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Demita seu melhor funcionário

 | 08.05.2008

A Arizona tinha um problema típico -- a alta rotatividade dos prestadores de serviço. A solução foi ajudar o motoboy mais eficiente a virar empreendedor

 

Lia Lubambo

Gomes (à esq.) e Hadade: a nova empresa já contratou 15 motoboys

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Por Guilherme Fogaça

EXAME 

 Durante seus quatro primeiros anos de funcionamento, a Gráfica Arizona, fundada em 1998 em São Paulo, penou com uma dificuldade conhecida por muitas pequenas e médias empresas -- a alta rotatividade dos prestadores de serviço. Encontrar e manter bons profissionais que exercem funções essenciais para a empresa, como a coleta e a entrega dos materiais gráficos, era uma preocupação permanente para o empresário Alexandre Abdo Hadade, de 33 anos, dono da Arizona. Diante de um problema comum, Hadade encontrou uma solução incomum -- demitir de vez seu melhor funcionário e incentivá-lo a montar o próprio negócio para virar seu fornecedor.

A dificuldade de manter esse tipo de profissional está relacionada com a natureza da função. Entregadores, porteiros, faxineiros e auxiliares em geral têm atividades de suporte essenciais, sem as quais quase nenhum negócio pode viver. Mas é difícil oferecer a eles uma remuneração realmente boa e uma proposta de carreira interessante porque não fazem parte do foco de atuação. Nesses postos, costuma acontecer um dilema insolúvel. Se o profissional é muito bom, geralmente ele fica ali somente até conseguir algo melhor. Se for ruim, a chance de permanecer é maior -- mas o que adianta? No caso da Arizona, eram os motoboys que davam trabalho. A média de permanência no emprego não chegava a dez meses. Enquanto esses profissionais iam e vinham, Hadade lutava para manter a qualidade das entregas. "Era uma trabalheira infernal, sem nenhuma perspectiva de resolver a causa", diz ele.

Em 2002, o empresário chegou à conclusão de que era melhor terceirizar o transporte. Pesava contra essa idéia o temor de continuar lidando com algo provisório -- nesse caso, ter de experimentar diversos fornecedores sem a certeza de que seria encontrado um capaz de fazer o serviço com a qualidade necessária. Por outro lado, ele não queria perder o motoboy Fernando Souza Gomes, que vinha se destacando. "Desde o início, ele mostrou uma eficiência acima do normal", diz Hadade. "Não queríamos ficar sem ele."

A fórmula da Arizona
Como a empresa resolveu as dificuldades de seu sistema de transporte
1 - O problema
Era difícil achar funcionários qualificados e reter os melhores. Em média, os motoboys ficavam menos de um ano na empresa
2 - A idéia
Fernando Souza Gomes, o melhor deles, recebeu a proposta de abrir uma empresa de transporte com a ajuda da Arizona, que seria sua cliente
3 - A transição
A Arizona emprestou um espaço físico, ofereceu o próprio contador para auxiliar nas questões burocráticas e garantiu a demanda inicial
4 - O resultado
Hoje, a empresa de Gomes toma conta de todo o serviço de transporte da Arizona. A alta rotatividade deixou de ser preocupação da empresa

A solução foi incentivar Gomes a se demitir para montar a própria empresa de transporte. "Dessa forma, eu não precisaria mais gerenciar aquele serviço", diz Hadade. Ao receber a proposta, o motoboy ficou assustado. "Nunca tinha pensado em ser empresário e não me sentia capaz de erguer e administrar minha própria companhia", afirma Gomes, hoje com 26 anos de idade. "Fiquei inseguro e só concordei porque a Arizona garantiu que me daria todo o apoio."

A partir de 2003, a Arizona funcionou como uma incubadora para a empresa de Gomes, a DF Transportes. Tudo que poderia dificultar o nascimento da transportadora foi resolvido em conjunto. Como Gomes não podia arcar com praticamente nenhum custo inicial, a Arizona emprestou um lugar dentro da própria gráfica. As questões tributárias e burocráticas para a criação da nova empresa foram resolvidas pelo contador da própria Arizona. Por meio desse contato, Gomes foi aprendendo a lidar com a documentação e a calcular a rentabilidade, os impostos e o custo total de cada funcionário. A falta de intimidade com o computador foi resolvida com um curso técnico de informática que Gomes ganhou da Arizona. "Eu não tinha nenhum conhecimento administrativo, mas recebi toda a ajuda de que precisei e acabei aprendendo", diz Gomes.

Com a Arizona como cliente garantido, a DF Transportes já tinha volume de trabalho para contratar dois motoboys. "Fomos crescendo junto com a Arizona", diz Gomes. Hadade também indicou a DF Transportes para outros dois clientes: a Cineral, de eletroeletrônicos, e a Ecalc, de softwares. Agora, Gomes já administra 15 motoboys. "Finalmente o problema com os entregadores foi resolvido", diz Hadade. "E a rotatividade do Gomes é muito menor do que a que eu tinha, pois ele conhece as manhas desse mercado, sabe onde buscar gente boa e o que oferecer a elas."

A essência da experiência da Arizona pode ser replicada em outras pequenas e médias empresas e com outros tipos de funcionário. Em princípio, todas as funções que não fazem parte da atividade-fim de um negócio podem ser terceirizadas. "A vantagem de escolher um ex-empregado é que o trabalho fica nas mãos de um fornecedor já sintonizado com a cultura da empresa", diz Antônio Carminhato, diretor do Grupo Soma, especializado em recursos humanos. "É uma maneira diferente e eficaz de manter por perto uma pessoa talentosa, mas só dá certo se ela possuir uma semente empreendedora que for desenvolvida, como fez a Arizona."

 

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