Revista EXAME -
Quando deixou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, em março de 2007, o engenheiro químico Luiz Fernando Furlan pretendia reduzir o ritmo de sua bem-sucedida trajetória profissional e dedicar mais tempo à família, às viagens e aos esportes. Os quatro anos e três meses à frente do ministério deveriam ter sido a coroação de uma carreira de 26 anos na Sadia, empresa fundada em 1944 por seu avô materno, Attilio Fontana. Lá, o catarinense Furlan ocupara a diretoria de relações com investidores, a vice-presidência executiva e, por dez anos, a presidência do conselho de administração, de onde saiu no fim de 2002 para fazer parte da primeira equipe de ministros do presidente Lula. Longe do governo, bem articulado e bem relacionado, o ex-ministro foi convidado por diversas empresas para integrar seus conselhos de administração, no Brasil e no exterior. Aceitou as propostas de mais de uma dezena delas, como as brasileiras Redecard e Amil, a japonesa Panasonic, a espanhola Telefónica e a seguradora americana Ace. Também assumiu a presidência da Fundação Amazonas Sustentável, ONG que tem o objetivo de preservar florestas e melhorar a qualidade de vida das famílias que vivem na região Amazônica. A atividade nos conselhos dessas instituições parecia plenamente conciliável com o estilo de vida mais tranqüilo que ele pretendia ter - o que incluía passeios com a mulher, Ana Maria, malhação comandada por seu personal trainer e partidas de tênis, seu esporte favorito. Eis que no dia 25 de setembro o projeto de desaceleração de Furlan foi abruptamente interrompido.
O resultado da aposta
O ex-ministro estava no Japão participando de uma reunião da Panasonic quando recebeu a informação dos prejuízos que a Sadia teve com operações financeiras extremamente arriscadas. Apostas da empresa com operações de derivativos resultaram em perdas de mais de 760 milhões de reais. Pelo que se sabe, os executivos da área financeira da Sadia vinham apostando há meses na força do real contra o dólar para buscar ganhos extras à empresa, extrapolando os limites de exposição a riscos cambiais determinados pelo conselho de administração. Naquele dia, o mercado foi informado de que a Sadia não vinha ganhando dinheiro apenas com a venda de frangos, carnes, óleos ou margarinas. Muito além de operações normais de proteção cambial, a Sadia estava apostando no mercado financeiro. O tipo de operação que teria sido assumida pela Sadia, de acordo com executivos de bancos que conhecem o processo, é chamado de target forward, um complexo mecanismo de financiamento atrelado à variação do câmbio que funciona da seguinte maneira: o banco empresta dinheiro barato à empresa. Caso a cotação do dólar não ultrapassasse um valor predeterminado, ganharia a companhia. Caso o dólar se valorizasse mais, ganharia o banco. O risco, porém, era enorme. Em caso de valorização do dólar, as perdas da empresa seriam muito maiores que seus eventuais ganhos. Algumas empresas, como a Sadia, viam nesse jogo um ganho financeiro fácil em tempos de real valorizado e estável. Mas o vento virou, e Sadia, Aracruz e Votorantim já anunciaram ao mercado enormes prejuízos em decorrência da variação do dólar.
Assumidas as perdas, a Sadia conseguiu empréstimos para refazer seu caixa e passou a lidar com a desconfiança do mercado. Suas ações se desvalorizaram mais de 50% desde o dia do anúncio do prejuízo. Além do tombo cambial, o que espantou os analistas foi a constatação de que a Sadia não obedece a princípios rudimentares de boa governança corporativa. A área financeira da empresa não estava subordinada ao presidente executivo, mas sim ao conselho de administração. "O recomendado é que todos os diretores respondam ao principal executivo da empresa para reduzir riscos", diz Heloísa Bedicks, diretora executiva do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa. Ou seja, o presidente da Sadia, Gilberto Tomazoni, não sabia que a companhia operava dessa forma no mercado cambial. Além disso, a falta de ação dos comitês financeiro e de auditoria incomodou os especialistas.
Na tentativa de dar uma resposta ao mercado e a seus acionistas, a empresa demitiu o diretor financeiro, Adriano Lima Ferreira, e o gerente da área, Álvaro Ballejo Fiúza de Castro, acusando ambos de terem assumido riscos acima do permitido sem consultar ou comunicar o conselho. Mas não foi suficiente. "É difícil acreditar que operações desse tamanho tenham sido feitas sem o conhecimento do conselho ou do presidente da empresa", diz um analista do mercado que preferiu não ser identificado. Os precedentes complicam um pouco a situação da Sadia. Há menos de dois anos, a empresa demitiu seu então diretor financeiro, Luiz Murat, acusado de usar informações privilegiadas para comprar ações da companhia. Depois das demissões dos executivos financeiros, em setembro, veio a renúncia do então presidente do conselho, Walter Fontana Filho, primo de Furlan, e de seu vice, Eduardo Fontana DÁvila, também da família controladora. Amigos comentam que Fontana saiu frustrado. Depois de mais de três décadas na companhia, ele planejava se aposentar no ano que vem. Sem sustentação, teve de antecipar sua saída.
Furlan chega com a missão de colocar ordem na casa. Em seu primeiro dia de trabalho, ele disse a EXAME que a estrutura administrativa volta a ser como era até 2002. "Todos os diretores responderão ao presidente, Gilberto Tomazoni." Também afirmou que acabou a era de apostas no mercado financeiro. "A empresa vai voltar a trabalhar no que sabe fazer bem, que é produzir e exportar carnes, aves e os produtos de nossa linha." A companhia já começa a se preparar para buscar na Justiça possíveis reparações e para responder a possíveis processos de acionistas minoritários. O fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil (Previ), que detém 8,5% do capital da Sadia, avisou que pode processar os administradores da empresa por gestão temerária. Furlan, por sua vez, ameaça levar os bancos que realizaram as operações com derivativos e os ex-executivos da área financeira da empresa aos tribunais. De acordo com um advogado próximo ao imbróglio, dificilmente a Sadia será ressarcida. "Mas o objetivo real deles é ganhar tempo e se recompor", diz o advogado. A Sadia não comenta. Furlan afirma que o relatório prévio de auditoria realizado pela KPMG mostra que Adriano Ferreira e Álvaro Ballejo agiram de forma independente. Além disso, segundo o relatório, o gerente de risco Bruno Tsuji teria entregado três relatórios alertando Ferreira para os riscos da exposição cambial. Ferreira, um executivo de 38 anos que acaba de ter filhas gêmeas, não quis comentar o caso. Mas a amigos tem afirmado que pode entrar com uma ação contra a Sadia. Ballejo disse a EXAME que informou Ferreira de todas as operações.
Com experiência de dez anos à frente do conselho de administração da Sadia, reputação intocável mesmo depois de passar mais de quatro anos no primeiro escalão de um governo atingido por diversas acusações de corrupção, e respeitado por empresários, analistas e banqueiros, Furlan parece o melhor nome para tentar tirar a Sadia do buraco em que se meteu. "Ele é um dos poucos, se não o único, com capacidade para colocar ordem na casa ao mesmo tempo que recupera a imagem da empresa", diz um executivo do setor. Furlan deverá ter pouca interferência na operação da Sadia, que permanece nas mãos de Tomazoni. O mais curioso é que, no mundo real das salsichas e dos frangos, a Sadia vive um momento invejável. O lucro líquido do primeiro semestre, por exemplo, subiu 56% e chegou a 335 milhões de reais, ante 153 milhões de reais da rival Perdigão. O desafio, agora, é manter o desempenho em meio a uma crise de confiança em relação à empresa e, principalmente, em um cenário de caos na economia mundial. Só depois de superados os traumas e de deixar a empresa em ordem, Furlan poderá retomar seu projeto de se tornar mais um bom nome do tênis de Santa Catarina no cenário nacional. Categoria sênior, claro.