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Meu sócio capitalista

 | 29.11.2007

Com muito dinheiro e lições de gestão, os investidores de risco estão especialmente interessados nas pequenas e médias empresas brasileiras. O que saber antes de aceitar um sócio desse -- e o que esperar da relação

 

Eduardo Monteiro

Van Der Put e Vilela, da Trinnphone: a parceria com o investidor não tem data para acabar

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Por Robson Viturino

EXAME 

Munidos de uma idéia, da certeza de que ela é sensacional e da fé absoluta em si mesmos (e, em muitos casos, apenas dessas três coisas), empreendedores são pessoas capazes de chegar até onde a maioria nem tenta ir. Eles não costumam hesitar demais para colocar todas as economias da família em projetos que, muitas vezes, não são mais que uma promessa. É comum, durante o estágio embrionário, que suas empresas sejam erguidas sobre bases financeiras improvisadas, como cheque especial, dinheiro da venda do carro ou empréstimos de parentes. Chega uma hora que essas fontes secam -- sobretudo para as empresas que conseguem atravessar os primeiros cinco anos, aquele período crítico em que a maior parte delas morre. Sim, pois se tudo correr bem, é certo que, em algum momento, serão necessários investimentos para o empreendimento evoluir. Para os donos de pequenas e médias empresas com potencial de expansão, a boa notícia é que é cada vez maior o número de investidores querendo apostar nelas. "Estamos num período em que não faltam recursos para empreendedores com bons negócios", afirma Marcus Regueira, presidente da Abvcap, entidade que reúne os fundos de capital de risco no Brasil.

Como é a parceria

Investidor
Ideiasnet (Rio de Janeiro)

Valor investido
1 milhão de reais

Que negócios procura
Empresas de tecnologia da informação que atuem em setores que oferecem grande potencial de expansão

O que atraiu o dinheiro
A procura crescente por serviços de VoIP entre pequenas e médias empresas. Para elas, investir em VoIP é uma das prioridades

Empresa
Trinnphone (Rio de Janeiro)

Faturamento
5 milhões de reais(1)

O que faz
Fornece serviços de telefonia por meio de tecnologia VoIP para pequenas e médias empresas

O que a empresa conseguiu
Ampliou a base de clientes para além do Rio de Janeiro. Neste ano, suas receitas devem ser cinco vezes maiores do que as obtidas em 2006

(1) Estimativa para 2007

O capital de risco -- uma ponte financeira entre investidores que caçam boas oportunidades e negócios com perspectiva de grande valorização -- ganhou uma força descomunal no mundo. Com recursos de poderosas instituições de previdência privada, de bolsas de valores e até de países, alguns fundos aplicam fortunas em negócios que, até há pouco tempo, não lhes interessavam. Para as pequenas e médias empresas brasileiras, o efeito prático é o acesso a um montante recorde de recursos provenientes desses capitalistas. Segundo estimativas da Abvcap, existem cerca de 2,8 bilhões de reais à disposição de pequenos e médios negócios com potencial de trazer retornos fora de série. Como é difícil passar pela peneira dos fundos, só uma parcela menor deve se transformar em investimentos. Os cálculos da Abvcap dizem que essa quantia vai girar em torno de 500 milhões de reais ao longo de 2008. É o triplo do que os fundos investiram em pequenas e médias empresas durante 2007.

Nos últimos anos, cada negócio que se encaixou no perfil procurado pelos fundos recebeu, em média, de 1 milhão a 2 milhões de reais. Do ponto de vista de um pequeno ou médio empresário, a quantidade de dígitos em si não é o que mais importa -- e sim o fato de o dinheiro aparecer no momento em que se precisa muito dele. "Um aporte de capital pode dar o impulso que falta para uma pequena ou média empresa saltar para um novo patamar de crescimento", diz Cláudio Furtado, coordenador do centro de estudos de capital de risco da Fundação Getulio Vargas. Na maioria dos casos, o aporte chega quando se esgotaram todos os recursos para a empresa se expandir por conta própria. Com a entrada de um sócio capitalista, essa aflição dá lugar à execução de estratégias para continuar crescendo -- ampliar as instalações, lançar produtos ou até comprar outras companhias.

A companhia de um sócio capitalista está permitindo aos engenheiros Renato Souza Cunha, de 38 anos, e Bruno Abrantes Basseto, de 36, acelerar em muito o passo da ADTS, especializada em tecnologias para monitoramento de redes elétricas ou de água. Os sistemas desenvolvidos pela empresa são de grande valia para concessionárias de energia e de abastecimento de água, pois permitem descobrir pontos de desperdício e ligações clandestinas -- um ralo por onde escoam 25% do consumo. Tecnologias como as aplicadas pela ADTS estão entre as que mais devem prosperar no futuro. Mesmo assim, durante cinco anos, Cunha e Basseto não conseguiram fazer sua empresa ultrapassar a barreira dos 200 000 reais de faturamento anual, nem ganhar autonomia para deixar as salinhas do Cietec, incubadora de empresas tecnológicas que funciona dentro da Universidade de São Paulo, onde eles se formaram.

Em setembro de 2005, Cunha e Basseto receberam dois jovens que se diziam interessados em conhecer os projetos hospedados no Cietec para investir nos que lhes parecessem promissores. De mochila nas costas, os visitantes pareciam ter menos dinheiro do que os empreendedores do pedaço. "No início não os levamos muito a sério", diz Basseto. Acontece que um deles era José Roberto Ermírio de Moraes Filho, de 21 anos, integrante da quarta geração do clã ao qual pertence o grupo Votorantim. Seu colega era o paulista Luiz Guilherme Atalla Camasmie, de 22. Os dois são sócios da Infinity, uma empresa de participações que investe parte dos recursos de suas famílias em negócios emergentes. Já fazia mais de um ano que eles vasculhavam o mercado atrás de uma empresa promissora. Nesse tempo, Ermírio de Moraes e Camasmie analisaram mais de 100 projetos de diversas partes do país. "Apareceram idéias bem criativas, como a de uma santa automática para quem não tem tempo de rezar e o de uma pílula para tirar cheiro de suor em operários da construção civil", diz Moraes. "Demoramos para encontrar um negócio alinhado com o nosso perfil."

Dez meses depois, a Infinity comprou 35% da ADTS, por 1 milhão de reais. Agora, Cunha e Basseto -- que eram cabeça, tronco e membros da empresa -- estão, com a ajuda de indicações de membros da Infinity, estruturando departamentos que não existiam, como o de marketing e de finanças. "Tínhamos uma ótima tecnologia, mas nos faltava todo o resto", diz Cunha. Na nova fase, Moraes, Camasmie e Paulo Viola, de 22 anos, outro sócio da empresa de participações, levaram a ADTS para dentro do escritório da Infinity, que ocupa um andar inteiro de um prédio comercial em São Paulo. "Quero estar perto da empresa", diz Moraes, que divide seu tempo entre a Infinity e o último ano da faculdade de administração no Ibmec. A ADTS já conseguiu fechar contratos para fornecer tecnologia às companhias de água Sabesp e Copasa, e à Coelba, empresa de energia elétrica da Bahia. Em 2007, o faturamento da ADTS deve chegar aos 2,2 milhões de reais -- 11 vezes o valor de quando aqueles rapazes com cara de colégio surgiram do nada.

Como é a parceria

Investidor
Grupo de angels formado por executivos e empresários

Valor investido
1,2 milhão de reais

Que negócios procura
Empresas de setores com grande potencial de expansão

O que atraiu o dinheiro
A perspectiva de que a utilização de ferramentas tecnológicas dentro das salas de aula deverá aumentar consideravelmente nos próximos anos

Empresa
P3D (São Paulo)

Faturamento
2,1 milhões de reais (1)

O que faz
Softwares educativos que geram imagens tridimensionais para aulas

O que a empresa conseguiu
Estendeu sua atuação para o mercado externo, de onde vêm hoje 20% de suas receitas. Em 2007, a empresa espera aumentar as vendas em 80%

(1) Estimativa para 2007

Os investidores de risco pagam para realizar o sonho de outra pessoa. Em troca, eles querem resultados -- e por resultados entenda-se um retorno médio de 30% ao ano sobre o capital deles. Encontrar um futuro Google pode dar muito mais -- até 300% ao ano, dependendo dos bons ventos do setor e da fase de amadurecimento do negócio. É normal que, ao se relacionar com gente de expectativas tão altas, o empreendedor fique preocupado. A relação é cheia de momentos de paixão, alternados com fases de raiva, ressentimento e cobrança. "A união entre empreendedores e investidores é um casamento, mas sem a possibilidade de divórcio", definiu Jeffrey Sohl, do Centro de Pesquisas de Venture Capital da Universidade de New Hampshire, nos Estados Unidos, numa reportagem publicada pela revista The Economist.

Um fundo para cada estágio

Em que momento pequenos e médios negócios atraem investidores de risco — e qual tipo prefere cada fase(1)

Tipo de fundo
Angel
Na maioria dos casos, é um grupo de
pessoas físicas formado por parentes ou
amigos que aplicam recursos próprios

Estágio da empresa
Planos de negócios que ainda não saíram do papel, mas apresentam muito potencial de crescimento

Exemplos
Gávea Angels, Infinity Invest

Tipo de fundo
Capital semente
Geralmente, são organizações que
investem em setores emergentes, como
biotecnologia e tecnologias ambientais

Estágio da empresa
Negócios pequenos que já passaram do estágio inicial e necessitam de capital para ir em frente

Exemplos
Confrapar, Ideiasnet, Jardim Botânico, Solo
Tipo de fundo
Venture capital
Normalmente, são grupos financiados por fundos de pensão, grandes empresas e investidores independentes

Estágio da empresa
Negócios já estruturados e que podem ter seu crescimento bastante acelerado com injeção de capital

Exemplos
DGF, Fir Capital, Ideiasnet, Intel Capital, Jardim Botânico, Monashees Capital, Rio
Bravo, Solo, Stratus
Tipo de fundo
Private equity
Geralmente são fundos patrocinados por fundos de pensão, grandes companhias e grupos financeiros

Estágio da empresa
Empresas já estabelecidas, que podem abrir capital ou ser vendidas para um investidor estratégico

Exemplos
Buffalo, DGF, Eccelera, Gávea, GP, Prosperitas, Stratus, UBS Pactual
(1) Alguns fundos investem em mais de um estágio

O potencial de confusão é maior quando os investidores são em grande número, não estão organizados numa estrutura muito definida e falta clareza em relação às regras de convivência. O empresário Fabio Abreu, de 45 anos, sócio da Axismed, empresa de gerenciamento de doentes crônicos para planos de saúde, passou por algo assim. Para colocar a Axismed no mercado, em 2002 ele convenceu 17 investidores a financiar sua idéia. "Meu cartão de visita era a experiência como ex-executivo da Interclínicas, que na época era uma grande operadora de planos de saúde", diz Abreu. Ao fim da captação, a novata Axismed tinha recebido 2 milhões de reais em troca de metade do capital.

Para conseguir o dinheiro, Abreu fez um périplo de um ano e meio com um plano de negócios de 150 páginas debaixo do braço. "Participei de inúmeros eventos só para entrar em contato com investidores", diz ele. Quando eles se dispunham a ouvi-lo, Abreu mostrava estatísticas que confirmavam o potencial do mercado de saúde. Ele citava pesquisas apontando que os doentes crônicos são apenas 5% das carteiras, mas têm peso de 30% dos custos. "Não administrar o risco que esses pacientes representam é um péssimo negócio para as operadoras", diz ele. "Os estudos diziam que 70% das internações poderiam ser evitadas." Bastava, argumentava ele, que outra empresa fizesse um monitoramento constante desses doentes, telefonando para lembrá-los da data de um exame ou para saber se um remédio estava fazendo efeito -- justamente a proposta da Axismed.

Depois que conquistou os investidores, Abreu pensou que a fase mais difícil havia passado. Estava enganado. O clima esquentou em setembro de 2004, quando a Interclínicas -- que na época respondia por 70% das receitas da Axismed -- foi à falência, o que colocou imediatamente a vida da empresa na UTI. Em meio à sua primeira grande crise, o empresário teve de lidar com 17 investidores preocupados, alguns até enfurecidos, que cobravam uma solução rápida e indolor. Ela não existia. Para os investidores, as opções eram encerrar a operação e se conformar com o prejuízo ou colocar ainda mais dinheiro para salvar a empresa. "Alguns questionaram a permanência do Abreu à frente do comando", diz o investidor Marcos Zaidan. Isso não chegou a acontecer. Aos poucos, Abreu convenceu os investidores de que o negócio merecia uma segunda chance. Todos os sócios permaneceram e um novo aporte foi feito. Em 2007, a Axismed deve faturar 12 milhões de reais -- 70% mais do que em 2006.

Como é a parceria

Investidor
Grupo de angels formado principalmente por executivos

Valor investido
2 milhões de reais

Que negócios procura
Empresas de qualquer setor com grande potencial de expansão no médio e longo prazos

O que atraiu o dinheiro
A possibilidade de crescer com uma ferramenta que auxilia as operadoras de planos de saúde a reduzir em até 35%
os custos com doentes crônicos

Empresa
Axismed (São Paulo)

Faturamento
12 milhões de reais(1)

O que faz
Monitora doentes crônicos para operadoras
de planos de saúde e grandes empresas

O que a empresa conseguiu
Conquistou operadoras de saúde como SulAmérica e Unimed e empresas como
Natura e Ambev. Em 2007, o faturamento deve crescer 70%

(1) Estimativa para 2007

Abreu é testemunha de que investidores de risco podem ficar muito bravos quando algo não sai como eles esperam. E, mesmo quando tudo vai bem, a realidade pode ser dura de aceitar. O empreendedor precisa estar preparado, por exemplo, para ouvir dos investidores que ele não é a pessoa mais adequada para comandar as finanças. Tem de cumprir uma rotina rigorosa de prestação de contas, escrever relatórios minuciosos e ser sabatinado em reuniões periódicas com o conselho de administração. Tem, ainda, de conviver com a idéia de que, dentro de alguns anos, parte do negócio (ou até a empresa inteira) pode ser vendida para uma companhia maior, para outro fundo ou ter seus papéis ofertados em bolsa. Independentemente dos detalhes, uma coisa muda para sempre -- ele deixa de ser o único dono de um bolo inteiro, porém pequeno, para ficar com um pedaço pequeno, mas de um bolo maior. "Se um pequeno ou médio empresário não consegue se imaginar lidando com essa situação, o melhor é esquecer o capital de risco", diz Sidney Chameh, do fundo paulista DGF, que investe em pequenos e médios negócios.

Um dos empreendedores que aceitaram o desafio de crescer com o apoio de um fundo foi Aurimar Santana Cerqueira, de 38 anos, da Impactools. Em 2000, quando a Impactools dava seus primeiros passos como desenvolvedora de softwares para companhias de seguros, o negócio recebeu um aporte de 553 000 reais do fundo Eccelera, que também investe em empresas de setores variados, como bens de consumo, varejo e logística. "Foi um período de amadurecimento que valeu por muitos MBAs", diz Cerqueira. A entrada do fundo incrementou os recursos humanos. O pessoal do Eccelera ajudou a encontrar profissionais para tarefas em que os sócios da Impactools se enrolavam, como finanças e marketing. Com o trabalho dos funcionários selecionados pelo fundo, a Impactools desenvolveu produtos que conquistaram seguradoras de vários países, entre os quais China, Índia e Indonésia. "Ganhar eficiência nessas áreas foi crucial para nossa globalização", diz Cerqueira. Neste ano, as vendas externas devem representar 38% do faturamento, previsto em 6,3 milhões de reais.

Em junho, após sete anos, o contrato entre a Impactools e a Eccelera chegou ao fim. De acordo com a dinâmica do sistema de capital de risco, a Eccelera exerceu seu direito de venda e negociou a Impactools com a companhia paulista Senior Solution. A empresa, uma desenvolvedora de softwares para o mercado financeiro, adquiriu 62% das ações da Impactools. O restante ficou nas mãos de Cerqueira e de outro sócio-fundador. Para Cerqueira, que continua na operação, o novo estágio representa duas oportunidades de ouro. A primeira é participar de um grupo inserido num tremendo mercado, em que a Impactools não atuava. A segunda é poder ganhar muito dinheiro com a ida da Senior Solution à bolsa de valores -- um caminho para o qual a companhia vem se preparando.

Como é a parceria

Investidor
Eccelera (São Paulo)(1)

Valor investido
553 000 reais

Que negócios procura
Empresas dos setores de bens de consumo, varejo, imobiliário e logístico

O que atraiu o dinheiro
Expandir com softwares que oferecem soluções para problemas enfrentados pelas áreas de TI das seguradoras do Brasil e do exterior

Empresa
Impactools (São Paulo)

Faturamento
6,3 milhões de reais(2)

O que faz
Desenvolvimento de softwares para companhias de seguros

O que a empresa conseguiu

No Brasil, vendeu seus serviços para empresas como Porto Seguro e Caixa Seguros. No exterior, conquistou clientes na Índia, China e Indonésia

(1) Parceria encerrada em setembro de 2007; (2) Estimativa para 2007

Abrir o capital é um caminho natural para os fundos venderem sua parte nas empresas investidas e realizarem seus ganhos -- o fortalecimento do mercado acionário brasileiro é um dos motivos que sustentam o cenário favorável para o capital de risco. "Antes de procurar um fundo, todo pequeno ou médio empresário deveria se perguntar se sua empresa é elegível para a bolsa", afirma Jorge Zapata, que administra a área de venture capital e private equity para empresas tecnológicas do fundo paulista Stratus. Ser elegível significa cumprir uma extensa lista de exigências feitas pelo mercado, antes mesmo do IPO. Entre as mais difíceis para um empreendedor acostumado a não dar satisfação a ninguém estão transparência na divulgação de informações e profissionalização do relacionamento com analistas e investidores. Hoje, uma das primeiras perguntas feitas pelos profissionais dos fundos é se o empreendedor reagiria positivamente aos pré-requisitos para o IPO. "Se houver resistências à contratação de uma auditoria independente de padrão internacional e à adoção de boas práticas de governança corporativa, não serve para nós", diz Zapata.

Como é a parceria

Investidor
Infinity (São Paulo)

Valor investido
1 milhão de reais

Que negócios procura
Empresas emergentes para aplicar recursos das famílias dos integrantes

O que atraiu o dinheiro
A oportunidade de crescer atendendo empresas de energia elétrica e de água.
Elas precisam reduzir desperdícios e fraudes, que chegam a 25% do consumo

Empresa
ADTS (São Paulo)

Faturamento
2,2 milhões de reais (1)

O que faz
Fornece tecnologias para o monitoramento remoto de redes elétricas

O que a empresa conseguiu
Contratos com companhias de água, como Sabesp e Copasa, e de energia elétrica, como Coelba. Com isso, o faturamento deve dobrar até o final do ano

(1) Estimativa para 2007

Os donos do capital podem fazer tantas exigências aos donos das idéias por uma razão -- eles que têm o dinheiro. Mas como há poucos negócios realmente bons para os fundos numa fase de abundância de recursos, não tem sido raro que alguns cheguem a travar disputas pelas melhores oportunidades. Como sempre acontece quando há competição, isso mexeu com o mercado. Vem crescendo no Brasil a presença de grupos de investidores de risco que oferecem algumas flexibilidades em relação aos fundos tradicionais. Um deles é o Ideiasnet, do Rio de Janeiro, que tem participação em 19 empresas. No início do ano, o Ideiasnet assinou contrato para colocar 1 milhão de reais na carioca Trinnphone, de serviços de telefonia VoIP para pequenos e médios negócios. Um dos aspectos que mais atraíram o interesse dos sócios Vinícius van der Put, de 31 anos, e Daniel Vilela, de 34, da Trinnphone, foi que o Ideiasnet não entrou na empresa com um prazo de saída predefinido. A maioria dos fundos encerra a parceria num prazo de três a cinco anos. "Achei que essa flexibilidade permitiria uma relação mais harmoniosa e duradoura", diz Van Der Put. Não ter data para acabar a relação foi o que o fez optar pelo Ideiasnet, em vez de um fundo de venture capital que o procurou. "Não temos pressa para sair das empresas nas quais investimos", diz Marcelo Almeida, da área da Ideiasnet que investe em negócios de pequeno e médio porte.

Poder escolher entre dois ou mais grupos de capitalistas de risco, como ocorreu com Van Der Put e Vilela, tem se tornado menos incomum do que até há pouco tempo. Há um ano e meio, o empreendedor Mervyn Lowe, de 41 anos, surpreendeu-se com a mesma experiência. Fundador da P3D, empresa paulista que desenvolveu um software educativo de imagens tridimensionais para uso em salas de aula, Lowe foi procurar capitalistas de risco no final de 2005. Eram transcorridos quase três anos desde que a empresa fora criada e as finanças estavam em más condições por falta de capital de giro. A todos ele apresentou o software da P3D em ação -- ele corta virtualmente planetas para revelar suas características geológicas, mostra o funcionamento das células, o sangue entrando e saindo do coração. Depois de se apresentar para alguns dos principais fundos com operação no Brasil, Lowe ficou a um passo de fechar acordo com a filial brasileira do Intel Capital, fundo de investimentos da Intel para empresas de tecnologia. "Eu já estava comemorando", diz ele.

Quando estava quase tudo pronto, foi apresentado por uma amiga a um investidor americano interessado em colocar dinheiro em empresas emergentes. Os dois foram para Londres, rumo a uma feira onde estavam alguns dos maiores criadores de tecnologias para uso em sala de aula. "Queria que ele conferisse com os próprios olhos o potencial da ferramenta da P3D", diz Lowe. "No fim, me foram oferecidas condições ainda melhores do que as que eu tinha negociado." Lowe acabou não fechando com a Intel e o americano adquiriu 5% do negócio. Seis meses depois, mais 3,5% foram parar nas mãos dele.

Quando conta essas histórias e fala sobre o que seu software é capaz de fazer, a tecnologia que está por trás e como ele poderia ser útil para melhorar a qualidade do sistema educacional do país, Lowe demonstra um otimismo contagiante. Na ausência dessa atitude, é difícil fazer um capitalista de risco abrir a carteira -- mesmo diante de um plano de negócios impecável. Além de entusiasmo, os homens do dinheiro procuram outro traço típico na personalidade de um empreendedor -- a obsessão por suas criações. O alemão Klaus Hommels, um dos mais experientes investidores da Europa, só entrega dinheiro a quem demonstrar possuí-la. Para detectar bons candidatos, ele tem um método -- começa a falar sobre férias. "Eles sempre acham um jeito de trazer a conversa de volta para os negócios deles", diz Hommels.

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