De todos os mercados do mundo, talvez nenhum tenha sido mais afetado pela crise financeira global do que o das ideias econômicas. Na disputa por corações e mentes, a indiscutível liderança do liberalismo americano e inglês, mantida durante décadas de prosperidade e sucesso, despedaçou-se em meio a pacotes de socorro bilionários para um empresariado de pires na mão. A versão chinesa do capitalismo, por sua vez, vem galgando posições e hoje atrai a atenção dos órfãos de um modelo de desenvolvimento graças à sua peculiar mistura de mercado livre com Estado forte -- quem há de discordar que, pelo menos por enquanto, essa receita tem funcionado impressionantemente bem? Até mesmo a velha Europa parece mais disposta a mostrar suas virtudes. Economistas respeitados, como o americano Jeffrey Sachs, agora cultuam o modelo econômico nórdico e seu Estado de bem-estar social, uma espécie de paraíso na Terra por muito tempo considerado bom (e caro) demais para ser real. O mundo mudou muito nos últimos meses e é possível que mude ainda mais nos próximos. Vários pensadores têm ressaltado que não há um único caminho para o sucesso, como advogavam os defensores do Consenso de Washington. Na ânsia por respostas aos desafios do futuro, cada vez menos gente tem buscado os ensinamentos dos manuais clássicos de economia. A confiança na sabedoria intrínseca dos mercados despenca na mesma medida em que sobe o interesse por soluções de Estado aos conflitos inerentes da vida social.
No Brasil, não andam em falta louvações ao planejamento central. A crise internacional deu munição aos adeptos dessa visão, que agora se sentem livres para cometer seus exageros. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou a oportunidade e cunhou várias frases típicas de seu estilo polêmico. Logo após a quebra do banco americano Lehman Brothers, numa viagem a Cuba, Lula se entusiasmou com a companhia do presidente Raúl Castro e proclamou: "Na crise, percebemos que o mercado é como se fosse um ovo sem gema, ou seja, vazio. Quem é que corre para socorrer o mercado? Exatamente o Estado, que não valia nada, que atrapalhava". Uma das joias de seu discurso de maior repercussão internacional foi a que identificou os culpados pelo abalo nas finanças globais. "É uma crise causada por comportamentos irracionais de gente branca de olhos azuis que antes da crise parecia que sabia tudo e que agora demonstra não saber nada", disse Lula no final de março, em Brasília, durante uma visita do premiê britânico, Gordon Brown. Para a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, a ocasião tem sido de rebater críticas aos gastos do governo e defender com mais veemência sua proposta de rumo para o país. "O que se viu no mundo nos últimos tempos é que a tese do Estado mínimo é uma tese falida, ninguém aplica, só os tupiniquins. Nós somos extremamente a favor do Estado que induz o crescimento, o desenvolvimento, que planeja", declarou em entrevista recente. Já é nítido o avanço do Estado "indutor de crescimento", como definiu a ministra. As agências reguladoras, paulatinamente nos últimos anos, perderam sua autonomia original e seu caráter técnico. Ao mesmo tempo, o governo deu impulso à maior presença de estatais na economia. No setor financeiro, há uma atuação no crédito mais agressiva que os bancos privados, especialmente agora que o Banco do Brasil foi reforçado com a incorporação da paulista Nossa Caixa. No petróleo, as propostas apresentadas para a exploração do pré-sal incluem a criação de uma nova estatal, a Petro-Sal, e mais espaço para a já existente, a Petrobras. Setores como os de energia, mineração e telecomunicações estão também na mira do governo.
Encontrar o melhor equilíbrio entre as forças do mercado e as do Estado tem sido um desafio recorrente das sociedades modernas. A própria história do capitalismo pode ser vista sob o prisma de uma busca por essa resposta, alternando fases de maior com menor intervenção. Por isso, antes de guinadas bruscas à esquerda, não é má ideia olhar a experiência acumulada ao longo das décadas. E aí convém separar alguns debates distintos que atualmente se encontram sob o manto das críticas genéricas ao liberalismo. Uma primeira discussão, particularmente importante nos dias atuais, é sobre a capacidade do Estado de regular a ação do setor privado. Hoje é evidente que as autoridades americanas e europeias não viram -- ou não quiseram ver -- o castelo de cartas que se criou a partir do sistema financeiro. O curioso é que a teoria econômica tradicional há muito incorporou a noção de que vários mercados só podem funcionar com uma regulação forte. O conceito-chave nesse campo é o de falha de mercado. Um exemplo clássico de falha de mercado é quando duas pessoas se envolvem em uma transação, mas uma delas conhece muito melhor o bem a ser negociado. Foi o que ocorreu na crise americana: os bancos repassaram a seus clientes instrumentos financeiros arriscados, vendidos como se fossem seguros. Como só o banco conhecia o risco dos papéis, seria preciso um regulador para impedir que o cliente fosse enganado e para limitar a alavancagem bancária. Foi exatamente o que fez o Banco Central brasileiro. Estranhamente, as correntes mais animadas em defender o Estado por aqui atacam o BC e outras agências criadas para regular o mercado.