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Os pioneiros da democracia

Livro mostra os piratas como precursores de uma sociedade igualitária - algo bem mais lisonjeiro que a fama de bandidos cruéis e desordeiros
Stephen Vaughan
A lei, segundo Jack Sparrow: cada tripulante tinha direito a um voto nas decisões do grupo
 
Por Eduardo Pegurier | 25.06.2009 | 00h01

Revista EXAME -

Piratas evocam uma vida desregrada, violenta e, nos filmes hollywoodianos, intermináveis farras embaladas a rum. Os ataques a navios de carga por um grupo de piratas somalis a bordo de um minúsculo bote salva-vidas, nos últimos meses, só ajudaram a reforçar a ideia de falta de sofisticação de uma das profissões mais antigas do mundo. O recém-publicado The Invisible Hook: The Hidden Economics of Pirates (em português, "O gancho invisível: a organização econômica desconhecida dos piratas"), no entanto, contraria o mito e eleva os lendários bandidos a um lugar mais lisonjeiro na história - a de precursores da democracia. O americano Peter Leeson, professor de economia na Universidade George Mason, mostra que os marinheiros a bordo na época áurea da pirataria no Caribe, de 1670 a 1730, seguiam uma rígida disciplina - e até mesmo a violência contra suas vítimas tinha um método. Grandes nomes, como o capitão Barba Negra, comportavam-se como criminosos cruéis mas também como líderes inovadores e mais progressistas que os governos das potências da época.

O autor usa em sua análise histórica o que chama de "gancho invisível", espécie de versão bandida da mão invisível de Adam Smith. No caso dos piratas, a metáfora mostra a força que os movia a forjar regras justas e igualitárias em decisões comuns e na divisão do butim. Algumas delas anteciparam em mais de um século, por exemplo, a Segunda Reforma, de 1868, que concedeu o direito a voto a cidadãos comuns na Inglaterra. Por trás disso não está nenhuma superioridade moral. E sim uma visão prática de manter a tripulação eficiente, coesa e motivada. O objetivo dessa boa governança era simplesmente aumentar os lucros.

Os capitães eram eleitos por maioria simples e cada pirata tinha direito a um voto. Para evitar excesso de concentração de poder, a tripulação também elegia um imediato, responsável pela logística da viagem e pela distribuição do que era roubado. Qualquer um dos dois podia ser deposto e substituído facilmente caso não mostrasse serviço. Os navios-piratas tinham sua própria "Constituição", regras aceitas antes do embarque, que reduziam o potencial de conflitos a bordo. Elas ditavam a forma de tomar decisões, estabeleciam punições para brigas e roubos a bordo, costumavam proibir jogo e até mesmo bebida, e estabeleciam a divisão do saque, na qual a maior remuneração não ultrapassava duas vezes o piso. Outros pontos importantes eram os prêmios por bravura em combate e a determinação de indenizações em dinheiro aos feridos. A perda de uma perna, por exemplo, podia valer cinco vezes mais que a de um olho. "Os piratas criaram para si instituições privadas de governança. Por necessidade e interesse pessoal, delinquentes violentos e desordeiros lograram manter comunidades surpreendentemente cooperativas, organizadas e pacíficas dentro de seus navios", afirma Leeson.

Mesmo a violência era calculada. Os navios se aproximavam disfarçados e, no momento do ataque, desfraldavam a bandeira da caveira, conhecida como Jolly Roger. O recado era curto e grosso: rendição ou morte. O radicalismo, segundo Leeson, era racional. Os piratas detestavam se expor gratuitamente. Embora quase sempre tivessem larga superioridade numérica e bélica, lutar só podia causar danos ao produto do saque ou a eles mesmos. As vítimas que se rendiam eram bem tratadas. No caso de qualquer resistência, todos eram executados sem piedade. O resultado era eficiente, já que raramente alguém ousava reagir. Os piratas também só torturavam, sempre com requintes de perversidade, em dois casos: capitães julgados cruéis (depois de uma rápida enquete) por suas tripulações, ou quando uma das vítimas parecia esconder um bem valioso.

A democracia pirata ajudou a aumentar sua população no final do século 17. Estima-se que, no auge da atividade, existiam cerca de 2 000 piratas - equivalente a um sexto dos homens da Marinha inglesa. Seus principais portos eram New Providence, nas Bahamas, Port Royal, na Jamaica, e Tortuga, no Haiti. De lá zarpavam navios com tripulações que variavam de 80 a 200 homens. Havia expedições que chegavam a unir 20 navios e mais de 1 000 tripulantes. Novos recrutas em geral eram ex-marinheiros mercantes ou ex-militares ingleses, espanhóis, franceses e holandeses - que disputavam as ilhas na região. A constante alternância entre guerra e paz, sobretudo entre Inglaterra e Espanha, alterava de maneira abrupta o contingente das marinhas. Boa parte dos marinheiros desempregados se rendia à pirataria. Se quisessem uma ocupação honesta, a alternativa era trabalhar nos navios mercantes. Nesse caso, pagava-se mal e os capitães matavam tripulantes a seu bel-prazer. Já na pirataria, ganhava-se até 100 vezes mais e vivia-se na mais completa democracia.

Segundo Leeson, até mesmo com relação à diversidade a comunidade pirata parece avançada. Os navios chegavam a ter até um quarto de tripulantes negros e eram indiferentes a homossexuais. Todos recebiam tratamento de igual para igual - com direito a um quinhão do butim e um voto nas enquetes. Tolerantes? Não. Disciplinados empreendedores movidos pelo gancho invisível.

 
 
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