Um dos mais intrincados e disputados negócios do setor de telecomunicações do país deverá finalmente ser concluído em 19 de novembro. Nesse dia, os acionistas da GVT, única operadora espelho remanescente da privatização, decidirão se vendem ou não a empresa à espanhola Telefônica por 6,5 bilhões de reais -- de longe a maior transação da história do setor (a aquisição da Brasil Telecom pela Oi, em janeiro de 2008, custou 5,8 bilhões de reais). O que mais tem surpreendido analistas e especialistas de mercado, no entanto, não é o valor da transação em si (os espanhóis ofereceram 1 bilhão de reais a mais que a proposta inicial feita pelos franceses da Vivendi), mas a agilidade demonstrada pela Telefônica, uma empresa tradicionalmente lenta nas tomadas de decisão. No prazo de apenas uma semana, a operadora pediu autorização prévia para a aquisição na Anatel, agência que regula o setor, e apressou-se em protocolar sua oferta na Comissão de Valores Mobiliários. Se tudo der certo, a compra da GVT será concluída em apenas 45 dias -- tempo recorde para um negócio dessa magnitude. "Não fizemos nem auditoria na GVT", disse a EXAME Antônio Carlos Valente, presidente da Telefônica no Brasil. "A empresa está listada no novo mercado da Bovespa e é reconhecidamente uma companhia que conta com elevados padrões de gestão. Não havia porque gastar tempo com esse tipo de procedimento."
O senso de urgência demonstrado por Valente na negociação com a GVT dá uma ideia da importância que a transação adquiriu dentro do grupo. A aquisição vinha sendo estudada pela Telefônica há pelo menos quatro meses -- mas a decisão esbarrava na burocracia corporativa. Ao todo, o projeto transitou por nove instâncias distintas em São Paulo e Madri, sede mundial da companhia, e incluiu a formação de um comitê multidisciplinar com cinco executivos dedicados a deliberar sobre o assunto. Mas as disputas societárias entre os acionistas da Telco, a holding que controla a Telecom Itália e tem como sócios a Telefônica, a família Benetton e outros três bancos italianos, até algumas semanas atrás, relegaram as discussões sobre a compra da GVT a um segundo plano. (No fim, a estrutura societária da Telco permaneceu a mesma.) Foi somente quando a francesa Vivendi demonstrou interesse em adquirir o controle da GVT que os espanhóis decidiram correr com o processo de análise e partir para o contra-ataque. "Não fosse pelo surgimento de um candidato de peso, é bem provável que não tivéssemos feito a oferta até hoje", afirma um alto executivo da companhia, que pediu para não ser identificado. "A morosidade da Telefônica acabou lhe custando 2 bilhões de reais a mais. As ações da GVT dispararam quase 50% de julho para cá."
Para a Telefônica, o fantástico prêmio oferecido aos acionistas da GVT é justificável por questões estratégicas. Os espanhóis, que atuam somente no estado de São Paulo, têm perdido espaço em duas de suas principais áreas de atuação: a telefonia fixa, em declínio devido ao avanço das operadoras de celular, e a banda larga, que sofreu um revés com a suspensão da venda do serviço entre os meses de julho e agosto por ordem da Justiça. (O ritmo de adesões diárias caiu quase à metade após a crise do Speedy.) Isso fez com que, até o início de outubro, a Telefônica estivesse 1 bilhão de reais aquém da meta de receita prevista para este ano, de 23,5 bilhões de reais. "Geralmente, essa diferença fica na casa dos 50 milhões de reais", afirma um executivo da Telefônica. "Sem a GVT, vai ser difícil cumprir as metas deste ano." Se concluída em novembro, conforme o previsto, a aquisição da GVT já seria incluída no balanço de 2009 -- garantindo uma receita extra de 2 bilhões de reais. Para o ano que vem, estima-se que a operação acrescente, numa só tacada, 300 milhões de reais ao lucro da operadora espanhola.