Moradores da favela Dona Marta, na zona sul do Rio de Janeiro, os cariocas Verônica Moura, de 23 anos, e Márcio Chagas, de 36, viveram uma transformação em sua vida nos últimos três anos. Com a ajuda de familiares e assumindo crediários em lojas, o casal aos poucos equipou a casa com móveis, geladeira, fogão e televisor. Há um ano, montaram o quarto do pequeno Gabriel, hoje com 8 meses. Verônica, assistente social, ganha 900 reais por mês. A renda familiar é reforçada por extras conseguidos por Márcio em trabalhos temporários, como carregador, porteiro ou ajudante. Além dos gastos com alimentação e fraldas para o bebê, o casal paga mensalmente TV por assinatura e plano de saúde para o filho. Da aquisição mais recente da família, uma cama de casal, restam quitar apenas duas parcelas. O dinheiro que irá sobrar já tem destino: a conclusão da reforma da casa de 40 metros quadrados. "Economizamos sempre que podemos. Já conseguimos montar a casa. Agora, é fazer melhorias e juntar para a educação do Gabriel", diz Verônica. O controle estrito dos gastos permitiu que, no mês passado, eles pagassem em dia a primeira conta de luz enviada pela Light. Desde fevereiro, a empresa, responsável por parte do abastecimento de energia no estado do Rio de Janeiro, refez a rede de distribuição da favela para iniciar a cobrança das 1 500 famílias que lá vivem -- antes, 90% dos moradores usavam energia clandestinamente. O programa, que incluiu a troca de lâmpadas e geladeiras, passou no primeiro teste: 75% dos consumidores pagaram a fatura no prazo. Além de sair da ilegalidade, as famílias ganharam comprovante de residência, já que todas as ruas receberam nome e as casas foram numeradas. Com a fatura em mãos, Verônica pôde concluir o cadastro como vendedora da Natura e já começou a oferecer cosméticos na comunidade. Ela calcula que, com a nova função, outros 200 reais reforçarão a renda mensal da família.
Famílias como a de Verônica e Márcio vêm despertando o interesse de um número crescente de empresas de serviços e bens de consumo. Elas fazem parte da chamada classe D, segmento que concentra 45 milhões de brasileiros, o equivalente a quase 25% da população do país. Sua importância para o mercado está na massa de renda que reúne: 256 bilhões de reais por ano, ou 20% do consumo total. Essa fatia já supera a da classe A, detentora de 16% da renda. Em boa medida, os integrantes da classe D emergiram da E, a faixa da extrema pobreza, nos últimos anos, quando a estabilidade monetária conquistada com o real em 1994 se combinou com crescimento econômico mais vigoroso e maior oferta de crédito. Em cidades do interior ou na periferia das metrópoles, eles ocupam funções como as de auxiliares administrativos, empregados domésticos e operários da construção. Possuem renda familiar entre 804 e 1 115 reais por mês, segundo critério da Fundação Getulio Vargas. "São os ex-pobres. Apesar do orçamento restrito, são pessoas que conseguem juntar dinheiro e comprar bens de consumo", diz Marcelo Néri, chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas e autor do estudo Consumidores, Produtores e a Nova Classe Média Brasileira.
A classe D é delimitada por uma faixa estreita de renda, tanto quando comparada à amplitude da classe E (de zero a 803 reais) quanto à da C (de 1 116 a 4 807 reais). Esse estrato foi definido em 2007, quando a FGV iniciou sua classificação, após verificar que um grande número de famílias tem rendimentos no pequeno intervalo de dois a três salários mínimos. "É uma faixa de transição, que está a um passo da classe média. Uma pequena promoção ou um segundo emprego já permitem que mudem de patamar de consumo", afirma Néri. Ou seja, seus membros tendem a subir para o nível econômico intermediário -- são uma espécie de emergentes dos emergentes. Apenas no recente período de julho de 2008 a junho de 2009, a classe D "exportou" 17,4 milhões de pessoas para a C. Isso não quer dizer que a subida seja automática. Devido aos efeitos da crise, no mesmo período, 7,9 milhões caíram da D para a classe E.