Já virou rotina. A cada abalo no sistema econômico, jornalistas, analistas e o público em geral iniciam uma frenética corrida para identificar os maiores perdedores -- e também o punhado de felizardos que conseguiram se safar sem arranhões. A história não tem sido diferente agora. No front geopolítico, o rol dos derrotados inclui quase todos os países ricos, enquanto China, Índia e Brasil veem seu cacife crescer. No mundo das personalidades da economia, medalhões como Alan Greenspan e alguns dos banqueiros mais incensados dos últimos tempos saíram com a reputação em frangalhos -- e hoje quem surfa a onda são profetas da crise, como Nouriel Roubini e Robert Shiller. Também na academia ocorre algo semelhante. Nos competitivos e frequentemente ácidos departamentos de economia das principais universidades, a hora é de questionar verdades estabelecidas, encostar antigas estrelas e promover um reordenamento no mundo das ideias. Nesse contexto, perdem espaço os principais defensores da corrente neoclássica, entre os quais se inclui a maioria dos vencedores do prêmio Nobel de Economia. Por sua vez, depois de anos hibernando, surge com renovado vigor a figura do inglês John Maynard Keynes para retomar o posto de maior pensador econômico dos séculos 20 e, pelo menos por enquanto, 21. Keynes voltou a ser pop -- tanto quanto é possível a um economista ser pop. O que não é pouco para alguém que escreveu seu principal livro em 1936 e morreu antes de conhecer a guerra fria, a TV em cores e o rockn roll.
Na esteira desse sucesso, uma fornada de livros sobre o economista chega às bancas. Talvez o mais interessante deles seja Keynes -- The Return of the Master ("Keynes -- o retorno do mestre", numa tradução livre), do professor de economia política da Universidade de Warwick Robert Skidelsky. Poucas vozes têm mais autoridade para falar sobre o personagem. Skidelsky, articulista de alguns dos mais renomados veículos jornalísticos do Reino Unido e dos Estados Unidos, é também autor da mais encorpada e premiada biografia sobre Keynes, uma monumental obra em três volumes tida como essencial para qualquer um que pretenda destrinchar sua vida e obra. Agora ele volta ao tema num livro de bem menos fôlego, até em termos de tamanho (são 220 páginas). Por isso mesmo, não se trata de uma contribuição feita para marcar época. A vantagem é que a leitura é bem mais fácil e atinge um público abrangente -- que quer entender as principais ideias de Keynes sem ter de vencer quase 2 000 páginas com detalhes sobre sua infância, sua vida sexual ou sobre sua atuação no meio político inglês dos anos 20 e 30.
Agora, a ambição é outra. Trata-se de um passeio pelo pensamento econômico desde os anos 30 para mostrar a ascensão, a queda e o atual renascimento de Keynes. A revolução keynesiana, iniciada em plena Grande Depressão, é relativamente conhecida do público leigo. Em sua Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, Keynes rebate a crença neoclássica de que toda oferta de bens necessariamente cria sua demanda (conhecida como Lei de Say, em referência ao economista francês J.B. Say). Nesse comportado mundo imaginário, bastaria aos países garantir que os bens fossem efetivamente produzidos -- a partir daí, o problema essencialmente econômico estaria resolvido. A brutal crise pós-crash da Bolsa de Valores de Nova York violou esse pressuposto, e coube a Keynes explicar que, sim, é possível o mundo enfrentar de quando em quando um problema de falta de demanda. Numa economia monetária, as pessoas podem optar por guardar o dinheiro em vez de gastá-lo. Também ocorre, em tais situações extremas, que os bancos centrais atuem até o limite de suas forças -- reduzindo os juros a zero -- sem conseguir atiçar o espírito de consumidores e investidores. É nessa hora, diz Keynes, que o governo precisa agir. Não espanta que sua figura esteja de volta. O receituário adotado pelo mundo atualmente -- seja no gigantesco pacote fiscal americano, nas dezenas de obras de infraestrutura chinesas ou no alívio fiscal promovido pelo governo brasileiro -- deve muito às suas ideias.