No final da década de 90, o contador Edi Luiz Deitos estava prestes a completar 60 anos e lhe contrariava a perspectiva da aposentadoria compulsória, imposta por sua ex-empregadora. Mas não teve jeito. Gerente de uma fábrica da Perdigão em Serafina Corrêa, na Serra Gaúcha, Deitos deixou o cargo e uma vida de 43 anos prestados ao frigorífico. Como tinha horror à idéia de ficar parado, pensou em ter uma empresa em que pudesse aproveitar essa experiência. Em 2000, durante uma feira do setor na França, ele tomou a decisão de investir suas economias pessoais no que lhe parecia uma atividade nova -- a produção de vegetais congelados. Hoje, aos 69 anos, Deitos está à frente da Grano, empresa com sede também em Serafina Corrêa, que deve faturar 25 milhões de reais neste ano -- 50% mais do que em 2007 -- com a venda de itens como brócolis e ervilhas congeladas.
A Grano é um caso exemplar de um tipo específico de inovação -- a aplicação num novo empreendimento de um modelo de negócios que já deu certo em outra empresa. Quando Deitos estava na Perdigão, o mercado de vegetais congelados era muito incipiente no Brasil, formado por produtos importados e um ou outro regional. Faltavam empresas que contassem com grandes cadeias de fornecedores e fossem capazes de construir canais de distribuição fortes. Esses dois aspectos eram cruciais para ganhar escala. "Depois de estudar o negócio, concluí que o aprendizado nos frigoríficos me dava conhecimento para inovar no setor", diz Deitos, presidente da Grano.
O funcionamento da empresa em muito se parece com o da Perdigão, da Sadia e de outros frigoríficos. O relacionamento da Grano com a cadeia de fornecedores, por exemplo, é uma versão vegetariana da forma como costumam ser remunerados os produtores de aves e suínos. Na Perdigão, Deitos havia sido um dos responsáveis em sua região pela implantação do sistema em que a indústria fornece tecnologia e insumos a produtores terceirizados e garante a compra da produção. "Fizemos o mesmo com os produtores de hortaliças", diz Deitos.
| A transferência de um conceito |
| Como o modelo de negócios da Perdigão foi adaptado à Grano |
| 1 - Produtores A Grano fornece a cerca de 120 pequenos agricultores toda a tecnologia necessária para a produção dos vegetais e garante o preço de compra ao fim da safra. É o mesmo sistema utilizado na indústria de aves e suínos |
| 2 - Distribuição A empresa aproveita a logística para comercializar salgados congelados. Em breve, também vai vender cortes de frango e suínos. A Perdigão fez o caminho inverso — começou com carnes e hoje vende também vegetais |
| 3 - Recursos A Grano nasceu com o aporte de um fundo de investimento para empresas emergentes e planeja abrir o capital em 2010. A Perdigão ganhou força depois de receber fundos de pensão como acionistas e já está na bolsa |
Com esse modelo de negócios, não foi difícil para Deitos atrair sócios e conseguir um aporte do RSTec, fundo de investimento para empresas emergentes, administrado pela gaúcha CRP. "Deitos trouxe uma proposta inovadora e atraente", diz Clovis Meurer, diretor da CRP. Depois de dezenas de reuniões com produtores de sua região, nas quais explicava a proposta da Grano e por que ela era vantajosa para eles, Deitos conseguiu convencer 40 pequenos agricultores a se engajar no sistema para produzir brócolis, cenoura, vagem e couve-flor. "Hoje temos o triplo de fornecedores e vamos chegar a 200 ainda neste ano", diz Deitos. São eles que fornecem os vegetais que a Grano processa e vende a supermercados, restaurantes e hospitais. Segundo Deitos, o sistema funciona muito bem. "Em algumas culturas, alcançamos uma produtividade maior do que a da Argentina e a da Europa", diz Deitos. No caso dos brócolis, que respondem por metade das vendas, os produtores têm colhido 15 toneladas por hectare, acima das 11 toneladas obtidas na Espanha, que, junto com Portugal, lidera a produção do vegetal na Europa. Nos casos em que o sistema ainda não deu resultado, a Grano optou pela importação -- as batatas, por exemplo, vêm da Bélgica.
Recentemente, Deitos tornou a empresa ainda mais parecida com sua ex-empregadora. A Perdigão vem crescendo com a venda de pratos prontos congelados. No ano passado, a Grano lançou uma linha de salgados, com bolinhos de queijo, coxinhas e quibe. "A lógica é aproveitar os canais de comercialização para vender outros produtos frigorificados", diz Deitos.
No final de 2006, o crescimento da Grano chamou a atenção do BNDESPar, o fundo de participações do BNDES, que adquiriu 25% do capital da empresa. Isso significou a entrada de 3 milhões de reais na empresa, investidos na ampliação da produção. Junto com a CRP, o BNDES tem ajudado a Grano a se preparar para a abertura de capital, prevista para 2010, quando a empresa, espera Deitos, deve atingir faturamento estimado em 50 milhões de reais por ano. Como tem a companhia desses fundos desde o nascimento, a Grano trabalha de maneira profissionalizada, com conselho de administração e balanços auditados.
Daqui para a frente, a Grano tem grandes desafios. O primeiro é tornar a marca conhecida nacionalmente, ingressando nas grandes redes de supermercados. "Somos uma marca nova e temos de brigar por espaço", diz Deitos. Em São Paulo, a empresa já fornece seus produtos ao Assai Atacadista, adquirido pelo grupo Pão de Açúcar. Na Região Sul, a marca está nas lojas da rede Zaffari e negocia a entrada no Wal-Mart e no Pão de Açúcar do Paraná. Outro grande desafio é obter o retorno dos investimentos feitos até agora. "Os primeiros sinais de lucro devem aparecer em 2008", diz Deitos.

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