
Nos últimos 30 anos, o Brasil acumulou um estoque de conhecimento em agricultura tropical sem paralelo no mundo. O grande divisor de águas foi a fundação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em 1973, peça-chave para a espetacular expansão do agronegócio desde então. Quando a Embrapa foi criada, o país colhia 35 milhões de toneladas de grãos espalhados em 24 milhões de hectares. Neste ano, a estimativa é de mais de 120 milhões de toneladas em 47 milhões de hectares -- ou seja, enquanto a área plantada dobrou de tamanho, a produção mais que triplicou, o que corresponde a um aumento de produtividade de quase 80%. Esse formidável salto só foi possível graças a uma série de tecnologias desenvolvidas para as condições ambientais do país. O caso mais expressivo é o da soja, planta de clima temperado que foi adaptada para regiões de baixa latitude. Na busca por "tropicalizar" a planta, a Embrapa lançou mais de 200 novas variedades de soja. O sucesso no terreno científico vem rendendo muito dinheiro ao país -- só em 2005 as exportações de soja geraram divisas de 9,5 bilhões de dólares.
O desafio agora é manter o pé no acelerador. "A tecnologia foi a alavanca de nossa competitividade, mas ela exige investimentos permanentes", diz Roberto Rodrigues, ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. "Não podemos parar nunca." Uma das dificuldades para o Brasil não ficar para trás na corrida tecnológica é que as pesquisas em áreas emergentes, como biotecnologia e agroenergia, são cada vez mais sofisticadas -- e caras -- e não podem depender dos escassos recursos públicos. Rodrigues quer criar um mecanismo de financiamento das pesquisas em agronegócio pelo setor privado. A idéia é que as cooperativas e as agroindústrias destinem um percentual de seu faturamento a um fundo de desenvolvimento tecnológico, gerido pelas próprias empresas. "É justo que o setor privado contribua, já que é o principal beneficiário das tecnologias geradas", diz.
Algumas experiências mostram que parcerias entre os setores público e privado podem ser uma saída para viabilizar projetos de grande envergadura. É o caso do Genolyptus, programa de pesquisa do genoma de eucalipto, a principal matéria-prima da celulose, da qual o Brasil é o sétimo maior produtor mundial. O objetivo é mapear o DNA da planta e, assim, conseguir elaborar variedades mais produtivas e que resultem em celulose de melhor qualidade. O projeto conta com a participação da Embrapa, de sete universidades e 14 empresas do setor de papel e celulose, entre elas Aracruz, Suzano, VCP e Klabin. O programa, que teve início em 2002 e deve se estender até 2007, vai exigir investimento de 12 milhões de reais, custeado pelas participantes. O programa já realizou a triagem de 150 000 seqüências de DNA do eucalipto, formando o maior banco de dados genômicos da planta no mundo. "Os participantes vão compartilhar o material genético e as patentes resultantes do projeto", diz Dario Grattapaglia, coordenador do Genolyptus.
| Cinco tecnologias estratégicas para o país |
| Elas foram fundamentais para aumentar a competitividade do agronegócio brasileiro |
| 1 - Tropicalização da soja Planta de clima temperado, a soja não se dava bem no Brasil. Graças ao programa de melhoramento genético da soja nos trópicos, a cultura foi adaptada a baixas latitudes. Hoje o país é o segundo maior produtor mundial e líder em exportação desse grão |
| 2 - Incorporação do cerrado Um conjunto de tecnologias, entre as quais o manejo da fertilidade do solo e o plantio direto, permitiu o desenvolvimento da agricultura em larga escala no cerrado, que representa cerca de 25% do território brasileiro e é a maior área agricultável disponível no planeta |
| 3 - Seleção de plantas forrageiras O desenvolvimento de plantas forrageiras adaptadas às condições brasileiras possibilitou uma alimentação de baixo custo do rebanho bovino. Com isso, o Brasil pôde aumentar a oferta de carne e se tornar o maior exportador do mundo |
| 4 - Produção de álcool de cana Nos últimos 30 anos, a produtividade média da cana no Brasil aumentou de 48 para 79 toneladas por hectare. O custo de produção do álcool nesse período caiu de 850 para 200 dólares o metro cúbico, o que viabilizou seu uso como combustível alternativo ao petróleo |
| 5 - Produção de celulose de eucalipto Originário da Austrália, o eucalipto chegou ao Brasil no século 19. Graças a técnicas desenvolvidas aqui, o país produz madeira para celulose em sete anos, um terço do tempo de nações concorrentes. A área plantada brasileira é a maior do mundo |
Para que as pesquisas científicas deslanchem no país, também a universidade brasileira terá de passar por mudanças. Segundo dados do Instituto Inovação, os pesquisadores brasileiros são responsáveis por 1,7% dos artigos publicados em periódicos científicos internacionais, mas o país participa com apenas 0,2% dos pedidos de patentes no mundo. Esse descompasso sinaliza que há muito conhecimento represado na comunidade acadêmica. "São pesquisas que não se transformam em processos ou produtos e, assim, não chegam à sociedade", diz Paulo Tadeu Leite Arantes, diretor executivo do Centro Tecnológico de Desenvolvimento Regional de Viçosa, em Minas Gerais. Para acelerar a transferência desse conhecimento para o mercado, Arantes propõe a criação de incubadoras de empresas e a instalação de parques tecnológicos em torno das universidades. Seria uma forma de aproximar os centros de pesquisa e o mercado -- e de o Brasil não interromper a revolução no campo iniciada há mais de três décadas.