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Sai o IPO, entra o PRA

Após quatro anos de uma avalanche de aberturas de capital na Bovespa, várias empresas dão meia volta. Seus Programas de Recompra de Ações são a tentativa de reconquistar a confiança dos investidores
Claudio Rossi
Sede da Bovespa, em São Paulo: a própria bolsa lançou seu Programa de Recompra de Ações
 
Por Guilherme Fogaça  | 16.10.2008

Revista EXAME - 

As três letras que melhor definiram no Brasil os anos dourados da grande liquidez global foram IPO, a sigla em inglês usada para designar abertura de capital na bolsa de valores. Nos tempos de dinheiro farto e aversão quase zero ao risco, mais de uma centena de empresas estrearam na Bovespa e, juntas, captaram 84 bilhões de reais nas initial public offerings, ou ofertas públicas iniciais. A partir do momento em que a crise financeira implodiu nos Estados Unidos e contagiou a confiança dos investidores, os IPOs perderam o brilho na bolsa brasileira - caíram de 64 em 2007 para apenas quatro neste ano. Como numa gangorra, à medida que os IPOs foram minguando, aumentou a força de outra sigla, o PRA - ou Programa de Recompra de Ações. Preocupadas com o tombo de seus papéis e com o medo generalizado nas bolsas, cada vez mais empresas têm comunicado a intenção de investir em suas próprias ações, o que tem sido visto como uma tentativa de reconquistar a confiança dos aplicadores. De janeiro a meados de outubro, companhias brasileiras anunciaram 75 PRAs, 60% mais do que em todo o ano passado.

A própria BM&F Bovespa é um dos principais exemplos dessa nova tendência. Após um dos mais ruidosos IPOs da história da bolsa brasileira, ocorrido no final de 2007, agora a bolsa anuncia a intenção de recomprar ações em posse de investidores. No final de setembro, a companhia comunicou que vai desembolsar cerca de 600 milhões de reais ao longo dos próximos 12 meses para recomprar 3,5% de seus papéis em circulação. "É uma maneira de transmitir a mensagem de que o atual preço da ação não reflete a realidade da companhia", diz Carlos Kawall, diretor financeiro e de relações com investidores da BM&F Bovespa e ex-secretário do Tesouro Nacional. O efeito já começa a aparecer. No mês que antecedeu ao anúncio da recompra, as ações caíram 27%, quase três vezes mais do que o Índice Bovespa. Nos 20 dias que se seguiram ao comunicado, os papéis registraram alta de 2%, ante uma queda de 18% do Índice Bovespa. "É preciso trazer a razão de volta. Hoje, os investidores não estão se aconselhando com um economista, mas com um psicanalista", diz Rubens Ometto, presidente da Cosan, companhia do setor de energia que também tem um programa de recompra. "Passada essa fase mais crítica, os investidores vão voltar a olhar para os fundamentos."

O que pretendem as empresas ao recomprar suas ações? Além de transmitir confiança aos investidores - afinal, não colocariam dinheiro do caixa em ações se não acreditassem no futuro do negócio -, elas buscam valorizar o capital investido. Em 2006, a Vale comprou 5% dos papéis preferenciais que estavam em circulação no mercado por 900 milhões de reais. No ano seguinte, a empresa usou essas ações como garantia para a emissão de 1,9 bilhão de reais em dívidas. "A recompra também é uma oportunidade de a empresa fazer um bom negócio quando sua perspectiva é promissora e as ações estão com um preço baixo", diz Alexandre Schwartsman, economista-chefe do Santander e ex-diretor do Banco Central. Nos Estados Unidos, é comum as companhias comprarem suas ações na baixa e as revenderem quando o mercado volta a subir. No Brasil, porém, várias empresas optam pelo cancelamento dos papéis - eles simplesmente deixam de existir. "O principal receio de vender as ações da recompra é passar uma mensagem errada de que a empresa quer se desfazer dos papéis porque eles atingiram seu preço máximo", diz Geraldo Santa Catharina, diretor financeiro da fabricante de implementos rodoviários Randon, que fez PRAs em 2006 e 2007 mas preferiu não revender as ações no mercado. Para os acionistas de empresas lucrativas, o cancelamento é bem-vindo. Cada investidor passa a ter uma parcela maior da companhia sem ter de desembolsar um único real por isso. "A principal conseqüência é que o investidor passa a receber um pedaço maior do lucro via dividendos", diz William Eid Junior, professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas.

A ordem é recomprar


Um dos estudos mais extensos sobre os efeitos dos PRAs, realizado por David Ikenberry, professor de finanças da Universidade de Illinois, mostra que eles costumam ajudar a valorizar as empresas. Após analisar 7 725 programas de companhias americanas entre 1980 e 2000, Ikenberry concluiu que os investidores que permaneceram com suas ações por quatro anos depois dos anúncios dos programas de recompra tiveram um retorno 15 pontos percentuais superior aos acionistas de empresas que não anunciaram recompra. Em tese, ao optar pelo plano de recompra, a empresa está segura sobre sua situação financeira e confiante no desempenho futuro. Os PRAs, portanto, seriam uma espécie de atestado de qualidade da gestão. No Brasil, outros estudos também indicam uma correlação entre recompras de ações e retornos acima da média. "O próprio mercado passa a enxergar essas companhias de um jeito diferente", diz a pesquisadora Silvania Nossa, que analisou as recompras de ações no Brasil entre 2000 e 2006. "Independentemente da crise financeira, os programas de recompra continuarão sendo um dos indicadores de confiança para os aplicadores", diz Marcelo Trindade, sócio da Trindade Advogados e ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários.

As metas da recompra


O que é concebido para ser um passo no sentido de restaurar a confiança, porém, pode ter o efeito contrário caso a empresa desista no meio do caminho. Ao anunciar PRAs e não executar os planos como o comunicado, a perda de credibilidade é vista como inevitável. A CSN, por exemplo, já anunciou cinco vezes em 2008 a abertura de seu programa de recompras, mas o volume de papéis em circulação no mercado permaneceu o mesmo até agora. (Procurada por EXAME, a CSN não se manifestou sobre o assunto.) "Se a empresa não dá uma boa explicação para a desistência, o mercado fica com uma impressão ruim", diz Alexandre Chaia, professor de finanças do Ibmec São Paulo. Em março, a AmBev comunicou ao mercado seu Programa de Recompra de Ações. Mas em abril, após a InBev, sua controladora, ter iniciado a negociação para a compra da Anheuser-Busch, a empresa preferiu congelá-lo. "Decidimos adiá-lo para não criar a percepção de que as recompras poderiam ter sido motivadas por informações que só a empresa tinha", diz Michael Findlay, gerente de relações com investidores da AmBev.

Investimentos nas ações da própria empresa


Apesar de enxugarem o volume de ações disponíveis no mercado, os PRAs não indicam necessariamente o início de uma onda de fechamento de capital das empresas listadas na bolsa. "Não é um retrocesso do mercado. Pelo contrário, as empresas que realizam a recompra sinalizam que, além de possuírem liquidez, querem permanecer com credibilidade entre os investidores", diz Paulo Diniz, diretor financeiro da Cosan. Neste momento de turbulência, a expansão dos PRAs e a queda dos IPOs são uma realidade global. Entre julho e setembro, o número de aberturas de capital em todo o mundo foi de 159, o nível mais baixo num trimestre desde 2003. Na mão contrária, de setembro de 2007 para cá foram anunciados 841 programas de recompra - quase o total de PRAs realizados em 2006 e 2007. Nas últimas semanas, a Microsoft surpreendeu ao anunciar o maior PRA de todos os tempos. No final de setembro, a empresa presidida por Steve Ballmer comunicou que investirá 40 bilhões de dólares na recompra das próprias ações. No mesmo dia, a HP e a Nike informaram que desembolsariam, respectivamente, 8 bilhões e 5 bilhões de dólares para investir em seus papéis. Muita coisa mudou nos últimos meses, mas o que parece continuar igual é a motivação das empresas para não perder oportunidades - e não importa qual é a sigla que as batize.

 
 
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