Revista EXAME -
A maioria dos brasileiros acima de 30 anos provavelmente só ouviu falar na banda americana Jonas Brothers depois que os integrantes do grupo, os irmãos Kevin, Joe e Nick, induziram milhares de adolescentes a uma catarse coletiva em dois shows realizados em São Paulo e no Rio de Janeiro no final de maio. Os garotos levaram 63 000 pessoas às duas apresentações e movimentaram estimados 5 milhões de reais em venda de ingressos, além de outros 2 milhões de reais em patrocínios. O Jonas Brothers é o mais novo fenômeno musical mundial, forjado caprichosamente pela Walt Disney Company para conquistar uma legião de adolescentes ao redor do mundo, e segue o mesmo padrão de outros astros juvenis, como High School Musical e Hannah Montana. A vinda do grupo faz parte de um movimento que tem colocado o Brasil no mapa das turnês dos grandes astros internacionais, como Madonna e Elton John. Trata-se de um negócio de tamanho considerável - e cujo crescimento resiste às intempéries da economia. No ano passado, os brasileiros assistiram a 249 shows de astros e estrelas do pop internacional, quase o dobro do número registrado em 2007 e três vezes mais que em 2004. Nos quatro primeiros meses deste ano (em geral, os menos movimentados no showbiz), aconteceram 58 shows internacionais no Brasil, ante os 48 shows no mesmo período de 2008, um recorde na história do país. "No passado, tínhamos o Rock in Rio e o Hollywood Rock, eventos esparsos. Agora é diferente", diz Rodrigo Marti, sócio da Ingresso Mais, empresa especializada em venda online de entradas para grandes shows.
Tradicionalmente pouco valorizado pelas estrelas de primeira grandeza, o Brasil entrou no circuito dos artistas internacionais pelas mesmas razões que têm levado as grandes multinacionais a adotar o país como prioridade para seus investimentos: o enorme potencial de consumo de seu mercado. Uma pesquisa internacional da consultoria Nielsen que mede o grau de confiança do consumidor, realizada com 25 000 pessoas de 50 países entre março e abril de 2009, revelou que 50% dos brasileiros ouvidos pretendem usar os recursos excedentes após o pagamento de despesas essenciais em entretenimento fora de casa. É o maior índice entre todos os países pesquisados. Na média global, apenas 25% dos consumidores manifestaram o mesmo interesse. Os americanos, abalados pelos efeitos da crise, nem aparecem entre os dez primeiros países em intenção de gastos com entretenimento. "Com a recessão, sobretudo nos Estados Unidos, os artistas passaram a buscar alternativas em novos mercados", diz a advogada Angela Kung, especialista em negócios relacionados ao setor de entretenimento do escritório Pinheiro Neto, de São Paulo. Evidentemente, questões de fundo como a estabilidade econômica também tiveram papel importante nesse processo. Até o meio da década de 90, a operação financeira para emparelhar a venda de ingressos em moeda local com o pagamento dos custos em dólar era bem mais complexa. "Organizar shows com um câmbio tão volátil em épocas de economia instável era uma atividade arriscada", diz Luiz Oscar Niemeyer, ex-produtor do Hollywood Rock e dono da Planmusic, empresa responsável pela vinda ao Brasil do cantor inglês Elton John, em janeiro deste ano. "Hoje, a conta é mais previsível. A estabilidade foi um divisor de águas para o setor."
A recente passagem do Brasil à primeira divisão dos grandes shows globais é resultado ainda de outro fenômeno - a radical mudança no setor de música. Os downloads de música pela internet tornam a venda de CDs uma atividade cada vez menos rentável para gravadoras e artistas. A compensação financeira vem sob a forma de turnês mais ousadas, caras e extensas. "A realização das megaturnês permitiu aos artistas encontrar um modelo de negócios que os torna cada vez menos dependentes das receitas com a venda de músicas gravadas", diz Paulo Rosa, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Discos. Estima-se que, hoje, as turnês representem cerca de 60% do faturamento das bandas. As vendas de CDs e DVDs, os licenciamentos e os direitos autorais respondem pelos outros 40%. Até 2004, as proporções eram inversas. Nesse cenário, os grandes shows passaram a extrapolar o tradicional circuito Rio-São Paulo e chegaram a outras capitais e grandes cidades brasileiras. As turnês realizadas neste ano no Brasil pela banda de rock Iron Maiden e pela cantora canadense Alanis Morissette, trazidas pela Mondo Entretenimento, por exemplo, começaram por Manaus e passaram por mais cinco e dez cidades, respectivamente. A próxima temporada do Cirque du Soleil no Brasil, com o espetáculo Quidam, começará no dia 11 de junho, em Fortaleza. O show visitará dez cidades. Três são nordestinas - além de Fortaleza, estão no roteiro Recife e Salvador.
Quando se fala em cifras, os megashows internacionais não chegam a impressionar. No ano passado, entre ingressos vendidos e patrocínios, foram 120 milhões de reais em faturamento. Mas a atividade tem crescido e atraído empresas profissionalizadas, como a Time For Fun (T4F), a maior do país, com operações no Chile e na Argentina. Nascida em 2007 com a aquisição da divisão do grupo mexicano CIE no Cone Sul pelo empresário Fernando Altério e pelo fundo de investimento Gávea, de Armínio Fraga, a empresa tem uma divisão de vendas de ingressos, a Ticketmaster, e é dona de casas de espetáculos - Credicard Hall, Citibank Hall e Teatro Abril, em São Paulo, e Citibank Hall, no Rio de Janeiro. Graças à sua escala, a T4F tem conseguido promover na região alguns do maiores shows do mundo. A turnê de Madonna na América do Sul incluiu 11 shows no Brasil, na Argentina e no Chile. "Empresas assim demonstram que a organização de megashows se tornou uma atividade mais coesa, com ramificações que envolvem todo o processo de produção de um grande evento", diz Angela Kung, do Pinheiro Neto. Se há poucos anos comprar ingressos para assistir a grandes apresentações era uma aventura (com filas gigantescas em frente a guichês precários e entradas nas mãos de cambistas), hoje a situação começa a mudar e metade das vendas acontece pela internet - mesmo que isso implique alguma dose de paciência dos compradores com sistemas supercongestionados em momentos de pico. "O Brasil tem aprendido bastante com esse tipo de erro e isso tem ajudado a melhorar a infraestrutura de shows no país", diz Rodrigo Marti, da Ingresso Mais. O público brasileiro agradece - e aplaude.