Por quase quatro décadas, as subsidiárias da holandesa Philips e da americana GE disputaram palmo a palmo a liderança no mercado brasileiro de equipamentos de diagnóstico por imagem -- sem nunca produzir um único aparelho no país. Todas as unidades vendidas vinham da Europa, dos Estados Unidos e da Ásia. Para as matrizes dessas empresas, o Brasil era um mercado relevante, mas não a ponto de justificar a instalação de centros de produção e o desenvolvimento de produtos sob medida. Mas a recente e espetacular expansão do mercado de equipamentos hospitalares, que quase triplicou seu faturamento nos últimos cinco anos, alcançando 7 bilhões de reais em 2008, fez com que os executivos de Philips e GE mudassem de ideia. Nos últimos dois anos, a Philips comprou duas fabricantes locais de equipamentos e instalou em 2009 uma linha para a montagem de aparelhos de tomografia e ressonância magnética, responsáveis por exames de alta complexidade -- movimento que exigiu investimentos de 300 milhões de dólares. A GE deve concluir, em abril de 2010, as obras de uma fábrica para o mesmo tipo de equipamento. Resultado de um investimento de 50 milhões de dólares, a linha não vai fabricar máquinas novas por enquanto. A ideia é partir de equipamentos usados, modernizar suas peças e revendê-los no mercado. "Há um grande potencial para o crescimento no país e precisamos ter produtos específicos para esses consumidores", diz Cláudia Goulart, presidente da empresa de cuidados com a saúde da GE para a América Latina. "Já não dá mais só para importar."
O mercado brasileiro de saúde ficou grande demais -- já é o sexto maior do mundo -- para ser ignorado pelas grandes multinacionais do setor. Nos últimos cinco anos, a receita dos 30 maiores hospitais privados do país dobrou, as vendas de medicamentos cresceram quase 80% e o faturamento das operadoras de planos de saúde aumentou 111%. O Brasil é hoje o nono maior consumidor de medicamentos do mundo e a previsão é que alcance a sétima posição em quatro anos. A explicação para esses números pode ser encontrada em três principais frentes. A primeira é o aumento dos investimentos do governo, a despeito de todas as mazelas do sistema público de saúde. Quase metade do dinheiro aplicado em saúde tem origem pública e, entre 2003 e 2007, 42 bilhões de reais extras foram investidos. A segunda é a mesma razão por trás do bom desempenho de tantos outros setores da economia: o crescimento do emprego e da renda. Quanto maior o número de pessoas com carteira assinada, maior o acesso a planos de saúde, o que acaba por impulsionar o setor como um todo. Por fim, o aumento da expectativa de vida tem elevado a demanda por produtos e serviços de saúde -- espera-se que até 2050 a população brasileira tenha 64 milhões de pessoas com mais de 60 anos de idade, ante os atuais 19 milhões. "São exatamente esses novos consumidores que têm colocado o Brasil no foco das principais empresas do setor de saúde do mundo", diz Fernando Barreto, sócio da consultoria de gestão Primeira Consulta.
Nenhum outro elo da cadeia da saúde representa essa lógica de modo mais evidente do que a indústria farmacêutica. Há apenas oito anos, as economias maduras respondiam por 80% do crescimento das fabricantes de medicamentos em todo o mundo. Segundo a consultoria IMS Health, a proporção se inverterá neste ano. Mais da metade da expansão virá dos sete maiores países emergentes do mundo, grupo conhecido como pharmerging (junção do prefixo "farma" e da palavra "emergente", em inglês) e que inclui o Brasil. A principal razão para a mudança no equilíbrio de forças é a disparada do poder de consumo nos países em desenvolvimento. Ao mesmo tempo, as receitas em países desenvolvidos -- que crescem em ritmo bem mais lento -- devem sentir um novo baque nos próximos cinco anos. Medicamentos inovadores consumidos largamente nessas regiões, como o Zyprexa, da Eli Lilly, e o Lípitor, da Pfizer, perderão suas patentes -- quando isso acontecer, seus preços cairão até 85%. "Haverá um hiato de quatro anos até que um grupo relevante de drogas bilionárias volte a ser lançado. Até lá, o crescimento dos laboratórios terá de vir dos emergentes", diz Wilson Borges, presidente do Zambon no Brasil, que já recebeu carta branca da matriz italiana para comprar um laboratório local.