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O bilionário do Soweto

Nascido no subúrbio pobre de Johannesburgo, Patrice Motsepe se tornou o primeiro negro a enriquecer após o fim do apartheid na África do Sul
Divulgação
A mina de níquel Nkomati, da ARM: seu faturamento dobrou com a alta das commodities
 
Por Tatiana Gianini, de Johannesburgo | 26.11.2009 | 00h01

Para os negros sul-africanos, viver entre os anos 60 e 80 no subúrbio de Soweto, em Johannesburgo, a capital da África do Sul, era sinônimo de miséria, humilhação e encrenca. No auge da política de segregação racial do país, o bairro virou um dos maiores focos da resistência ao regime, concentrando líderes como Nelson Mandela e atraindo a pesada repressão policial. Mesmo com o fim do apartheid, em 1994, a sociedade sul-africana ainda não conseguiu se livrar totalmente dessa herança. Os negros representam hoje 80% da população do país e metade deles vive abaixo da linha da pobreza. Sua taxa de desemprego é quase seis vezes maior que a dos brancos. Em meio a esse cenário e diante da história recente da África do Sul, o caso de sucesso do empresário Patrice Motsepe, de 47 anos, surge como uma exceção e um modelo a ser seguido pela nova geração de negros sul-africanos. Motsepe nasceu em Soweto, venceu as limitações do apartheid e conseguiu prosperar no ramo da mineração, a ponto de se tornar o primeiro negro bilionário da África do Sul. No último ranking de fortunas globais da revista americana Forbes, ele surge com um patrimônio de 1,3 bilhão de dólares.

Motsepe ergueu do nada a African Rainbow Minerals (ARM), um dos maiores conglomerados de mineração da África do Sul, com quase 10 000 funcionários, participação em mais de 20 minas de ouro, ferro, platina, carvão e cobre e faturamento anual superior a 1 bilhão de dólares. A ARM tem capital aberto e Motsepe controla 41% das ações a partir da empresa, localizada no bairro de Sandton, a Wall Street da África do Sul. Embora tenha orgulho de sua trajetória de self-made man, Motsepe não gosta de falar sobre o passado em Soweto. "O apartheid foi muito difícil, mas ficou para trás", afirmou a EXAME, numa de suas raras entrevistas. Motsepe se expressa num inglês sem sotaque, fruto de um período em que morou nos Estados Unidos, nos anos 90. "Quero trabalhar para fazer a África do Sul melhor para todos, negros e brancos."

Filho de um comerciante e de uma enfermeira, Motsepe nasceu em Soweto e, ainda pequeno, foi viver com a família em outro subúrbio numa área rural da cidade de Pretória, a 60 quilômetros de Johannesburgo. A mudança ocorreu porque seu pai, um ferrenho opositor do apartheid, começara a incomodar o governo, que resolveu bani-lo de Soweto. Patrice, o primeiro nome de Motsepe, é uma homenagem a Patrice Lumumba, um dos líderes negros na luta anticolonial do continente. Em Pretória, Motsepe e os seis irmãos ajudavam o pai em sua pequena venda local. Na juventude, ele recusou o pedido do pai para assumir os negócios e ingressou na faculdade de direito. "Queria qualquer profissão capaz de me tirar de trás do balcão", afirma. Como as boas universidades da África do Sul eram proibidas para os negros, Motsepe se mudou para a Suazilândia, um pequeno país vizinho, onde frequentou a faculdade local.

Já formado, começou a trabalhar no Bowman Gilfillan, um dos maiores escritórios de advocacia da África do Sul. Nos anos 90, com o fim do regime segregacionista, tornou-se o primeiro sócio negro da empresa. Sua entrada no ramo de mineração começou a tomar forma ainda quando era advogado, trabalhando com a legislação do setor. Nessa época, durante uma viagem ao Canadá, em 1992, Motsepe visitou uma mina pequena, de baixa escala, muito mais eficiente do que as grandes operações comuns na África do Sul. "Voltei ao meu país determinado a fazer algo parecido", diz. Em 1994, quando Nelson Mandela tomou posse como presidente, Motsepe deixou a advocacia para tentar a sorte no ramo da mineração. No início, ele visitou empresas de mineração do país, pedindo a elas que vendessem a ele minas pouco lucrativas. "Por dois anos, eles me mandaram embora, dizendo que eu não sabia nada do negócio", afirma. Seu primeiro passo no setor foi o contrato de prestação de serviços para uma mina de ouro da empresa inglesa Anglo American.



 
 
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