No início do ano passado, em meio a uma das piores crises do agronegócio brasileiro, EXAME decidiu lançar o primeiro número de um anuário dedicado ao setor. Parecia um péssimo momento para uma iniciativa como aquela. Nós, no entanto, enxergamos uma oportunidade. Era a chance de mostrarmos ao mercado e aos leitores o tamanho de nossa crença no potencial do agronegócio brasileiro. Sabíamos que a crise era profunda e dolorosa. Mas também sabíamos que, graças a todas as vantagens do Brasil na produção agrícola, ela teria de ser necessariamente passageira. O que aconteceu ao longo de 2006 e vem acontecendo atualmente mostra que nossa visão está essencialmente correta. O agronegócio brasileiro -- mesmo enfrentando os problemas de infra-estrutura, as pressões ambientais (algumas legítimas, outras nem tanto) e o enfraquecimento do dólar -- vive um período esplendoroso e dá uma enorme contribuição ao bom momento da economia do país. Pode-se colecionar uma série de motivos para a virada -- a ajuda do clima, um mundo em crescimento, a entrada no mercado global de milhões de pessoas que precisam ser alimentadas. Todos eles são reais. Mas seria um equívoco ignorar a enorme modernização pela qual o setor vem passando. Ela fica evidente na área de açúcar e álcool. Os velhos usineiros, que por décadas dominaram a produção do etanol, estão sendo substituídos por corporações com ações em bolsa e investidores estrangeiros. (O agronegócio já é um dos setores mais atraentes da Bovespa.) As usinas, cuja imagem pública foi marcada pelo trabalho extenuante dos bóias-frias, são cada vez mais invadidas pela alta tecnologia. Uma série de fusões e aquisições milionárias funciona como motor para o aumento da escala e da competitividade e para a formação de companhias com musculatura global. No mercado de trabalho, executivos capazes de administrar essas novas empresas nunca foram tão procurados e valorizados.
No setor de carne, o Brasil surge como sede da maior multinacional do planeta. Num lance surpreendente, o Friboi adquiriu a americana Swift, uma marca de 150 anos de história. Ninguém produz soja com tanta eficiência quanto os agricultores brasileiros. Após anos de perda de prestígio, o café brasileiro começa a recuperar sua fama no mundo. Fazendas como a paranaense Frankanna, descrita em uma das reportagens deste anuário, estão entre as mais modernas do mundo. Esse é o retrato que surge nesta segunda edição do ANUÁRIO EXAME DE AGRONEGÓCIO. A análise das 500 maiores empresas do setor, feita pela Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi/USP), mostra um faturamento somado de 400 bilhões de reais e exportações de 49,8 bilhões de reais em 2006. Com base nessa lista, foi possível apontar os melhores desempenhos em 17 setores do agronegócio. Os relatos da trajetória e dos resultados dessas companhias expõem um Brasil pujante e, muitas vezes, escondido. Um país que vale a pena conhecer.
A missão de jogar luzes sobre as oportunidades e os desafios do agronegócio brasileiro foi entregue a uma equipe de 29 jornalistas, coordenados pelo redator-chefe André Lahóz, pelo editor executivo Sérgio Ruiz Luz e pelo editor Ernesto Yoshida. A equipe rastreou o país. Cobriu as dificuldades dos produtores do Nordeste, punidos com a falta de infra-estrutura. Foi até o Paraná para conhecer aquela que é considerada a melhor fazenda brasileira. Conheceu o Vale do Silício do etanol, a cidade paulista de Sertãozinho, onde dezenas de empresas crescem ancoradas no desenvolvimento de novas tecnologias para a indústria do etanol. Mostrou o glamour que cerca o negócio de leilões de gado -- nos quais a venda de bois e vacas vem acompanhada de celebridades e uísque 15 anos.
Diante de tantos dados superlativos e de tudo o que vem acontecendo no campo, é difícil discordar de que uma parte considerável do futuro da economia brasileira está ligada ao agronegócio. O mundo nos olha com atenção -- alguns nos temem -- pelo simples fato de que somos competitivos como poucos. Somos e podemos ser ainda mais. Hoje, muitas das inovações perseguidas por cientistas e pesquisadores brasileiros estão relacionadas ao setor. Novos saltos estão prestes a ser dados. Anos ruins podem voltar a acontecer. Anos bons virão em seguida. Tentar prever esse ritmo dos acontecimentos é bobagem. O que parece inquestionável é que o Brasil está marcado para ser uma das grandes potências mundiais do agronegócio. Será preciso muita gente fazendo muita bobagem para escapar disso