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De trem ou avião?

Com promoções de preços e composições mais rápidas, hoje companhias ferroviárias levam vantagem na preferência dos passageiros europeus
Anwar Hussein/GettyImages
Estação em Londres: a malha para composições de alta velocidade deve mais que triplicar até 2020
 
Por Tiago Maranhão  | 27.11.2008

Revista EXAME - 

No final de semana prolongado pelo feriado do Dia do Armistício, na segunda semana de novembro, mais de 1 milhão de pessoas se aglomeravam nas estações de trem de Paris. Da Gare du Lyon, uma das seis principais da capital francesa, partia um trem de 1 000 passageiros a cada intervalo de 5 minutos, a maioria deles no horário previsto. Enquanto isso, no aeroporto Charles de Gaulle, afastado 45 minutos do centro de Paris, os viajantes de dois em cada cinco vôos precisaram enfrentar mais de meia hora de atraso. O episódio é um exemplo de como, depois de muitos anos, as companhias ferroviárias da Europa voltaram a apresentar bons argumentos na disputa pela preferência dos clientes. Essa luta parecia perdida no final dos anos 80, quando o continente virou um dos terrenos mais férteis do mundo para a expansão dos negócios das companhias aéreas de baixo custo. Hoje, operam por lá aproximadamente 60 empresas desse tipo. Com um modelo em que a economia nos serviços oferecidos aos viajantes se reverte em descontos nos preços dos bilhetes, as companhias aéreas de baixo custo conquistaram rapidamente uma grande participação de mercado. As empresas de transporte ferroviário sentiram o golpe. Mas agora começam a dar o troco.

Para realizar essa virada, as empresas ferroviárias utilizaram a mesma arma do concorrente - o preço. A Renfe, principal operadora de trens na Espanha, por exemplo, passou a oferecer descontos de 50% no preço das passagens para viagens noturnas. Ao mesmo tempo, as companhias aéreas sofriam com a alta no preço dos combustíveis, o que levou a um reajuste de 20% nos preços. Os investimentos na expansão e na melhoria das operações dos trens-bala também ajudaram a impulsionar os negócios. Antes da modernização, a distância de 660 quilômetros entre Barcelona e Madri, na Espanha, era coberta em mais de 5 horas. Desde que uma nova linha de alta velocidade foi inaugurada, em fevereiro deste ano, o tempo do percurso caiu para 2 horas e meia. De avião, a viagem dura 2 horas, mas a média das passagens mais baratas é 230 dólares, ante os 130 dólares do tíquete cobrado pelas empresas ferroviárias. Graças a esse conjunto de fatores, os trens voltaram a ser o meio de transporte predominante em viagens ao longo de trechos com até 1 000 quilômetros pela Europa, contando com a preferência de 56% dos passageiros.

Com a queda da cotação do petróleo em razão da crise financeira global, as companhias aéreas conseguiram reduzir os preços dos bilhetes nos últimos meses, reequilibrando a disputa. As empresas ferroviárias, porém, querem manter a boa fase apostando no lançamento de outros roteiros e serviços No início deste ano foi lançado na França o iDnight, espécie de trem-discoteca para viagens noturnas, com DJs e salão de jogos. Na mesma composição, para quem prefere descansar ou dormir, também há um vagão com isolamento acústico. Além das atrações para os turistas e o público jovem, há pequenas regalias para atrair quem viaja a negócios, como tomadas para laptop e mesas de trabalho. A partir de 2009, muitas linhas vão oferecer conexão sem fio para a internet. "Nos trens não é preciso ficar sentado, preso ao cinto de segurança, com todos os aparelhos eletrônicos desligados. É uma experiência, sem sombra de dúvida, mais agradável do que a viagem de avião", disse a EXAME Christian Rossi, presidente da Lyria, operadora do TGV francês nas linhas internacionais para a Suíça. 

A corrida por clientes 

Os planos de expansão das companhias ferroviárias permanecem ousados na Europa, apesar da atual crise financeira. "As novas linhas ferroviárias são financiadas por governos e a primeira medida contra a crise é manter os investimentos em infra-estrutura, que têm um grande impacto na economia", afirma Michael Clausecker, diretor-geral da Unife, órgão regulador das ferrovias na União Européia. "A Alemanha, apenas para ficar num exemplo, anunciou aumento de 10% no investimento em ferrovias como parte do pacote para ajudar a economia." A malha dos países europeus hoje soma 4 700 quilômetros de trilhos para trens de alta velocidade. Até 2020, os planos são mais que triplicar a rede, totalizando 15 000 quilômetros de extensão. O crescimento mais expressivo deve acontecer na Espanha, que promete ter 10 000 quilômetros de ferrovias de alta velocidade nos próximos 15 anos. Numa entrevista recente, o presidente da companhia aérea espanhola Iberia, Fernando Conte, afirmou que a competição dos trens é "tremenda" e que, em razão disso, a Iberia diminuirá em 13% a capacidade de seus vôos domésticos a partir de 2009. Não está descartada a hipótese de que, num futuro próximo, outras empresas façam o mesmo.

 
 
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