Revista EXAME -
Na quinta-feira 9 de outubro, Raul Randon, controlador da fabricante gaúcha de carrocerias e autopeças Randon, viajou com seu principal executivo, Astor Schmitt, e o filho David, vice-presidente da empresa. O destino era a Amazônia. E o objetivo, pescar. Na pior semana da história de Wall Street, quando a crise financeira global atingia seu ápice e a histeria tomava conta dos mercados, os três decidiram manter a viagem marcada com meses de antecedência. "Alguns podem me achar irresponsável, mas eu vejo as coisas de outro jeito", diz Schmitt, presidente da Randon. "Tenho muita tranqüilidade em relação à empresa e acho importante raciocinar de cabeça fria no olho deste furacão." Segundo Schmitt, apesar da confusão reinante no mundo, todos os planos da Randon para 2009 estão mantidos - inclusive os investimentos, que somam 250 milhões de reais e se distribuem entre as operações no Brasil, na China e nos Estados Unidos.
Bem distinta é a situação da Honda, fabricante de motocicletas instalada na Zona Franca de Manaus. Por lá, as férias também estão na ordem do dia, mas, nesse caso, não se trata do lazer da alta cúpula. Quase 5 000 funcionários devem permanecer em casa durante 20 dias neste mês, uma medida extrema para adequar a produção à nova realidade do mercado. Não se sabe se o prazo das férias coletivas será ampliado. O motivo da decisão é a virtual paralisia do crédito para as vendas de motocicletas no mercado interno, decorrência direta do estrangulamento dos fluxos de dinheiro na economia mundial. Trata-se de uma realidade que aflige várias empresas que dependem de vendas a prazo, como as de computadores, automóveis e outros bens duráveis.
Neste momento de incerteza, em que todos buscam entender exatamente o que se passa no mundo e como a economia do Brasil será afetada, Randon e Honda servem como pólos extremos no conjunto de reações à crise em discussão em todas as companhias do país. Para milhares de executivos e empresários brasileiros, é hora de planejar o próximo ano. E o momento de pensar o futuro não podia ser mais obscuro. Mesmo acostumados aos solavancos que marcam a história da economia brasileira, homens e mulheres de negócios - e não importa de que setor ou porte eles sejam - atravessaram atônitos as últimas semanas. Muitos enfrentaram situações de aperto, como não conseguir trocar uma duplicata no banco, ficar sem referência para o preço de seu produto ou ver entregas e pedidos suspensos. Foi também neste período que a Bolsa de Valores de São Paulo alternou dias de extremo pessimismo e pura euforia, e que o dólar oscilou ao sabor dos ventos. O pacote europeu de socorro aos bancos, anunciado no dia 12, trouxe algum alento ao mercado. "Finalmente, foi apresentado um plano melhor, mais forte, mais bem concebido. Pode ser a hora da virada da crise", afirmou o economista americano Paul Krugman, recém-laureado com o prêmio Nobel, em entrevista à rede britânica de comunicações BBC. Mas nem o mais otimista dos analistas será capaz de decretar o fim dos tempos difíceis. Um recente relatório do FMI aponta que a economia mundial deverá crescer cerca de 3% em 2009 - o que configuraria uma recessão global. Países emergentes, como o Brasil, devem sofrer muito menos, segundo o próprio FMI. Mas já parece ter ficado claro que não passarão incólumes. É nesse ambiente de volatilidade, portanto, que decisões importantes - sobre investimentos, mão-de-obra, política de preços, estratégias de mercado - terão de ser tomadas.
O radar das empresas
Para tentar entender como a atual crise está afetando as expectativas em relação ao país, EXAME foi ouvir os maiores especialistas em economia brasileira - as próprias empresas. Na última quinzena, uma pesquisa com 268 companhias de pequeno, médio e grande porte buscou analisar os desdobramentos da crise no mundo dos negócios. Trata-se do primeiro mergulho no ambiente corporativo brasileiro após a quebra do banco Lehman Brothers e o subseqüente caos no mundo das finanças. As respostas deixam pouca margem a dúvidas - os efeitos da crise já se fazem sentir e devem se intensificar ao longo do próximo ano. Só 11% das empresas dizem ter passado intactas pelas últimas semanas. Para 60% delas, o cenário para 2009 piorou - as projeções de vendas estão sendo revistas para baixo, a rentabilidade deve cair e a maioria planeja pisar no freio e cortar custos. Não se trata - ainda - de um cenário de caos. Segundo as empresas, o PIB deverá crescer entre 3% e 4%, e espera-se que a maior parte dos investimentos seja mantida. Ainda assim, é nítida a percepção de baque numa economia que mostrou grande vigor durante 2008. Um vigor que pode ser visto no crescente número de empregos formais, nos balanços das empresas até aqui e num mercado consumidor quase febril, como se vê na foto que ilustra a abertura desta reportagem.
Entre a euforia e a depressão que se alternaram nos últimos meses, dois problemas persistem para os gestores das empresas, colhidos pela crise bem na época de preparar o planejamento do ano que vem. O primeiro deles é lidar com a instabilidade que arrebatou os mercados, a começar pelo de câmbio. "A volatilidade deixa as pessoas e as empresas desnorteadas", diz o economista Roberto Giannetti da Fonseca, presidente da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior e da trading Sílex. "Como exportador, eu queria que houvesse uma desvalorização do real, mas não nessa situação de imprevisibilidade." Após ter atingido um pico de 2,4 reais, o dólar começou a ceder graças aos leilões de venda de moeda feitos pelo Banco Central e às boas notícias vindas de fora. Em 14 de outubro, dia do fechamento desta edição, terminou cotado a 2,1 reais. Qual será seu novo patamar - e quando ele voltará a ficar mais constante - é uma questão que ainda ninguém é capaz de responder.
Os dois lados da crise
A outra incerteza diz respeito ao tamanho do ajuste que, mesmo com o incêndio financeiro começando a ser controlado, se dará nas economias mais desenvolvidas e quais serão suas conseqüências para os países emergentes. Esse ajuste significa um ambiente de dinheiro mais escasso e mais caro. O aperto do crédito é a principal preocupação apontada na pesquisa EXAME. Quase dois terços das empresas ouvidas relatam que o financiamento de seu capital de giro ficou mais difícil e mais oneroso. Entre as que trabalham concedendo crédito a clientes, um terço também tomou medidas restritivas, como aumentar a taxa de juro. Uma das áreas da economia mais afetadas pelo estrangulamento é o agronegócio, em que tanto bancos quanto fornecedores de insumos e empresas comercializadoras suspenderam o financiamento aos produtores, que são muito dependentes do dinheiro de terceiros. No dia 14 de outubro, os exportadores de etanol completavam quase um mês de paradeira. Na mesma época do ano passado, as usinas estavam vendendo antecipadamente a produção de álcool da safra seguinte. "Há dois meses havia recursos disponíveis para financiamentos de três anos de produção. Agora, não conseguimos financiar nem a safra do ano que vem", diz Nelson Ostanello, diretor da trading francesa Bauche Energy, responsável por cerca de um quarto das exportações de etanol do Brasil. Quando ainda existe, o crédito para as operações de comércio exterior está seletivo e bem mais caro. "Antes da crise, uma exportadora de primeira linha pagava juros internacionais mais um prêmio de 0,2% ao ano. Hoje, esse prêmio está em 2%", diz Paulo Maia, vicepresidente do banco HSBC.
O encarecimento do crédito reflete o estresse das últimas semanas que já se sente em vários setores da economia, tanto de negócios entre empresas quanto nas vendas ao consumidor. A avenida Luiz Ignácio de Anhaia Melo, na zona sul de São Paulo, é um tradicional endereço de revendas de automóveis seminovos, em sua maioria populares. Nos fins de semana, caixas de som nas calçadas tocam pagode no último volume, embalando malabaristas e promotoras de venda em trajes sumários para atrair os interessados. Desde meados de setembro, porém, os clientes não se animam. "Sem crédito não tem negócio", resume o dono de uma revendedora. "Os bancos reduziram prazos, aumentaram juros e alguns nem aceitam mais propostas", diz ele, que não se identifica para não melindrar os bancos. A ineficácia do pagode é apenas um dos muitos sinais de como a crise financeira internacional contaminou a economia real brasileira. Apesar do recente otimismo nas bolsas de valores devido aos pacotes de ajuda dos governos, as perspectivas passaram a ser mais modestas do que antes da crise. "A concessão de empréstimos deve crescer bem menos em 2009 do que vinha crescendo nos últimos anos", diz Roberto Setubal, presidente do banco Itaú. Isso porque, de acordo com ele, o alívio ainda vai demorar para chegar - o processo de recuperação do sistema financeiro internacional deve levar dois ou três anos. Os bancos brasileiros são menos alavancados e não correm riscos, afirma Setubal, mas vão se ressentir da retração da oferta de dinheiro no mercado global.
Efeito moderado
SÓ QUE O CRÉDITO VINHA SENDO O MOTOR DO consumo - e o consumo vinha puxando a economia. Daqui para a frente, o crédito deve andar bem mais devagar. Uma das melhores medidas de seu ritmo é o percentual de empréstimos em relação ao PIB. A projeção para o fim de 2008 é que esse indicador alcance 37%, com avanço de 5 pontos percentuais em relação a 2007. Para 2009, as previsões revistas indicam um crescimento bem mais modesto, para 39% do PIB. O perfil dos clientes também vai mudar. "Uma fatia do que hoje é emprestado às pessoas físicas deverá passar a ser tomada pelas grandes corporações, que perderam acesso ao mercado de capitais", afirma Maia, do banco HSBC. "Em vez de emitir ações ou debêntures, elas vão recorrer a empréstimos bancários." Isso representa uma mudança radical. Nos últimos anos, o crescimento do crédito foi sustentado pelo avanço dos empréstimos à pessoa física, especialmente nos financiamentos para a compra de automóveis, que hoje correspondem a cerca de 40% das carteiras de crédito à pessoa física dos bancos. Não por acaso, a indústria automobilística brasileira bateu sucessivos recordes de produção. Nos próximos meses, esse setor deverá avançar em marcha mais reduzida. "Os empréstimos à pessoa física dependem diretamente do crescimento do emprego e da renda, e as projeções são de uma desaceleração do ritmo da economia", diz Setubal. Mais à frente, quando a situação se acalmar, algumas características específicas do país podem ajudar na retomada do crédito. Pesa positivamente o crédito às empresas, na forma de capital de giro, descontos de duplicatas e outros financiamentos, ter baixa participação do capital estrangeiro - ao contrário do que ocorreu no mercado de capitais, no qual foi uma grande fonte de irrigação, revertida em massa nos últimos meses. Além disso, segundo levantamento feito pela Itaú Securities, as grandes empresas contam com níveis de geração de caixa confortáveis em relação a suas dívidas.
Enquanto o crédito não se recupera, para tentar reter o nível das vendas, varejistas recorrem a diversas soluções. Uma delas é batalhar para não perder a confiança do consumidor. Na Dicico, rede paulista com 40 lojas de materiais de construção, a primeira reação foi evitar movimentos que pudessem atemorizar os clientes. A decisão veio logo após a quebra do banco americano Lehman Brothers. "No sábado 20 de setembro, quando começou a ficar claro que o inferno existia, reuni meus colegas de diretoria e decidimos ficar pelo menos até o final de outubro sem mexer nos preços e nas condições de pagamento", diz Dimitrios Markakis, dono da Dicico. A empresa introduziu um software em seu sistema de gestão para funcionar como uma espécie de gatilho: os preços só sobem se o custo do item em questão aumentar mais que 5%. Apesar disso, nos últimos dois meses, elevações como a do cimento e dos vergalhões de aço, que passaram de 10%, não foram repassadas. Na maioria dos demais fornecedores, não foram registrados pedidos expressivos de aumento. "Não quero repassar insegurança para o meu cliente", afirma Markakis. "Se o mercado não se acalmar em 30 dias, aí sim vamos ver o que fazer." De acordo com ele, os consumidores já vinham mudando lentamente o comportamento, mostrando-se mais cautelosos. O prazo médio para execução de reformas nos imóveis - fonte de 71% das vendas da rede - passou de 60 para 90 dias desde o início do ano.
Uma questão-chave agora é saber o que esperar da economia como um todo. É possível esperar que o crescimento econômico, que vem registrando média anual de 5% desde meados de 2007, será preservado? No que diz respeito a 2008, a expansão do produto interno bruto já está garantida para esse nível. As dúvidas estão lançadas especialmente para o ano que vem - e todas as apostas são de desaceleração. Com o agravamento da crise nos últimos meses, as previsões dos economistas foram revistas para baixo. Passaram da faixa de 4% a 4,5% para 2,5% a 3,5%. Parte desse desempenho dependerá do que vai ocorrer na economia da China, grande consumidora de commodities do Brasil. Em resposta à pesquisa de EXAME, seis de cada dez empresas indicaram que estão refazendo suas projeções de vendas para 2009. "O crescimento deste ano e do primeiro semestre de 2009 já está garantido", diz Marcelo Mosci, presidente da GE na América Latina. "Para além disso, minha ordem aqui dentro é estar mais atento, mas manter a marcha em direção aos nossos objetivos." Desde 2004, a GE vem mantendo crescimento médio anual superior a 20% na região. Por enquanto, o propósito de chegar a 2010 com faturamento regional de 12 bilhões de dólares não foi alterado. Na GE, pela primeira vez, o faturamento no Brasil está se igualando ao do México neste ano. A previsão é que as receitas em áreas como equipamentos elétricos, locomotivas, aparelhos médicos e serviços somem em torno de 3 bilhões de dólares no país. Na América Latina como um todo - que para a GE representa mais que a China e a Índia juntas -, a meta do ano é faturar 8 bilhões de dólares. De acordo com Mosci, nas áreas em que a empresa atua, projetos que já estavam em andamento não vêm sofrendo nenhuma mudança de cronograma. A dúvida se dá em relação aos chamados green field, ou seja, os planos que têm de começar do zero. "Nesse caso, hoje vejo clientes que contavam com dinheiro estrangeiro ou de bancos refazendo sua equação financeira", afirma Mosci. "Mas ainda existe muito apetite por investimentos de longo prazo em infra-estrutura, que é o nosso principal mercado. Por isso, nosso cenário continua a ser o de um otimismo cauteloso."
Outras empresas que operam em setores de maturação mais longa, como as indústrias de base e de infraestrutura, acreditam numa perspectiva ainda positiva apesar de tudo. A Braskem, maior petroquímica do país, consumou em meio ao turbilhão da segunda semana de outubro uma captação internacional iniciada meses antes com um grupo de bancos. "Tínhamos como alvo levantar 500 milhões de dólares e recebemos 725 milhões", diz Bernardo Gradim, presidente da Braskem. "Pode ter sido uma gota no oceano da iliquidez, mas não deixa de ser uma demonstração de confiança no nosso negócio e no próprio país." Os votos de confiança às vezes vêm mais facilmente de fora do que do plano interno. O jornal inglês Financial Times chegou a publicar numa de suas reportagens recentes que o Brasil sairia ileso da crise. Em visita ao país para participar da convenção latino-americana de sua empresa, realizada em Porto de Galinhas, no litoral pernambucano, o americano John Faraci, principal executivo da International Paper, maior fabricante de papel do mundo, ficou surpreso com o comparecimento e o ânimo demonstrado por seus 150 maiores clientes lá reunidos. "O Brasil continua a ser uma de nossas prioridades por ser um dos mercados com maior chance de crescimento", disse ele. A International Paper mantém sem modificação o cronograma de construção de uma fábrica nova em Mato Grosso do Sul, com investimento de 300 milhões de dólares. De acordo com um dos executivos de sua equipe no Brasil, havia uma grande ansiedade para ver se de fato Faraci compareceria ao encontro. Sua eventual ausência seria lida como um mau sinal, de que a crise mundial ou os problemas na matriz seriam mais graves do que o imaginado.
Isso mostra que a simbologia do comportamento da alta direção das empresas nestas horas é mais importante do que nas condições normais da economia. Vitor Mallmann, presidente da petroquímica Quattor, deu ordem para que o caixa fosse gerido com muita cautela. Despesas, só as essenciais. Para dar exemplo, determinou que a troca dos sete carros da diretoria, que ocorreria agora e consumiria 1 milhão de reais entre valor do veículo, blindagem e impostos, fosse suspensa por tempo indeterminado. "Não é momento para fazer esse tipo de despesa", afirma Mallmann. Em muitas empresas, além da lupa sobre os custos, foi tomada a medida de segurar os planos de investimento e esperar mais algumas semanas até refazer o planejamento orçamentário do ano que vem. De um modo geral, a mensagem emitida pelo mundo corporativo brasileiro é de cautela. A hora é de fazer ajustes, repensar planos e se preparar para um período bem mais conturbado do que todos imaginavam. E de se fortalecer para aproveitar as oportunidades que sempre surgem em momentos de crise.