negligenciados pelo governo.

Veja quadro

O potencial de prejuízos que isso pode acarretar aos produtores já foi demonstrado nos últimos anos. Por causa do surgimento de focos de febre aftosa em Mato Grosso do Sul e no Paraná, mais de 50 países impuseram embargo à carne bovina desses estados, que estão entre os maiores produtores nacionais. Além do embargo à carne bovina, o agronegócio brasileiro sofreu com o surto de gripe aviária, que prejudicou as exportações mesmo de países que não registraram casos da doença (como o Brasil). Para completar o cenário de desgraças que se abateram sobre o campo, houve quebras de safras por problemas climáticos no Sul e pela variação da cotação do dólar desfavorável aos agricultores -- eles compraram insumos importados (como fertilizantes e sementes) com o dólar em alta e, na hora da venda da produção, a cotação estava em baixa. O conjunto de problemas provocou uma série de manifestações de agricultores em Brasília (apelidadas de "tratoraços") e contribuiu para a saída do ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues. Também provocou a retração do PIB do setor em 1,54%, o equivalente a um prejuízo de 8 bilhões de reais.

No final do ano passado, porém, o mercado já dava sinais de recuperação. A nova safra não deve enfrentar os mesmos problemas recentes. Questões como a febre aftosa e a gripe aviária foram contornadas e os setores prejudicados retomaram suas vendas ao exterior. Além disso, o câmbio estável deu segurança aos produtores para realizar os investimentos na safra. "A situação é melhor, mas o real valorizado ainda é um problema, pois acaba corroendo parte dos lucros que os produtores poderiam ter com a alta de preços das commodities", afirma Reinhold Stephanes, que assumiu em março o Ministério da Agricultura.

Apesar do problema cambial, os produtores já vêm dando mostras de que o clima de otimismo voltou ao setor. Um dos termômetros disso foi o desempenho da feira Agrishow, realizada em abril na cidade de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. O evento registrou um aumento de 60% nas vendas de máquinas agrícolas em relação ao ano passado. De acordo com os especialistas, a rápida recuperação do setor, depois de dois anos de uma grave crise, é um exemplo da força do agronegócio brasileiro. "Mas a situação serve de alerta, sobretudo num momento em que deve ficar mais acirrada a competição internacional", afirma Ademerval Garcia, presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Cítricos (Abecitru).

A China é um dos países que vêm investindo alto para melhorar sua performance no campo. Na área de cítricos, o país tem o projeto de atingir até 2015 uma produção total de 1,5 milhão de toneladas a fim de diminuir sua dependência das importações do Brasil. "Numa visita recente à China, tive a oportunidade de conferir de perto os avanços dessa nação no campo", afirma Garcia. "A capacidade de planejamento deles é algo muito impressionante." O gigante da economia asiática não é o único competidor que desponta no cenário internacional. Devido às extensas áreas ainda não utilizadas pela agricultura, vários países da África também devem ter um peso no comércio mundial nos próximos anos, sobretudo em culturas como algodão e arroz. Outra região que pode apresentar uma grande evolução é o Leste Europeu, onde a agricultura familiar de subsistência está sendo substituída por esquemas de produção profissionais. "A antiga 'Cortina de Ferro' deverá se transformar num pólo de cereais", diz Guilherme Silva Dias, professor de economia agrícola da Universidade de São Paulo. Apesar dos avanços de outros países, nenhum deles tem potencial de desenvolvimento tão grande nessa área quanto o brasileiro. Mais do que as qualidades dos concorrentes que despontam no cenário, são as conhecidas deficiências do Brasil a única coisa que pode fazer o país não cumprir a profecia de se tornar o "celeiro do mundo".

 
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