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Da pobreza ao mercado de alta renda

 |  25.11.2008

Há 40 anos, José Faro Rua deixou a Espanha fugindo da fome e da Guerra Civil. Hoje, ele é dono da Perini, mistura de mercado chique com delicatéssen em Salvador

 

Fernando Vivas

José Faro Rua - "Na Espanha, faltava comida. Aqui, era vencer ou ser vencido"

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Por Luciana Barreto

Portal EXAME  

Quem entra numa das lojas da Perini, mistura de mercado chique com delicatéssen em Salvador, encontra vários tipos de queijo, azeite e café importados. Nas vitrines, há vinhos de diversos países, que combinam com cada carne especial ou fruto do mar vendidos ali. Nos fornos, já foram assados 325 tipos de pão, incluindo pães de cerveja, de alecrim e de champanhe.

O dono da Perini, que fatura cerca de 100 milhões de reais por ano, é o espanhol José Faro Rua, o "seu" Pepe, um senhor de 65 anos que nasceu na região da Galícia. Suas origens contrastam em tudo com a fartura da rede que criou. Em 1957, quando a família de Pepe veio para o Brasil, a Espanha sofria os efeitos da Guerra Civil, que tinha terminado em 1939. Na região da Galícia, a pobreza reinava. "Às vezes, faltava o que comer", diz.

Em 50 anos de Brasil, Pepe protagonizou a típica história do imigrante que, fugindo da pobreza, construiu um pequeno empreendimento que se tornou uma empresa promissora. Seu negócio está no mercado de alta renda, um dos que mais crescem e trazem oportunidades a pequenas e médias empresas. A Perini não nasceu de caso pensado. Seu modelo de negócios foi construído à medida que Pepe encontrava dificuldades para manter o rumo do crescimento. Hoje, há sete lojas. Três estão em shoppings e têm um formato simplificado, de sorveteria e doceria. As outras são lojas de rua e servem de mercado, padaria e delicatéssen para o público de alta renda. A maior, inaugurada em 2007, foi construída dentro do Clube Bahiano de Tênis, um dos mais caros da cidade. "Queríamos aproveitar a vinculação que havia entre o Clube Bahiano e nosso consumidor", diz Pepe.

Como vários outros galegos, ele chegou a Salvador para trabalhar como funcionário de um armazém, que pagou sua passagem. Dormia no andar de cima do estabelecimento, onde funcionava uma espécie de república dos empregados. Durante cerca de sete anos, trabalhou sem juntar dinheiro, pois parte do salário era descontada para restituir ao empregador o preço da viagem. Outra parte ele enviava para sua mãe, na Espanha. A demora em receber notícias dela o afligia. "Às vezes, eu esperava três meses para receber uma carta e saber se minha mãe estava viva", diz Pepe. 

O imigrante empreendedor 

Apesar da saudade de casa, Pepe não queria voltar a uma situação financeira pior ou igual àquela de quando partiu da Espanha. "Não havia opção. Era vencer ou ser vencido", diz. Seu projeto era juntar dinheiro e só então voltar para a Europa. Pepe viu que, para realizar o plano, não poderia trabalhar para sempre em armazéns. Quando esse tipo de negócio começou a perder clientes para os supermercados, o empreendedor achou que era o momento de partir para outra. Em 1964, ele, seu irmão e o tio pediram as contas no armazém e compraram, fiado, uma rede de padarias de um espanhol da colônia.

Durante três anos, Pepe trabalhou sem tirar dinheiro do negócio para quitar a dívida. No comando das padarias, aprendeu tudo o que podia sobre pães e massas. Foi a São Paulo e também ao Rio Grande do Sul para fazer cursos de especialização. Chegou a montar uma fábrica de pães. A elaboração de massas artesanais é, até hoje, um de seus negócios preferidos na Perini.

Quando os supermercados começaram também a vender pães, as receitas declinaram. A solução foi diversificar. Aos poucos, Pepe ampliou a oferta de produtos em suas padarias, e elas foram se transformando em delicatéssens. Em 1972, montou uma sorveteria e uma doceria. Viajou para São Paulo para se inspirar na Brunella, que, à época, era um ponto de encontro badalado. Escolheu para o novo empreendimento o nome Perini. A palavra é um sobrenome italiano tradicionalmente ligado à produção de doces, mas que não tem absolutamente nada a ver com Pepe ou sua família.

Atualmente, a Perini é uma fusão de todos esses negócios anteriores, com muito mais produtos e serviços que foram incorporados ao longo dos anos, como o restaurante e o mercado. Hoje, a companhia possui cerca de 25 000 produtos à venda. Trabalham ali cerca de 1 150 funcionários. Pepe é seu relações-públicas - é comum encontrá-lo nas lojas ensinando um cliente a reconhecer um bom azeite ou contando piadas.

Hoje, o modelo da Perini para Pepe é claro - oferecer a maior variedade e qualidade possível em alimentação ao consumidor de alta renda. Parte da inspiração para o aprimoramento da Perini vem de uma empresa conterrânea, o El Corte Inglés, rede enorme de lojas de departamentos que vende de tudo. Pepe é particularmente empolgado com a ala de alimentação da rede, normalmente um andar inteiro. "Quando vou à Espanha, passo o dia todo nesse andar. Chego às 10 da manhã e só saio às 10 da noite", diz. Nessas ocasiões, ele circula, observa, conversa com gerentes e atendentes. Tira fotos ou faz pequenos filmes, que depois mostra a seus funcionários.

A esta altura, o plano de voltar a morar na Espanha foi cancelado. "Eu me considero também baiano", diz. Pepe passou a vida inteira empreendendo na mesma cidade, num único setor, e manteve um padrão mesmo ampliando bastante o leque de produtos e serviços. "A Perini compôs um bom conjunto de produtos, que atende tanto o consumidor de alta renda como os que aspiram chegar lá um dia", diz Cristiane Duarte, diretora de projetos estratégicos da consultoria MCF, especializada em mercado de luxo.

Mesmo com uma marca tão entranhada na rotina de seus clientes, a rede tem alguns desafios. Um deles é manter o ritmo de inovação. "No mercado de alta renda, os consumidores são atualizados e muito exigentes", afirma Cristiane. Outro desafio é um possível enfrentamento, no futuro, com supermercados que também tenham uma linha de lojas com foco maior nas classes média e alta - como é um pouco o caso do Pão de Açúcar, por exemplo. Se os concorrentes chegarem, Pepe acredita em sua capacidade de sempre somar novos serviços ao negócio. Também aposta na força que tem, para o público, sua linha de produção própria - cerca de 10% dos produtos vendidos são feitos na Perini. "Não tenho medo de concorrência", diz Pepe.

 
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