Revista EXAME -
A expansão da economia brasileira nos últimos quatro anos criou uma curiosa inversão de papéis entre as empresas brasileiras e as multinacionais instaladas no país. As companhias nacionais, capitalizadas pela onda de IPOs, pelo crescimento das exportações e pela expansão do consumo interno, transformaram-se em um potente ímã de talentos. As multinacionais européias e americanas continuam pagando bons salários, mas passaram a sofrer uma agressiva concorrência das empresas brasileiras nas políticas de remuneração por desempenho — uma prática muito valorizada pelos executivos. Depois da surpresa inicial, as estrangeiras começaram a reagir. Em 2007, segundo a pesquisa Hay Group/EXAME, as multinacionais aumentaram em 21% o bônus médio pago aos diretores, índice superior ao aumento registrado entre as empresas nacionais — que ficou em torno de 15%. Apesar do avanço, o bônus médio de um diretor de uma companhia estrangeira está em torno de 190 000 reais. Nas companhias brasileiras, um executivo de mesmo cargo e nas mesmas condições ganha 319 000 reais de bônus. “Nos últimos anos, o Brasil passou a ter empresas nacionais muito fortes, com pacotes agressivos de remuneração. As estrangeiras ainda estão tentando reverter esse atraso”, diz Cláudio Costa, diretor de serviços de informações do Hay Group no Brasil e coordenador da pesquisa.
A disputa entre as companhias verde-amarelas e as multinacionais instaladas aqui proporcionou ao mercado brasileiro uma condição singular. Hoje, o Brasil é um dos países que mais privilegiam a renda variável na remuneração dos executivos. Segundo o estudo do Hay Group, 42% dos vencimentos anuais em cargos de diretoria no Brasil são pagos com bônus. Nos Estados Unidos, esse percentual é 30%, na Alemanha, 29%, e na França, 21%. Com isso, a remuneração média de um diretor industrial no Brasil é 390 000 dólares, quase 50 000 dólares a mais do que a de um executivo no mesmo cargo que trabalhe nos Estados Unidos. Evidentemente, a alta do real ante o dólar teve papel decisivo nesse processo. Mas não foi o único fator. Como o país vem de uma seqüência de bons anos na economia, o que as subsidiárias têm feito é usar as taxas de crescimento dos negócios no Brasil como forma de pressionar suas sedes. “O crescimento econômico acabou se tornando um trunfo para as filiais”, diz Patrícia Molino, sócia responsável pela área de assessoria de gestão da KPMG.
Preservar os melhores profissionais é uma tarefa obrigatória para qualquer empresa que queira sobreviver e prosperar. Quando se trata do alto escalão, a questão é ainda mais complexa. Perder um executivo preparado, daqueles que não apenas traçam estratégias mas sabem executá-las, é um revés e tanto para qualquer negócio. Por essa razão, a batalha por talentos está cada vez mais acirrada no mundo — e pacotes de remuneração mais vitaminados continuam sendo uma das formas mais eficazes de participar dessa disputa. Desde 2005, a subsidiária brasileira da Microsoft reajustou quatro vezes os bônus de seus executivos. Mesmo assim, a competição segue agressiva. Cláudia Ferris, diretora da divisão de negócios e parceiros da empresa, recebeu duas propostas somente neste ano. E ela é só um exemplo. Cláudia optou por permanecer na Microsoft porque, além dos bônus, a empresa tem um plano de carreira bem estruturado. “Mas, sem o bônus, talvez ela fosse embora, porque essa é uma das melhores maneiras de se reconhecer o talento”, diz Cláudio Garcia, presidente da DBM, tradicional consultoria de recursos humanos.
| Onde as estrangeiras avançaram | ||
| Setores em que as empresas multinacionais estrangeiras apresentaram maior crescimento no pagamento de bônus (em mil reais) | ||
| Indústria geral(1) | ||
| 2006 | 189,4 | Variação -6,2% Variação 15,6% |
| 2007 | 177,7 | |
| 2008 | 205,4 | |
| Indústria de base(2) | ||
| 2006 | 158,9 | Variação -10,1% Variação 11,9% |
| 2007 | 142,8 | |
| 2008 | 159,9 | |
| Agronegócio(3) | ||
| 2006 | 120,7 | Variação 22,2% Variação 82,4% |
| 2007 | 147,5 | |
| 2008 | 269 | |
| (1) Engloba empresas de produtos de consumo, automóveis, caminhões e ônibus, autopeças, medicamentos, eletroeletrônicos, máquinas e equipamentos industriais (2) Engloba empresas de siderurgia, metalurgia, mineração, produtos químicos, produtos petroquímicos, papel, celulose e cimento (3) Engloba produtores de defensivos agrícolas, açúcar e álcool, sementes e empresas pecuárias | ||
Entre as 129 empresas estrangeiras avaliadas pelo Hay Group, as ligadas ao agronegócio apresentaram o maior aumento na remuneração variável de executivos entre 2006 e 2007. Nesse setor, que envolve companhias agropecuárias, de açúcar e álcool, de defensivos agrícolas e de adubos e sementes, os bônus médios anuais passaram de 147 500 reais pagos em 2007 para 269 000 reais em 2008 — aumento de 82,4%. Quando se levam em conta os bônus pagos em 2006, o aumento é ainda mais significativo, alcançando 124%. Tamanha bonança está escorada no fato de o agronegócio ser um dos setores que mais crescem no país. Em 2007, cresceu 8%, ante 5,4% da economia brasileira. Também é uma atividade cujas empresas nacionais têm passado por um alucinante processo de consolidação e profissionalização, além de receberem contínuos aportes de investidores dispostos a aproveitar o bom momento do etanol e das commodities agrícolas. Era previsível, portanto, que as estrangeiras, como a francesa Louis Dreyfus e as americanas Cargill e ADM, investissem tantos recursos para atrair os melhores profissionais.
Se existe um segmento em que as multinacionais estrangeiras têm vivido de forma extremamente aguda o desafio de pagar melhor — e conseguir manter — seus executivos, esse segmento é a indústria automobilística. O setor sempre foi conhecido pelas políticas esquálidas, quando não inexistentes, de remuneração por desempenho. Mas a excelente performance do ano passado obrigou as montadoras e suas fornecedoras a rever essa postura. Em 2007, foram vendidos no Brasil cerca de 2,5 milhões de veículos, quase 30% mais que no ano anterior. O crescimento das vendas no país pôs fim a quase uma década de prejuízos nas montadoras. O resultado foi alentador para os executivos dessas empresas, que receberam aumento médio de 82% nos bônus pagos em 2008. Neste ano, as empresas esperam atingir a marca de 3 milhões de carros vendidos. Os especialistas em remuneração, no entanto, consideram pouco provável que a compensação no ano que vem chegue aos mesmos níveis de 2008. Pelo menos duas grandes montadoras, Ford e GM, contabilizaram prejuízos colossais em suas matrizes no segundo trimestre — e, em multinacionais, o resultado global ainda tem peso significativo na remuneração. “Na cabeça do acionista, não existe nada que justifique pagar bem localmente se os negócios no principal mercado vão mal”, diz Alexandre Fialho, diretor da Fundação Dom Cabral, de Belo Horizonte. Para o executivo de uma multinacional instalada no país, um ótimo desempenho, às vezes, não é suficiente.