Um dos desafios de quem está à frente de uma pequena ou média empresa em crescimento é tomar as melhores decisões para sua gestão financeira.À medida que os negócios se expandem, as necessidades vão mudando -- e o que foi decidido ontem pode não ser a melhor opção amanhã. Aqui estão informações sobre algumas das ferramentas financeiras disponíveis no mercado e idéias para solucionar os principais problemas. Tudo foi organizado de acordo com as necessidades mais freqüentes dos empreendedores. Na primeira parte, alguns exemplos mostram como reduzir a inadimplência, manter sob controle o fluxo de caixa, negociar benefícios para os funcionários e optar por linhas de crédito para financiar os negócios. O material completo pode ser consultado no Portal EXAME PME. Em seguida, vêm respostas para as dúvidas mais comuns na hora de tomar decisões financeiras.
Como reduzir o risco de inadimplência
1 - Cliente tem história
Poucas coisas podem ser tão eficazes para reduzir problemas com inadimplência do que manter um histórico minucioso dos clientes, de forma a diferenciar os maus dos bons pagadores e identificar quem apenas está passando por problemas de caixa transitórios. Com a expansão da oferta de crédito no país, problemas de recebimento são comuns. O risco de tomar um calote chega a 9% no recebimento de cheques, por exemplo, segundo dados da Check Express, provedora de consultas e informações de restrições ao crédito. Uma prática recomendada pelos especialistas é separar os clientes em grupos de risco, identificando quem paga em dia, quem costuma atrasar um pouco e quem sempre demora muito para quitar as dívidas.
A Paulimac, pequena distribuidora de insumos para impressoras da capital paulista, faz isso. "Definimos uma política de crédito para cada cliente a partir desse histórico", diz Edson Roberto da Silva, gerente administrativo da Paulimac. Os bons pagadores têm o prazo de pagamento e o teto máximo para cada encomenda ampliados. Para que o desempenho de cada um fique registrado, a empresa tem em seu sistema de gestão um módulo integrado de contas a receber. "O sistema consegue acusar quando alguma fatura deixa de ser paga", diz Silva. Com o sistema, é possível verificar, a cada pedido, se a encomenda está dentro da capacidade de pagamento do cliente.
Como manter o caixa em ordem
2 - Um planejamento bem-feito
Pode até parecer simples: para manter o fluxo de caixa, basta programar pagamentos e recebimentos para que caiam no mesmo dia, ou ao menos em datas próximas. Na prática, é preciso bastante disciplina para seguir a receita. Os especialistas dizem que o ideal é ter uma programação de contas a pagar e a receber com pelo menos três meses de antecedência, para enxergar com bastante antecipação os períodos em que poderão ocorrer estrangulamentos.
Muitos pequenos e médios empresários recorrem a ajuda externa na hora de executar essa tarefa pela primeira vez. Há alguns anos, quando seu pai adoeceu, a empresária Kika Mandaloufas assumiu o comando da Tok e Crie, uma distribuidora de produtos para papelarias na capital paulista. Ela contratou um consultor para ajudá-la a fechar balanços mensais e a construir previsões de fluxo de caixa detalhadas a cada seis meses. Na ocasião, foi criado um sistema que permite monitorar por computador as margens de contribuição e de lucro dos mais de 2 500 itens do catálogo e todo o fluxo de caixa da empresa. "Assim, vejo se preciso economizar mais em determinados meses para cobrir algum eventual buraco depois", diz Kika. A organização agora permite que parte do lucro da empresa seja reservada para investimentos.
Como fazer a gestão das despesas com funcionários
3 - Que benefícios existem
Manter benefícios como planos de saúde e previdência privada para os funcionários é um custo relevante para pequenas e médias empresas. Mas a oferta deles para os funcionários tende a aumentar. Nos últimos tempos, bancos, seguradoras e operadoras de planos de saúde e previdência têm criado produtos voltados às pequenas e médias empresas, tornando esses serviços mais acessíveis.
Qualquer pequeno ou médio empresário que pretenda atrair e reter talentos deve pensar em incluí-los nos pacotes de remuneração. Os resultados costumam aparecer. Manter uma ampla lista de benefícios foi a forma encontrada pelo empreendedor Carlos Alberto Mancusi, do Grupo Titanium, para manter sob controle a rotatividade do pessoal. Sua empresa é especializada em oferecer serviços de vigilância, segurança privada e mão-de-obra terceirizada para atividades como limpeza e recepção a grandes empresas. Os funcionários da Titanium contam com convênios médicos e odontológico, seguro de vida em grupo, assistência funeral, vale-alimentação, auxílio-faculdade e de aula de inglês. Com 450 funcionários, a empresa gasta 14,75% de suas despesas com benefícios.
Para facilitar o acesso da Titanium aos benefícios, a estratégia é negociar com os fornecedores e se manter fiel a eles para, no médio e no longo prazo, obter descontos. "É importante assegurar o bem-estar dos nossos profissionais", diz Mancusi. "Uma equipe treinada e satisfeita com suas condições de trabalho garante, com muito mais eficiência, a qualidade dos serviços prestados." É bom lembrar que o plano de saúde é o benefício que normalmente mais pesa no orçamento de uma empresa. Dependendo da escolha, ela poderá desembolsar algo entre 60 reais e 1 000 reais por mês por funcionário.
Como obter os melhores financiamentos
4 - Onde estão as taxas mais baixas
Ainda é grande o número de pequenos e médios empresários brasileiros que só recorre ao crédito quando já está com a corda no pescoço. Não é preciso ser assim. Boas linhas de crédito estão entre as principais alternativas para as pequenas e médias empresas financiarem seus projetos de expansão. Mas muitos empresários vão aos bancos sem saber ao certo como encontrar as melhores opções. É consenso entre especialistas do mercado financeiro que as menores taxas de juro e as melhores condições de prazo e pagamento para empresas de menor porte são geralmente oferecidas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Um exemplo é o Finame, operação de longo prazo voltada para aquisição de veículos pesados, tratores, máquinas e equipamentos novos, de fabricação nacional.
Obter recursos desse tipo exige paciência e organização, pois o BNDES pede uma série de certidões, demonstrativos financeiros e outros documentos. A perseverança, porém, pode valer a pena. Uma vez transpostos os obstáculos colocados pela burocracia, o restante do processo fica mais fácil. O dinheiro solicitado ao agente financeiro -- a instituição que repassa os recursos do BNDES --, por exemplo, vai diretamente para o fornecedor das máquinas, que o recebe à vista.
O empresário Eduardo de Zorzi, dono da Fazenda Capão Verde, de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, recorreu algum tempo atrás ao Finame para financiar a expansão de seu negócio de produção e venda de leite. Sua fazenda precisava adquirir novos equipamentos e investir nas pastagens. "Para mim, é uma opção viável para o agronegócio", diz.
Zorzi usou a linha duas vezes. Na primeira, em outubro de 2001, obteve um trator, uma plantadeira, um pulverizador e um distribuidor de calcário. O valor total do investimento ficou em torno de 75 000 reais -- 80% financiados pelo BNDES. Em 2003, adquiriu outro trator e acessórios agrícolas. "Estamos em expansão", diz Zorzi.