Revista EXAME -
Há pouco mais de um ano, o economista carioca Winston Fritsch deu uma ousada guinada em sua carreira. Então sócio da gestora de recursos Rio Bravo, Fritsch foi convidado pelo banco de investimento americano Lehman Brothers para comandar suas operações no Brasil. Os executivos do banco olhavam para o pujante mercado brasileiro com cobiça e prometeram a Fritsch os recursos para fazer do Lehman uma força no país. No pacote oferecido pelos americanos, metade de seu salário seria paga em ações do Lehman Brothers, então cotadas a cerca de 60 dólares. Um executivo em sua posição ganha, em média, algo como 2 milhões de dólares por ano. E ele teria à disposição os recursos para a contratação de um time de 100 pessoas. Fritsch aceitou a oferta e começou a colocar o plano em prática — até que setembro chegou. Na segunda semana do mês, ele e os demais 40 funcionários do Lehman no Brasil assistiram, impotentes, ao derretimento do banco na bolsa de Nova York. O mercado financeiro americano apostava contra a sobrevivência do Lehman, e Fritsch passou o fim de semana seguinte grudado em frente à tela do canal de informações financeiras CNBC. Foram dias de agonia. A cada meia hora, uma notícia diferente surgia. O governo tentava negociar a venda do Lehman a outro banco — algo que poderia salvar a operação brasileira e, claro, evitaria que as ações dos funcionários virassem pó. As negociações, porém, fracassaram. No dia 15 de setembro, o Lehman Brothers pediu concordata. Com isso, metade do bônus de Winston Fritsch desapareceu. E o escritório do banco no Brasil mergulhou na incerteza.
O ocaso do Lehman Brothers marcou o momento em que a crise financeira mundial mudou de patamar — para pior. E marcou, também, o início de uma onda de pânico na região da avenida Brigadeiro Faria Lima, na zona oeste de São Paulo. Num espaço de poucos metros, estão concentradas as filiais brasileiras dos principais bancos de investimento do mundo. Nas últimas semanas, os funcionários dessas instituições se viram diante de uma ameaça real a suas carreiras — e a seu bolso. Primeiro, porque pelo menos três bancos correram o risco de seguir o mesmo caminho do Lehman. Além do medo de uma quebradeira generalizada em Wall Street, a outra fonte de pavor para a turma da Faria Lima é a queda no valor de mercado das instituições financeiras. Grande parte da remuneração de banqueiros de investimento vem em ações de seus respectivos bancos. E, quanto mais um executivo sobe na hierarquia, mais ganha em ações — até chegar a mais de 90%, no caso de altos executivos que ganharam cerca de 20 milhões de dólares no ano passado. Como o valor de mercado de todos esses bancos despencou, a fortuna dos brasileiros começou a evaporar. As ações do UBS, por exemplo, caíram 40% desde que o bônus foi pago. Nos bancos americanos, a queda tem sido ainda maior. Num ato de desespero, alguns executivos brasileiros começaram a se proteger investindo em fundos que se valorizam quando o valor de mercado dos bancos cai. Pode parecer bizarro que alguém ganhe apostando contra o próprio empregador, mas esse foi o efeito do pânico em parte da brasileirada. Sites como o Ishares.com, que oferecem esse tipo de investimento, são os mais populares. “Está difícil trabalhar com essa crise”, diz um banqueiro em pleno ataque de nervos. “Perdi mais de 1 milhão de dólares desde que a turbulência começou.”
Além do Lehman, o banco mais afetado pela crise até agora é o Merrill Lynch, que fez no início do ano sua maior aposta no mercado brasileiro. Um time de dez banqueiros liderado por Alexandre Bettamio, ex-diretor do UBS Pactual, foi contratado por um valor estimado em 60 milhões de dólares em salários garantidos no primeiro ano. A promessa dos americanos era brigar no mesmo nível dos líderes Credit Suisse e UBS Pactual. No dia 8 de setembro, uma segundafeira, Bettamio foi promovido a presidente do Merrill no Brasil e estava em Nova York, sede do banco, para ser oficialmente empossado. De acordo com a programação, ele voltaria ao Brasil na quinta-feira, dia 11, para falar a seus comandados. Mas a tempestade que levou o Lehman também estava levando o Merrill, e Bettamio decidiu ficar. No fim de semana, o banco acabou sendo comprado pelo Bank of America, um gigante de varejo com sede no estado da Carolina do Norte. A semana de Bettamio, que começou gloriosa, terminou cercada de interrogações. As principais incertezas giravam em torno do interesse do Bank of America pelo mercado latino-americano e, finalmente, do tipo de empresa que resultará da fusão de duas instituições tão diferentes uma da outra. “A venda foi o melhor negócio possível dada a alternativa”, diz um alto executivo de um banco americano. “A alternativa era seguir o caminho do Lehman.” O time brasileiro ganhou ações do banco quando valiam cerca de 50 dólares. Hoje, valem metade disso.
NOS ÚLTIMOS TRÊS ANOS, NENHUMA PROFISSÃO foi tão invejada no Brasil quanto a de banqueiro de investimento. Sua especialidade é assessorar empresas em fusões e aquisições, aberturas de capital ou emissões de dívida. Em contrapartida, os bancos ganham uma comissão pela operação realizada. A onda de aberturas de capital iniciada em 2004 foi a principal responsável pelo milagre da multiplicação de comissões. Em 2007, os bancos ganharam 1,1 bilhão de dólares apenas na assessoria de emissões de ações de companhias brasileiras. Como conseqüência, os banqueiros locais entraram para o grupo dos mais bem pagos do mundo. No Credit Suisse, um dos líderes no segmento, estima-se que mais de 40 funcionários tenham ganhado — cada um — um bônus superior a 1,4 milhão de dólares no ano passado. Em 2007, a subsidiária brasileira do Credit Suisse fez mais de 17% de todas as operações do banco no mundo. Dois anos antes, havia feito apenas 5% do total. O UBS Pactual, maior competidor do CS, distribuiu em março 798 milhões de reais em bônus a seus 800 funcionários. Entrou para o léxico local o chamado “Faria Lima premium”, ou seja, o prêmio pago a banqueiros de investimento brasileiros na comparação a seus pares de fora.
É justamente a certeza de que o desempenho do ano passado não se repetirá que aumenta o pânico desses executivos. Em 2008, o volume de negócios assessorados por bancos de investimento já caiu 45% (veja quadro). A última grande operação de abertura de capital, da OGX, do empresário Eike Batista, provou-se uma hecatombe do ponto de vista do investidor. Desde o dia do lançamento, em junho, o valor de mercado da OGX caiu mais de 70%. O total de comissões pagas a bancos de investimento em emissões de ações não passará de 400 milhões de dólares neste ano, queda de quase 65% em relação ao espetacular ano de 2007. Segundo quatro diretores de bancos de investimento ouvidos por EXAME, o ano de 2009 deve ser ainda mais magro. “O volume de negócios vai cair entre 20% e 30% no ano que vem”, diz Ricardo Lacerda, presidente do banco de investimento do Citigroup no Brasil. “O que está havendo é essencialmente uma depuração dos excessos dos últimos anos.” O motivo para isso é a fuga dos investidores estrangeiros. Foram eles os responsáveis por cerca de 70% dos investimentos em aberturas de capital de empresas brasileiras. E, com o agravamento da crise financeira internacional, não há perspectiva de que voltem tão cedo a mercados emergentes como Brasil, China e Índia. “Ainda vai haver espaço para operações grandes, de empresas conhecidas”, diz Rodolfo Riechert, diretor do UBS Pactual. “Mas o número de emissões de ações vai cair muito. ”
Com o fim dos anos dourados, os bancos de investimento brasileiros serão forçados a se transformar — e a diminuir de tamanho. Estima-se que o bônus a ser pago no início do ano que vem caia pelo menos 40%. “O patamar de remuneração vai desabar”, diz o diretor de um banco estrangeiro. Para se adequar ao novo cenário, as instituições projetam demissões para 2009. De acordo com dois banqueiros que pediram para não ter seus nomes re velados, o número de cortes pode beirar os 30% nos próximos 16 meses. A razão para esse cálculo é simples. Todos os bancos se reforçaram nos últimos três anos para aproveitar a incrível demanda por emissões de ações — e aqueles que não disputavam esse segmento, como o Goldman Sachs, montaram equipes para crescer. Hoje, há quase dez bancos com forte presença no Brasil, enquanto em 2004 o número não che gava a cinco. Com a queda no número de negócios, vai sobrar banqueiro e faltar trabalho. O trabalho, aliás, será concentrado em fusões e aquisições, menos rentáveis do que as aberturas de capital. Um banco ganha, em média, 0,25% do total pago por uma empresa para comprar outra. Numa abertura de capital, o assessor embolsa de 3% a 4% do volume negociado. “A garotada que entrou nesse mercado nos últimos quatro anos estava completamente fora da realidade”, diz o diretor de um banco brasileiro. “A vida vai ficar muito mais dura. Quem achava que poderia se aposentar depois de três anos de trabalho vai ter de mudar de prof issão.”
O pior, para os banqueiros brasileiros, é que essa secura nos negócios vem na hora em que Wall Street passa por sua maior revolução desde a década de 30. Os bancos de investimento puros deixaram de existir e se tornaram bancos comerciais. Com isso, sua flexibilidade forçadamente diminuirá, derrubando a rentabilidade junto. Segundo os cálculos da companhia de análises americana Sanford C. Bernstein, a transformação em banco comercial fará o retorno sobre o patrimônio do Goldman Sachs cair dos atuais 33% para 15% nos próximos anos. Diante desse novo cenário, Goldman Sachs e Morgan Stanley já anunciaram medidas para conter despesas, entre elas a suspensão de vôos na primeira classe para seus banqueiros. Essa transformação, que afeta o setor em escala global, diminuirá o empenho dos bancos de investimento em crescer no Brasil? No passado, bancos estrangeiros se assustaram diante de crises no mercado local e não hesitaram em fechar as portas e demitir seus funcionários. O ciclo de alta de 2004 a 2007 mostrou, no entanto, que quem apostou no Brasil na baixa estava pronto para lucrar quando os negócios voltaram a se aquecer. “Os próximos dois anos serão um teste de resistência para os bancos que atuam aqui”, diz Daniel Goldberg, presidente do Morgan Stanley no Brasil. É com essa incerteza que a turma da Faria Lima vai viver a partir de agora — e, pior , se espremendo na classe executiva.