
O aumento da sofisticação e a multiplicação do agronegócio brasileiro nos últimos anos levou a uma espetacular expansão na oferta de cursos destinados a preparar profissionais para administrar empresas do setor. De acordo com dados do Grupo de Estudos e Pesquisas Agroindustriais (Gepai) da Universidade Federal de São Carlos (UFScar), em 2000 havia no Brasil apenas três cursos de graduação com ênfase na gestão do agronegócio. Hoje há 100 desses cursos em todo o país. Essa explosão na oferta foi acompanhada por uma mudança no perfil dos alunos. Até pouco tempo atrás, a gestão do agronegócio era uma carreira que atraía sobretudo engenheiros agrônomos e técnicos ligados diretamente às atividades do campo. Mas a necessidade de maior profissionalização do setor, aliada ao crescimento dos negócios que gravitam em torno da produção agropecuária, vem atraindo outro tipo de profissional. Fazem parte dos grupos que freqüentam os cursos advogados, jornalistas, administradores e economistas -- profissionais que enxergam na agroindústria oportunidades de desenvolver carreiras tão promissoras quanto bem remuneradas. "A mudança no perfil dos cursos e das pessoas que os procuram é um reflexo da evolução do setor", diz Luiz Antônio Pinazza, coordenador do curso de Gestão Estratégica em Agribusiness da Fundação Getulio Vargas (FGV) de São Paulo. "Os primeiros cursos ficavam atrelados à gestão da fazenda. Hoje a atenção é colocada sobre toda a cadeia produtiva."
A exigência de mão-de-obra qualificada parte do nível operacional -- máquinas e equipamentos agrícolas estão cada vez mais sofisticados e precisam ser operados por profissionais especializados -- e chega aos cargos executivos. Para ocupar um posto de comando numa empresa de agronegócio, são necessários profissionais com conhecimento panorâmico de toda a cadeia, que inclui a produção de insumos, a agropecuária, a agroindústria e a distribuição para o consumidor final. É preciso ter também visão apurada do mercado -- e boa noção das técnicas de marketing -- para identificar mudanças de hábitos dos consumidores, estar a par das novas soluções de logística e perceber as oportunidades de negócios que surgem no mercado internacional. "Os administradores precisam entender profundamente o funcionamento de todo o sistema agroindustrial", diz o professor Mário Otávio Batalha, coordenador do Gepai.
| Fábricas de gestores | |
| Número de cursos de graduação de gestão agroindustrial no Brasil | |
| 2000 | 3 |
| 2005 | 100 |
| Fonte: Gepai/UFScar | |
A inserção no mercado internacional e a necessidade de utilização de instrumentos financeiros sofisticados abriram espaço para algumas funções específicas. Nunca como hoje o executivo da área financeira foi tão valorizado no agronegócio. Recentemente o Friboi, o maior frigorífico do país, convidou Augusto Cruz, ex-presidente do grupo Pão de Açúcar, para assumir seu departamento administrativo e financeiro. A missão de Cruz é preparar a empresa para lançar ações na bolsa de valores, uma tendência que começa a ser seguida com mais empenho pelo setor agroindustrial. "Nota-se um movimento de recrutamento de pessoal com credibilidade no mercado para tornar a operação mais confiável", diz Sílvia Sigaud, headhunter especializada em agronegócios e sócia da consultoria Korn/Ferry International. Os executivos das maiores empresas de agronegócio trabalham hoje em salas com ar-condicionado nas sedes, situadas geralmente nas grandes cidades, mas, segundo os especialistas, é importante que eles não percam contato com o campo. "Os profissionais que escolheram fazer carreira no agronegócio possuem uma peculiaridade, que é gostar de colocar o pé na terra e conversar com os produtores nas fazendas para saber quais são suas demandas -- nem que para isso tenham de fazer uma viagem de três dias e passar por estradas esburacadas", diz Sílvia.
Para o executivo Laerte Moraes, gerente de desenvolvimento de negócios da Agribrands Purina, indústria de rações do grupo americano Cargill, o novo profissional do agronegócio deve -- assim como acontece há muito tempo em outros setores da economia -- ter uma visão estratégica de toda a cadeia produtiva. "Trocar uma ração de frango para tornar a granja mais competitiva, por exemplo, é uma decisão muito mais complexa do que parece à primeira vista", diz Moraes. "As implicações podem ir de possíveis problemas no fornecimento à rejeição por parte do cliente. Uma decisão como essa pode ser a diferença entre mais lucro e prejuízo." Nos últimos tempos, as grandes empresas do setor vêm investindo na formação de profissionais com esse tipo de competência. Trainees costumam passar de dois a três anos acompanhando o processo produtivo antes de trabalhar em outros departamentos. Há três anos, a Sadia criou uma universidade corporativa que atende a todas as suas áreas de negócios. "Nossa intenção é oferecer um ensino que complemente a formação universitária tradicional. Organizamos programas de formação para qualquer área da companhia", diz Margareth Chiamarelli, reitora da Universidade Sadia. Um dos cursos criados pela empresa é o de inovação, que já resultou no lançamento de diversos produtos, como o Hot Pocket -- uma espécie de minitorta pronta para ser consumida. "A excelência na produção virou commodity", diz Margareth. "Precisamos ganhar na inovação. E só conseguiremos isso com pessoas devidamente capacitadas."