Gastar melhor também requer mudança na maneira de remunerar os prestadores de serviços. "É preciso mirar o resultado, não o procedimento", afirma Cláudio Lottenberg, presidente do hospital Albert Einstein, de São Paulo. Hoje, tanto os planos particulares quanto o SUS remuneram cada procedimento realizado, não o resultado do atendimento. Portanto, quanto mais exames um laboratório fizer, mais ele receberá. "Esse modelo estimula o desperdício", diz Lottenberg. Uma mudança exige, sobretudo, eficiência de gestão tanto da operação quanto das informações dos pacientes. Na Inglaterra, e também no Canadá, o governo paga hospitais e clínicas com base em uma fórmula que combina os gastos das unidades de atendimento com indicadores de saúde das pessoas atendidas e também com os da população em geral. Os hospitais ingleses estão longe de parecer hotéis de luxo, como ocorre nos Estados Unidos e, em vários casos, no Brasil. A ênfase no atendimento básico também é importante para o equilíbrio. O principal contato dos ingleses é com o clínico geral do bairro. "Isso evita que pacientes sem gravidade utilizem os hospitais, que são estruturas caras e existem para prestar atendimento complexo", afirma José Cechin, presidente do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar. Para americanos e brasileiros de classe média e alta, o modelo inglês tem a desvantagem de limitar a liberdade de escolha. No entanto, Canadá e Inglaterra gastam menos que os Estados Unidos e colhem melhores indicadores, além de oferecerem atendimento universal.
O debate sobre saúde não é exclusividade de governos. A busca por equilíbrio financeiro desafia também executivos do setor privado, uma vez que a saúde dos empregados -- e o custo de mantê-la -- é preocupação das empresas. Na Volkswagen, a palavra de ordem é prevenção. A montadora está conferindo o estado de saúde de seus 23 000 funcionários no Brasil. Mais de 15 000 já cumpriram uma bateria de exames e preencheram questionários sobre hábitos de vida. "O objetivo é chegar a uma fotografia detalhada dos problemas atuais e potenciais para definir planos de prevenção", afirma Vinícius Franzoi, responsável pela área de saúde na Volks. Na varredura, a Volkswagen descobriu que 65% dos funcionários são sedentários. A constatação motivou a criação da Volkswagen Run, uma corrida anual feita nas fábricas. A gerente de produtos Vânia Dividino participou da primeira prova e tornou-se adepta da corrida. "Viajo quase toda semana, mas levo sempre o tênis na mala", diz ela. Vânia também está concorrendo a uma viagem para a Europa, que será o prêmio para o executivo com melhor desempenho num concurso criado pela montadora para motivar a adoção de hábitos saudáveis. O empenho da Volkswagen é justificado. Em apenas cinco anos, o gasto das companhias brasileiras com o plano de saúde de funcionários subiu mais de 30%, segundo pesquisa realizada pela Marsh, administradora de planos de saúde empresariais. Nos Estados Unidos, outra pesquisa, essa da consultoria Mercer, mostra que 40% das companhias pretendem aumentar a contribuição dos empregados nos planos médicos.
O custeio da saúde não é um problema apenas do setor público, das empresas com relação a seus funcionários ou das pessoas sem condições de pagar planos privados. "O problema é de toda a sociedade, porque quem financia a saúde, no final das contas, é o cidadão, seja pagando um plano privado, seja pagando impostos", afirma Lottenberg. O brasileiro conhece bem a questão. Durante 14 anos, até o final de 2007, arcou com o imposto do cheque, a finada CPMF, criada a pretexto de complementar os gastos públicos com saúde. Agora o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, se desdobra para mostrar a necessidade de ressuscitar o tributo e acudir sua pasta. Tudo leva a crer que o financiamento e a gestão dos sistemas de saúde devam merecer tanta atenção quanto as pesquisas científicas que pretendem tornar o homem imortal. Nenhuma dessas questões, porém, tem resposta fácil -- mas, cedo ou tarde, os brasileiros também terão de enfrentá-las.