Revista EXAME -
Poucos de seus contemporâneos pensam em George W. Bush como um presidente americano visionário, a menos que estejam usando o termo para sugerir um toque de loucura. É tal o legado de seus infortúnios no Iraque, da contínua instabilidade no Afeganistão, do declínio mundial da reputação dos Estados Unidos durante sua administração que muitos o definiriam como o pior presidente americano desde Richard Nixon (1969-1974) ou Herbert Hoover (1929-1933). Ou mesmo, para seus críticos mais ferrenhos, desde a fundação da República. Não foi por falta de ambição. Nos dois anos seguintes aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, o presidente Bush pareceu montar a maior das grandes estratégias de política externa, buscando nada menos que uma transformação do Oriente Médio e da Ásia Central, as regiões onde o terrorismo parecia ter se originado. O plano era substituir a ditadura pela democracia — ou, ao menos, pela responsabilidade. John Lewis Gaddis, professor de grandes estratégias de Yale e decano dos historiadores da Guerra Fria, descreveu essa mudança como ‘a revisão mais fundamental da grande estratégia americana em meio século’. E foi mesmo. Mas ela desmoronou. Seja quem for o próximo presidente eleito dos Estados Unidos em novembro de 2008, ele provavelmente terá ou de rejeitar por completo a estratégia de Bush ou de se afastar consideravelmente dela.
Salvo em um aspecto. Esse aspecto foi um dos pontos de continuidade entre os primeiros meses do primeiro mandato de Bush, quando uma China em ascensão foi considerada a principal preocupação em política externa dos Estados Unidos, e o mundo pós-11 de Setembro. Em setembro de 2002, a administração Bush declarou que uma de suas metas seria ‘ampliar a paz pela via do encorajamento de sociedades livres e abertas em cada continente’. No início de seu segundo mandato, Bush tentou fazer precisamente isso no continente que estava passando por maiores transformações entre todos, aquele que abriga metade da população mundial e as economias em mais rápido desenvolvimento: a Ásia. Ele o fez lançando uma iniciativa ousada para tentar estreitar os laços dos americanos com a maior democracia do mundo, a Índia.
Esse ato poderá ser julgado por historiadores como uma medida de grande importância e imaginação estratégica. Ele reconheceu o fato de que, embora a Al Qaeda e congêneres representassem a maior ameaça no curto prazo, e talvez no médio, no longo prazo é o esperado deslocamento do equilíbrio econômico e político do mundo para a Ásia que promete, como a equipe de Bush originalmente pensava, ter o maior significado. Em 2006, Bush assinou um acordo nuclear com a Índia para pôr fim a 40 anos de hostilidade e suspeitas entre os dois países, encerrando quase uma década de tensão por causa dos testes indianos com armas nucleares em 1998. A Índia estava sendo transformada em um caso muito especial, com a finalidade de ajudá-la a fortalecer tanto seu vigor econômico como sua capacidade militar. E essa exceção estava sendo feita por uma razão muito especial: a ascensão da China.
Isso implicou deixar de lado preocupações com a proliferação nuclear na busca de um objetivo muito maior e mais estratégico: uma amizade estreita e duradoura com a Índia, um país que se alinhara à União Soviética durante a Guerra Fria. A Índia era um país cuja economia vivia uma fase de forte crescimento, que havia abandonado boa parte de sua ideologia antiocidental e que desejava ser aceita como potência global. Seu status de democracia estava recebendo, portanto, uma prioridade mais alta que os temores sobre a proliferação nuclear. O acordo trazia implícito que se podia confiar no fato de que uma democracia não disseminaria armas nucleares — mesmo que se recusasse a assinar o tratado de não-proliferação nuclear ou não desistisse do direito de testar novas armas nucleares, como a Índia continuou a fazer. O aspecto mais crucial foi que a Índia era um país com potencial de contrabalançar o poder crescente da China. O reconhecimento desse fato por Bush foi seu momento de Nixon. Onde Nixon havia usado a China para contrabalançar a União Soviética, Bush estava usando a Índia para contrabalançar a China.
A direção da Ásia é clara: vai continuar enriquecendo provavelmente durante muito tempo ainda. Companhias asiáticas vão se tornar cada vez mais proeminentes nos negócios internacionais, como competidoras das ocidentais, como compradoras de ativos ocidentais e como fontes de novas tecnologias. Isso será pintado por muitos políticos como uma ameaça às subsistências americana e européia. Mas, na verdade, o efeito será positivo, mesmo se a pressão competitiva prejudicar algumas companhias individuais do Ocidente. O comércio e a inovação gerados tornarão o Ocidente mais rico e mais forte também, da mesma forma como o rápido crescimento da Europa e do Japão no pós-guerra ajudou a enriquecer os Estados Unidos durante o meio século seguinte. No entanto, mudarão o equilíbrio de poder relativo no mundo. Nem os Estados Unidos nem a Europa conseguirão dominar os assuntos mundiais da maneira como ficaram acostumados. A Ásia vai exigir um assento em condições de igualdade à mesa.
Mesmo assim, essa tendência não é tão simples como parece. Não existe uma entidade única chamada Ásia, que no futuro demandará igualdade de tratamento e influência com Estados Unidos e Europa. A Ásia está dividida. E o processo de rápido desenvolvimento econômico vai dividi-la ainda mais em termos políticos. A ascensão da Ásia não vai apenas jogá-la contra o Ocidente. Vai jogar asiáticos contra asiáticos. Esta é a primeira vez na história em que existem três países poderosos na Ásia, todos ao mesmo tempo: China, Índia e Japão. Isso poderia não ter importância se eles se gostassem ou se fossem, de algum modo, naturalmente compatíveis. Mas eles não se gostam nem são compatíveis. Longe disso, aliás. A China pode emergir como o mais poderoso dos três, mas, como a Grã-Bretanha do século 19, é improvável que ela seja capaz de dominar seu continente. Um novo jogo de poder está em curso, em que todos procuram ser tão amigáveis quanto possível por temer as conseqüências se não o forem, mas em que a amizade é meramente epidérmica. Todos estão manobrando para fortalecer suas próprias posições e para maximizar suas vantagens de longo prazo.
O relacionamento entre China, Índia e Japão vai se tornar cada vez mais difícil na próxima década. Todo um conjunto de disputas, animosidades históricas e situações críticas regionais rodeia ou sobrecarrega os três países. O conflito não é inevitável, mas não é inconcebível. Se ele ocorrer — sobre Taiwan, por exemplo, ou a península coreana, ou o Tibete, ou o Paquistão —, provavelmente não será um simples assunto intra-asiático. O mundo exterior seria inevitavelmente arrastado para dentro e, em especial, os Estados Unidos, em razão do posicionamento de forças militares e das alianças do país na Ásia. Para onde conduz tudo isso? O Ocidente, como se sabe, não pode mais agir de sua própria maneira tão facilmente como agiu nos séculos 19 e 20.
Como a experiência de crescimento, a consciência da força, as prováveis novas pressões da opinião pública doméstica afetarão a maneira como Índia, China e Japão verão uns aos outros, e como cada um deles verá o Ocidente? Como essas transformações afetarão o planeta como um todo, dado que (quase) todos se preocupam com mudança climática, recursos naturais e crescimento da demanda dos novos gigantes da Ásia por tudo que pode ser semeado no solo ou escavado do subsolo? Dois gigantes observadores da Ásia — Rússia e Estados Unidos — serão abalados por essas mudanças e estarão tentando influenciá-las o tempo todo. Em meio a essa transformação disruptiva, a Ásia está sendo criada diante de nossos olhos. Esse é o mundo do século 21.”