Empreendedores são normalmente retratados como líderes inovadores destemidos à frente de seu tempo. Assim, é paradoxal que muitos desses visionários sofram de um mal comumente discutido em microeconomia, justamente por se apegarem demais ao passado -- a falácia dos custos irrecuperáveis, também conhecida pelo termo em inglês sunk cost.
Os sunk costs são custos que não podem ser recuperados, independentemente de eventos futuros. É o caso de gastos com propaganda para um produto. Uma vez incorridos, não podem ser direcionados para outro fim. E, se o produto não deu certo, o dinheiro foi perdido e ponto.
A falácia dos custos irrecuperáveis se manifesta toda vez que você decide prosseguir numa estratégia ou empreendimento que já se mostrou infrutífero apenas porque ali foram investidos tempo, esforço e dinheiro. Toma-se uma decisão que afeta o que vem pela frente com o olhar no passado -- em vez de levar em consideração apenas o retorno sobre os desembolsos futuros.
Mas por que um fenômeno amplamente estudado e sabido por administradores em geral é tão recorrente entre os pequenos e médios empresários? Não existe resposta certa. Mas, depois de tantos anos de contato com eles, posso me arriscar a apontar alguns fatores que, na minha opinião, levam a essa armadilha.
Quem começa um negócio aprende cedo que ser resistente é pré-requisito. Persistir não só faz parte do jogo como muitas vezes faz a diferença e garante o sucesso. Daí a dificuldade inerente ao empreendedor de analisar racionalmente a hora de jogar a toalha. Seu instinto é resistir e aguardar um pouco mais. Além disso, abandonar um curso de ação significa reconhecer um fracasso -- e isso é especialmente difícil quando se tem na reputação o maior ativo.
Nesses casos, a tendência é procrastinar em vez de atacar a questão de frente. Mas, quando a estratégia adotada está errada, a perda só aumenta com o tempo -- o que, por sua vez, torna seu reconhecimento cada vez mais difícil. Forma-se um círculo vicioso difícil de ser rompido e que explica por que muitos empreendedores só param após a derrocada de seus negócios.
Outro aspecto que torna os pequenos e médios empresários mais suscetíveis à falácia dos custos irrecuperáveis é o fato de possuírem recursos muito limitados. Apesar de parecer bastante óbvia a máxima de que não devemos levar em consideração custos incorridos no passado para tomar decisões futuras, na prática não é bem assim. Vários empresários estabeleceram seus negócios com pouco capital apertando o cinto e medindo criteriosamente os investimentos. O reconhecimento da perda é, para eles, sinônimo de desperdício -- quase um pecado mortal que não aceitam admitir que foi cometido. Por isso, é comum encontrar empresários que têm vários pequenos negócios, muitos deles pouco promissores ou moribundos, mas dos quais simplesmente não conseguem se desfazer.
Evitar o comportamento descrito aqui é possível com algumas medidas. Uma delas é envolver no processo decisório mais pessoas em que você confia e respeita, num conselho formal ou num comitê interno. É um jeito de despersonificar as decisões e trazer mais racionalidade. Também crie um ambiente propício a admitir erros, dos pequenos aos grandes. Sem isso, é difícil parar de colocar dinheiro bom em cima de dinheiro ruim. E, por fim, aprenda de uma vez por todas a virar a página sem olhar para trás.

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