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Eu quero a minha usina nuclear

A construção de duas usinas no Nordeste, um investimento de 8 bilhões de dólares, vira objeto de uma inusitada disputa de governos
Divulgação
Central nuclear de Angra: antes rejeitadas, essas usinas agora são cobiçadas
 
Por André Faust | 29.10.2009 | 00h01

O governo de Alagoas organizou recentemente uma caravana para uma viagem de dois dias ao Rio de Janeiro. Missão oficial: dar início à expansão energética do estado. Faziam parte da comitiva o governador Teotônio Vilela Filho, secretários, representantes do setor produtivo, deputados, procuradores e até uma reitora de universidade. Ao final da programação, que incluiu um dia inteiro de visita ao complexo gerador de Angra e longas conversas com técnicos da Eletronuclear, estatal responsável pelas usinas nucleares, o grupo se deu por satisfeito. "Voltamos com a certeza de que Alagoas precisa de usinas iguais àquelas", diz Luiz Otávio Gomes, secretário estadual de Desenvolvimento Econômico. Para o governo alagoano, não foi uma viagem qualquer. A peregrinação fez parte do esforço de atrair a instalação de duas usinas nucleares previstas para operar no Nordeste a partir de 2019. Como Alagoas, outros estados da região entraram na disputa pelas usinas. No centro da cobiça estão investimentos estimados em 8 bilhões de dólares, royalties, milhares de postos de trabalho e uma fonte energética que, antes execrada no Brasil e no mundo, ganhou status de alternativa limpa em tempos de aquecimento global. "Se ganharmos, vai ser como o Rio comemorando ser a sede da Olimpíada", afirma Gomes.

A construção das usinas é parte de um plano do Ministério de Minas e Energia para expansão e diversificação da matriz energética até 2030. Pelo plano, o país, hoje com duas usinas atômicas funcionando, deverá pôr em operação entre quatro e oito novas unidades nos próximos 20 anos. Além de Angra 3, que está em construção, e das duas previstas no Nordeste, o plano prevê ao menos mais duas usinas na Região Sudeste. A participação das nucleares na expansão da oferta energética nas próximas décadas, apesar de tímida -- 5% de um total de 115 000 megawatts a ser adicionados até 2030, que praticamente dobrarão a capacidade disponível --, é tida como estratégica. "Em 20 anos, o aproveitamento do potencial hidrelétrico do Brasil estará próximo do limite", afirma Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética, ligada ao ministério. "Esse cenário será evidente especialmente no Nordeste, que já tem potencial reduzido." A existência de reservas de urânio no país e o propósito de manter a independência em relação a fornecedores externos -- como a problemática Bolívia -- também pesam a favor da opção pelas usinas atômicas. "Vamos precisar de fontes que gerem de forma contínua. É aí que entram as nucleares", diz Tolmasquim.

A decisão sobre a localização das usinas no Nordeste ainda tem pela frente um processo de seleção. Num primeiro momento, a Eletronuclear, em parceria com o Coppe, centro de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, está mapeando áreas que tecnicamente terão condições de receber as geradoras. Consideram-se nessa etapa fatores como proximidade dos centros de consumo, baixa densidade populacional e abundância de recursos hídricos. Até fevereiro de 2010, a Eletronuclear deve divulgar uma lista de 20 áreas candidatas em quatro estados: Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco. "A ideia é apresentar um cardápio de locais para subsidiar a decisão final, que é política", afirma Luiz Othon Pinheiro da Silva, presidente da Eletronuclear.



 
 
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