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Vida mais longa, conta mais cara

Atendimento melhor à totalidade da população. Acesso a novos remédios e tecnologias médicas. Tudo isso é desejável -- mas como ter isso sem tornar os custos insustentáveis? Saiba por que a saúde é o tema mais candente da atualidade
Ricardo Corrêa
Cirurgia com robô no Albert Einstein: a tecnologia amplia o poder da medicina
 
Por Roberta Paduan | 12.11.2009 | 00h01

O cientista americano Raymond Kurzweil, considerado uma das mentes mais brilhantes da atualidade, provocou espanto e ceticismo recentemente ao anunciar que estamos prestes a atingir um objetivo tão antigo quanto a própria vida -- a imortalidade. Formado em ciências da computação pelo Massachusetts Institute of Technology e detentor de alguns dos mais importantes prêmios de inovação, Kurzweil diz que o ritmo de avanço tecnológico é tão intenso que bastarão mais duas décadas para tornar o homem imortal. De um lado, novas gerações de remédios vão sufocar as doenças. De outro, a nanotecnologia será utilizada para construir órgãos vitais que substituirão os biológicos gastos pelo tempo. Devaneio de um cientista maluco? Talvez. Mas é fato que o arsenal disponível para prolongar a vida nunca foi tão robusto. Repare na foto ao lado. Não é um médico que se debruça para operar o paciente -- mas um robô. O cirurgião, vestido de verde, sentado numa cabine ao fundo da sala, comanda quatro braços robóticos que se movimentam no interior do abdome do paciente. Três deles manobram bisturis, pinças e agulhas. O quarto leva uma câmera que mostra tudo o que se passa na operação e produz imagens ampliadas 12 vezes. Elas guiam o cirurgião, que opera com os olhos grudados em um monitor, como se jogasse videogame. Com isso, evitam-se cortes extensos, há menos perda de sangue e dá para chegar a áreas do corpo de difícil acesso. Ponto para a vida.

Na perspectiva individual, não pode haver melhor notícia do que a possibilidade de uma vida mais longa e melhor. Assim que a fase dourada da juventude passa, nos damos conta de que o corpo envelhece -- e, para muita gente, retardar essa condição até hoje inexorável passa a ser uma obsessão. Coletivamente, porém, a evolução da medicina impõe questões éticas intrincadas. Utilizar os recursos de ponta para manter a saúde dos 6,5 bilhões de habitantes do planeta seria impossível. Para ficar no exemplo da foto da abertura desta reportagem: uma cirurgia robótica custa 50% mais que a convencional. O robô, com apenas três exemplares no Brasil, custa 1,3 milhão de dólares. "É justamente esse ponto, o preço, que torna a saúde um tema de discussão prioritário e explosivo em todo o mundo" afirma Paulo Elias, professor da Escola de Medicina da Universidade de São Paulo. Por muito tempo, a humanidade atrelou a palavra saúde ao significado de algo que não tem preço. Foi assim até poucas décadas atrás, quando praticamente toda tecnologia usada pelos médicos cabia em uma maleta. Ocorre que o mesmo avanço que permite a realização de uma cirurgia robótica e alimenta a esperança de o homem viver mais -- e melhor -- é responsável por encarecer como nunca o preço dos produtos e serviços médico-hospitalares. Nos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, o clube dos ricos, os investimentos em saúde triplicaram desde a década de 60. Não espanta que o presidente americano Barack Obama tenha eleito a reforma do sistema de saúde como prioridade máxima, ao lado do combate à crise econômica (no início de novembro, ela foi aprovada na Câmara dos Deputados e agora segue para o Senado americano). Nos Estados Unidos, o governo só presta assistência a crianças, a idosos e a ex-combatentes de guerra. A população em idade produtiva tem de arcar com suas despesas, o que deixa 46 milhões de americanos sem direito a nenhum atendimento. Mesmo assim, a conta não fecha. No ano passado, o governo americano gastou quase 1,2 trilhão de dólares com saúde.

No Brasil, o tema saúde é particularmente delicado. Apesar de a Constituição assegurar atendimento gratuito a todo cidadão, na prática a maioria da população tem acesso, depois de muita espera, a um serviço precário. A situação tende a piorar -- e muito -- com as mudanças demográficas. A projeção é que a proporção de pessoas com mais de 60 anos passe dos atuais 10% para 30% da população até 2050. Serão 64 milhões de idosos, ante 19 milhões atuais. Trata-se de um cenário complicado -- os gastos com idosos equivalem a seis vezes as despesas com crianças no Brasil. Diante desses dados, o único desfecho possível parece ser o colapso. No entanto, estudiosos sustentam que é possível não só evitar a piora como também melhorar o atendimento. "Teremos de aumentar um pouco mais os gastos, mas, sobretudo, gastar com muito mais qualidade do que hoje", afirma Carlos Alberto Suslik, coordenador do curso de gestão em saúde da escola de negócios Insper.




 
 
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