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Vivendo de brisa

O Brasil é um dos principais países com potencial de geração de energia eólica, mas usa menos de 1% da capacidade — e abre mão de investimentos de 4 bilhões de reais por ano
Mauricio Simonetti/Pulsar
As regras inibem os investimentos em parques eólicos como este, no Rio Grande do Sul
 
Por Camila Fusco  | 18.09.2008

Revista EXAME - 

A indústria mundial de energia eólica amadureceu como poucas nos últimos anos. Os parques eólicos quintuplicaram de tamanho desde o início da década e hoje já somam 93 900 megawatts de capacidade instalada, o equivalente a seis usinas de Itaipu. Para um mercado nascente, a evolução foi surpreendentemente rápida. Aspectos ambientais contribuíram para o fomento desse tipo de energia limpa, mas a explicação primordial para seu desenvolvimento tem fundamentação econômica: com o preço do barril do petróleo em alta, assim como o de carvão e gás, muitos países que têm nesses recursos suas fontes principais de energia passam a encarar o vento como alternativa. Graças a seus rios e hidrelétricas, responsáveis por 85% da oferta total de energia, o Brasil não depende do petróleo para gerar eletricidade. Mas, com a baixa em seus reservatórios hídricos, aumentam as pressões para que se encontrem formas complementares de geração de energia. A indústria do vento concentra hoje algumas das maiores janelas de oportunidades, não só para energia mas também para a criação de empregos e desenvolvimento de tecnologia — mas o país ainda não descobriu a melhor forma de aproveitá-la.

Com ventos e terrenos em abundância, sobretudo no litoral do Nordeste e do Sul e na Chapada Diamantina, o potencial eólico estimado é de 143 000 MW. Isso é mais do que toda a energia eólica gerada no mundo até hoje. Mas mesmo com a elevada capacidade de geração o Brasil tem um dos índices mais tímidos de aproveitamento desse tipo de energia, segundo o Global Wind Energy Council (GWEC), grupo que reúne instituições do setor (veja quadro na pág. 20). Para o GWEC, os principais obstáculos para o desenvolvimento brasileiro estão nos impostos de equipamentos e da operação, que encarecem os projetos de exploração. Estima-se que seja necessário um investimento de pelo menos 45 milhões de reais para criar um parque com potencial de 10 MW, com sistemas de capacidade intermediária. Outros entraves, porém, envolvem ainda pouco apoio do governo a esse tipo de energia. Atualmente, quando os reservatórios das hidrelétricas estão em baixa, as usinas termelétricas já contratadas em leilão são acionadas para complementar a oferta de energia, como acontece desde o fim do ano passado. A proposta dos defensores da energia do vento é que, em vez das térmicas, as turbinas eólicas sejam aproveitadas quando os recursos hídricos estiverem em seu menor nível, já que os ventos sopram com mais força justamente quando os reservatórios estão vazios.

Mas, no governo, poucos parecem convencidos de que se trata de uma boa solução. “O principal problema da energia eólica é que ela é cara”, diz Maurício Tomalsquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), órgão vinculado ao Ministério de Minas e Energia. Nos leilões de energia de reserva, que permitem a concorrência de empresas que exploram vários tipos de energia, como térmica, eólica e biomassa, a eólica costuma perder em preços, já que 1 MW é cotado em torno de 200 reais. Já o MW das térmicas é vendido em média por 140 reais. A indústria de energia eólica contesta esse valor, dizendo que o valor pago pela térmica no leilão não reflete a realidade completa do preço — pois na conta das térmicas não se inclui o combustível para movimentar os geradores. “Quando eles são acionados, esse valor chega a 600 reais, já computando o combustível”, diz Lauro Fiúza Júnior, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica). Segundo ele, o Brasil gastou cerca de 1 bilhão de reais para manter as térmicas operando desde dezembro de 2007 até o mês de agosto. Esse valor, diz Fiúza, poderia ser reduzido à metade se as térmicas tivessem entrado em operação em abril ou maio deste ano, o que seria possível se a energia eólica já fosse utilizada como complementar.

A indústria do vento tem se mostrado rentável mundialmente não só como forma complementar de energia elétrica mas também como motor de crescimento para as economias. Só no ano passado foram 37 bilhões de dólares investidos em equipamentos, manutenção e infra-estrutura. Na Itália, as oportunidades se traduziram em geração de empregos. Com a instalação de 2 756 MW, foram empregadas cerca de 7 500 pessoas. O volume tende a crescer expressivamente, à medida que o país se aproxima da meta de implantar 12 000 MW até o ano de 2020. No Brasil, as perspectivas positivas de apoiar a indústria do vento também não são pequenas. Segundo a Abeeólica, a cada MW de energia eólica gerado, o potencial é de 200 novos postos de trabalho criados. “Além disso, se houver incentivos do governo para a contratação de 1 000 MW por ano, poderiam ser movimentados
4 bilhões de reais em investimentos, envolvendo construção civil, equipamentos, montagem e manutenção”, diz Fiúza.

Ar parado
Questões técnicas e políticas dificultam a exploração do potencial eólico do país. Veja alguns dos obstáculos e o que poderia ser feito para superá-los
Entrave
Falta de garantias governamentais que assegurem a compra da energia produzida nos parques de vento

Como resolver
Criação de políticas públicas de longo prazo para a compra da produção. Sem previsão de retorno, as empresas nacionais e externas deixam de investir
Entrave
Leilões mistos para energias alternativas fazem com que a energia eólica sempre pareça mais cara frente às demais e não seja adotada praticamente nunca

Como resolver
Realização de leilões específicos para energia eólica, de forma que esse tipo de tecnologia também se desenvolva
Entrave
Falta de linhas de transmissão públicas que captem a energia eólica produzida. A instalação fica a cargo do empreendedor eólico e encarece a tarifa ao consumidor

Como resolver
Construção de linhas de transmissão coletoras nas regiões de potencial eólico, como acontece na Europa, onde as concessionárias fazem as conexões aos parques eólicos. Isso faria baixar os custos
Fontes: especialistas, Bioenergy e Associação Brasileira de Energia Eólica

O Banco do Nordeste é uma das organizações que apóiam projetos de energia eólica por acreditar que essa indústria pode fomentar o desenvolvimento da região. “Hoje, com a seca, o Nordeste importa energia de outros lugares e os recursos deixam a região. Se os projetos de eólica forem apoiados, esse dinheiro poderá permanecer por aqui”, diz Roberto Smith, presidente da instituição. Até hoje, o banco financiou 2,4 bilhões de reais em projetos que já estão em andamento e está participando de um fundo juntamente com o Banco do Brasil e o BNDES da ordem de 300 milhões de reais. Parte desses recursos poderá apoiar a atração de empresas que querem investir em parques de vento e mesmo fabricantes de equipamentos na região.

Desenvolvimento tecnológico é outra conseqüência da ampliação do mercado eólico. A Tecsis, empresa nascida em Sorocaba, no interior de São Paulo, é hoje a segunda maior do mundo na produção de pás para os cataventos de geração eólica. Fundada na metade da década de 90 pelo engenheiro Bento Koike, então pesquisador do Centro de Tecnologia Aeronáutica e envolvido com projetos internacionais de alta complexidade, a Tecsis emprega cerca de 4 500 pessoas e fabrica 160 pás por semana. A empresa é um exemplo de sucesso do potencial dos engenheiros e pesquisadores brasileiros — uma de suas principais conquistas recentes foi o contrato fechado com a GE, avaliado em 1 bilhão de dólares. A propósito, nenhum centavo do faturamento da Tecsis, que não é revelado, vem daqui do Brasil. “A demanda de energia eólica está crescendo no mundo e o gargalo está sendo justamente a disponibilidade de equipamentos, o que gera grandes oportunidades para os fabricantes”, diz Koike. “Mas o Brasil não tem um ambiente de incentivos suficiente para fomentar a instalação dessas empresas.”

Capital de risco

Com a criação do Proinfa, programa de contratação de energia alternativa criado em 2002, o Brasil até deu os primeiros passos em direção às energias alternativas. O projeto tinha como meta atender, em 20 anos, 10% do consumo nacional de eletricidade com base em três fontes renováveis: biomassa, pequenas centrais hidrelétricas e energia eólica. A primeira fase — prevista para durar de 2002 a 2004 — estimava a implantação de 3 300 MW, sendo 1 100 MW para cada tipo de energia. Mas até agora o volume ficou bem abaixo do esperado. Até maio deste ano, apenas 218 MW de eólica haviam sido implantados, o equivalente a apenas seis dos 54 empreendimentos contratados. “Investir em energia eólica, hoje, é capital de risco”, diz Sérgio Marques, da Bioenergy. A companhia, criada há seis anos com o intuito de explorar parques de vento no Nordeste, passou a diversificar seus negócios para explorar também pequenas centrais hidrelétricas e biomassa. Nos últimos anos, a Bioenergy investiu mais de 30 milhões de reais em equipamentos para erguer suas 17 torres de vento no Rio Grande do Norte, Piauí e Maranhão, com capacidade de projeto de 1 000 MW. “Tínhamos a visão de que poderiam ser contratados pelo menos 500 MW por ano ao longo de 24 meses, mas essa sinalização não veio”, diz Marques.

Os líderes em eólica

Embora a capacidade de geração eólica seja subaproveitada atualmente no Brasil, o potencial de desenvolvimento desse ramo nos próximos anos pode valer a aposta de quem pretende investir. Esse é o caso da Vestas. A empresa dinamarquesa é a maior fabricante do mundo de turbinas de geração de energia eólica. Com faturamento de quase 5 bilhões de euros no ano passado, a empresa está estruturando sua operação brasileira e, até o fim do ano, deverá ter até 20 funcionários para as áreas de projetos, tecnologias e vendas. “Se o mercado comportar, pretendemos instalar até um parque industrial”, diz Román Rivière, responsável pela operação local. Isso significa que a Vestas está disposta a colocar o país na rota de seus investimentos anuais — que devem chegar a 620 milhões de euros globalmente em 2008. Mas o caminho a percorrer para o Brasil para disputar um naco desse total não será fácil. Se a situação não mudar, e rápido, a indústria da energia eólica brasileira vai continuar vivendo de brisa.

 
 
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