Em 2006, o economista bengalês Muhammad Yunus tornou-se mundialmente famoso ao ganhar o Prêmio Nobel da Paz por sua atuação na redução da pobreza em Bangladesh por meio do microcrédito. Seu banco, o Grameen Bank, cresceu concedendo empréstimos a pessoas que sempre foram desprezadas pelos bancos tradicionais -- a camada de baixíssima renda, sobretudo mulheres do meio rural. Hoje, o Grameen Bank exibe números impressionantes: tem 2 185 agências, concedeu o equivalente a quase 6 bilhões de dólares em empréstimos e possui um quadro de quase 20 000 funcionários, todos remunerados. Mesmo com características de uma grande empresa, o negócio nunca se desvirtuou de seu objetivo inicial -- melhorar a qualidade de vida da população de Bangladesh.
Yunus hoje é um dos representantes mais ilustres de uma geração que vem ganhando importância na economia do mundo -- a dos empreendedores sociais, aqueles capazes de usar um modelo de negócios que faz uma pequena ou média empresa prosperar a serviço de uma causa social. O empreendedor social, antes muito associado à imagem do filantropo idealista, atualmente traça planos de negócios, recorre a linhas de financiamento e faz parcerias estratégicas com empresas e governos. E o empresário que não seguir o exemplo desses profissionais e não aprender a ser socialmente responsável perecerá. É essa a idéia central defendida pelos americanos John Elkington e Pamela Elkington, dois dos maiores especialistas em desenvolvimento sustentável no mundo, no livro The Power of Unreasonable People ("O poder das pessoas que não usam apenas a razão", numa tradução livre para o português), recém-lançado nos Estados Unidos pela editora Harvard Business Press e ainda sem previsão de lançamento no Brasil. "Em dez anos, não haverá distinção entre um empreendimento social e um empreendimento tradicional, pois essa será uma característica indispensável aos negócios", afirmam os autores no livro.
Sociólogo de formação, Elkington é co-fundador da consultoria inglesa SustainAbility e autor de 17 livros, entre os quais o best seller Green Consumer Guide ("Guia do consumidor ecológico"). No Brasil, ele é membro do conselho internacional do Instituto Ethos. Pamela é médica e diretora administrativa da Fundação Schwab, organização suíça que fomenta o empreendedorismo social e é parceira do Fórum Econômico Mundial. Há mais de 20 anos, os dois autores estudam exemplos bem-sucedidos de empreendedores sociais e ambientais ao redor do mundo. The Power of Unreasonable People destaca inúmeras delas. Há exemplos mais conhecidos, como o de Yunus e o da Whole Foods Market, a maior rede americana de alimentos orgânicos, com 200 lojas nos Estados Unidos e na Inglaterra e faturamento de 4,7 bilhões de dólares por ano, e o de pequenos negócios que ainda dependem do financiamento externo para sobreviver.
O livro é dividido em três partes. Na primeira, Pamela e Elkington contam como os empreendedores sociais e ambientais constróem seus negócios, quais as melhores alternativas para buscar financiamento e fazê-los ganhar escala. Na segunda, eles ensinam como identificar oportunidades de mercado no futuro. O último trecho sugere algumas lições que as empresas tradicionais e o poder público podem aprender com os empreendedores sociais e ambientais.
Os autores dividem os empreendedores sociais em três grandes grupos: os empreendimentos totalmente sem fins lucrativos (que atuam em mercados em que é praticamente impossível tornar-se auto-sustentável), os negócios híbridos (que funcionam com doações, mas são capazes de gerar alguma receita) e aqueles que colhem resultados financeiros e têm, em muitos aspectos, funcionamento semelhante ao das empresas tradicionais. Um exemplo de empreendimento do terceiro tipo -- e também uma das histórias mais interessantes do livro -- é o grupo egípcio Sekem, fundado pelo médico Ibrahim Abouleish. Criado na década de 80, o Sekem hoje é uma holding composta de seis empresas, cada uma especializada em uma área, mas todas com uma origem em comum: a exploração sustentável da terra e a valorização das pessoas. A primeira empresa, a Isis, produz óleos, especiarias, chás, mel, geléias e cereais. A segunda, a Atos Pharma, desenvolve produtos fitoterápicos e tem um contrato de fornecimento com a alemã Weleda. A terceira, a Libra, fornece matéria-prima para as outras empresas e inclui parcerias. Há ainda a Hator, que produz e empacota frutas frescas e vegetais para o mercado interno e para exportação, a Sekem Shop, rede de lojas que vende toda a gama dos produtos Sekem e, finalmente, a Conytex, que processa algodão sem nenhum aditivo e fabrica roupas para exportação. "A iniciativa inclui educação, treinamento e serviços de saúde para a população, além de conduzir pesquisas científicas", diz Abouleish em entrevista publicada no livro.
Os autores destacam que um dos principais motivos para o êxito de empreendimentos sociais e ambientais é o fato de eles geralmente atuarem em mercados desprezados pelas companhias tradicionais e utilizarem a mão-de-obra que elas não querem. Isso, afirmam, possibilita que os empreendedores sociais atuem sozinhos nesses mercados, sem a concorrência que impera em setores já explorados pelas grandes empresas. Foi o que aconteceu com o agrônomo gaúcho Fábio Rosa, criador do Ideaas, Instituto para o Desenvolvimento de Energias Alternativas e da Auto Sustentabilidade, que protagoniza uma das histórias contadas no livro. O brasileiro, que foi secretário municipal de agricultura em Palmares, no Rio Grande do Sul, desenvolveu um mecanismo que reduz em 90% os custos com fornecimento de energia à população rural brasileira. "Ele passou anos batalhando com os legisladores para quebrar o monopólio das distribuidoras de energia. Ele queria que pequenas provedoras de energia tivessem permissão para explorar pequenos mercados, que não despertavam interesse das grandes empresas", escreveram Pamela e Elkington.
| Mercados do futuro |
| Segundo os autores, os grandes problemas mundiais oferecem boas oportunidades de negócio. Eis alguns: |
| O problema Crescimento demográfico A oportunidade Há um imenso mercado que as empresas tradicionais não compreenderam ainda. Produtos voltados para a base da pirâmide podem ganhar escala muito rapidamente |
| O problema Exclusão digital A oportunidade Novas tecnologias, como VoIP e internet por rádio, permitem inserir pessoas economicamente desfavorecidas no mundo digital a um custo muito baixo |
| O problema Desequilíbrio entre sexos A oportunidade Há mais mulheres do que homens em muitos países, como a China. Quem se dedicar a valorizá-las e compreender suas necessidades tem muito a ganhar |
Para eles, os maiores problemas mundiais da atualidade são também uma lista de onde moram grandes oportunidades para as pequenas e médias empresas. É o caso do crescimento demográfico, que esconde oportunidades para quem souber, por exemplo, oferecer soluções de transporte e produtos para a parte de baixo da pirâmide populacional. A exclusão digital está sendo parcialmente atacada por empresas que desenvolvem tecnologias como a do VoIP. Desequilíbrio entre sexos, epidemias e doenças, desigualdade social -- tudo isso faz parte desse conjunto.
Apesar de ter jeito de obra literária, pois as trajetórias dos empreendedores garimpadas pela dupla de especialistas renderiam, por si sós, excelentes perfis, The Power of Unreasonable People não é um livro de histórias de vida. A obra fala sobre oportunidades de mercado, captação de recursos, atração, captação e treinamento de funcionários e, em momento algum, perde sua orientação econômica, o que o torna uma leitura sempre interessante, para não dizer indispensável, aos pequenos e médios empresários.

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