exame/tecnologia
 

Um ícone em declínio

A Palm, empresa que criou o mercado de smartphones, perdeu a primazia da inovação e hoje vive uma crise sem precedentes
 
Por Luiza Dalmazo | 12.11.2009 | 00h01

No dia 8 de janeiro, Jonathan Rubinstein, presidente do conselho da fabricante de celulares Palm, subiu ao palco de um dos maiores eventos de eletrônicos do mundo, a feira Consumer Electronics Show, com uma novidade empolgante. Rubinstein, um ex-executivo da Apple, tinha em mãos o novíssimo Pre. Muitas expectativas cercavam o aparelho. Os fãs de tecnologia queriam ver um smartphone com tela sensível ao toque, mas igualmente dotado de um teclado físico. Esperavam também um celular capaz de abrir dois programas ao mesmo tempo, coisa que o iPhone não faz. A apresentação foi sucesso absoluto de crítica. Entre as centenas de lançamentos da feira, o Pre foi um dos que receberam mais destaque na imprensa especializada e geraram mais cobiça por parte dos consumidores. Mas havia uma outra expectativa a atender: a dos acionistas da empresa. Responsável pelo primeiro computador de mão de sucesso (o Palm Pilot) e uma das pioneiras no mercado de smartphones (Treo), a Palm vivia um longo e melancólico declínio. Nas ruas e nos escritórios só se falava em iPhone e BlackBerry. A empresa que praticamente inventou o mercado de computação de bolso precisava de um hit para sobreviver -- e, dado o entusiasmo inicial com o Pre, havia motivo para otimismo.

Mas as boas notícias não vieram. Apesar da euforia inicial, o Pre não se tornou um estouro de vendas. Até setembro, a empresa contabilizava a venda de 1,6 milhão de unidades, número inferior aos 3 milhões de aparelhos vendidos no mesmo período do ano anterior. Dias depois do anúncio do Pre, a Apple baixou o preço do iPhone 3G e lançou um modelo mais potente. Mesmo sem os recursos oferecidos pelo celular da Palm, o iPhone continuou a dominar as atenções. O que restou à empresa foi o encolhimento -- que muitos supõem ser o começo do fim. "A empresa realmente perdeu o bonde", diz Alex Spektor, analista da consultoria americana Strategy Analytics. No Brasil, os sinais da crise são bastante visíveis. Foi mantido um escritório apenas para tocar as operações de logística de importação e assistência técnica. Agências de propaganda, assessoria de imprensa e distribuidoras de produtos foram dispensadas no país. A equipe foi reduzida para cerca de dez pessoas. Todas as operações da América Latina (Argentina, México e Chile) estão sendo centralizadas nos Estados Unidos. Até mesmo a fabricação de aparelhos aqui foi suspensa. A montadora Celestica, contratada para montar os equipamentos, fechou as portas da fábrica em Hortolândia, no interior de São Paulo, em julho. As mudanças foram confirmadas por executivos de diversas empresas que faziam negócios com a Palm. (Em reposta aos questionamentos de EXAME, a empresa respondeu que não passa por uma reestruturação mundial e que a intenção é introduzir novos aparelhos no restante do mundo de maneira "comedida e prudente".)

O declínio da Palm, empresa que poucos anos atrás era líder do mercado em que atua, tem vários ingredientes. Com a ascensão do BlackBerry, a Palm perdeu a primazia tecnológica que desfrutara por muito tempo. A canadense Research in Motion, além de ter um aparelho comparável, passou a vender serviços de segurança e garantia de entrega dos e-mails. Mas foi a Apple que mudou as regras do jogo para sempre -- e isso não se deu apenas com o apelo sexy do iPhone. Com o lançamento da App Store, a central de distribuição de programas para o iPhone, a Apple criou uma nova dimensão pela qual se escolhe um smartphone. Ter um design atraente e novidades tecnológicas ajuda, é claro. Mas a App Store introduziu a ideia da personalização. A Apple atraiu dezenas de milhares de programadores, de indivíduos a grandes empresas. E eles criaram -- e continuam criando -- um enorme catálogo de programas para aumentar a utilidade do iPhone.



 
 
Destaques do Portal EXAME