Revista EXAME -
Os fundos de investimento são um dos segmentos mais dinâmicos do mercado financeiro brasileiro. Sua história é antiga — o primeiro fundo de ações, o Crescinco, foi aberto à captação no dia 18 de janeiro de 1957. Cinco décadas e 1,2 trilhão de reais depois, cerca de 5 milhões de brasileiros investem nos mais de 8 000 fundos existentes e regulamentados. Há produtos para todos os gostos, desde os mais pacatos fundos DI, cujo objetivo é garantir o sono do investidor e o tédio do analista, até os fundos que assumem posições arriscadíssimas tentando obter uma remuneração surpreendente e correm riscos igualmente elevados.
Uma oferta tão diversificada, aliada à concorrência das quase duas centenas de empresas que administram fundos de terceiros, torna difícil a vida do investidor. Perdido entre tantas alternativas, ele corre dois riscos. O primeiro, mais grave, é perder um dinheiro que não poderia ser perdido, devido a um investimento mal direcionado em um fundo arriscado demais. O segundo, menos grave, é deixar de ganhar dinheiro por ser muito tímido na hora de correr riscos. Aqui, o investidor não perde dinheiro, mas deixa de aproveitar oportunidades preciosas.
Como escolher o mais adequado? Você é um investidor cauteloso, interessado apenas em repor as perdas da inflação, ou está disposto a correr riscos para multiplicar seus recursos em menos tempo? Conhecer a si mesmo é a melhor maneira de definir seu perfil como investidor. Para facilitar essa tarefa, o Guia EXAME de Investimentos Pessoais lista as três perguntas que você deve formular — e responder — antes de tomar qualquer decisão de investimento.
1 - Em que momento eu estou? Os investidores têm dois grandes momentos ao longo da vida. O primeiro é a fase de acumulação, em que os rendimentos do trabalho assalariado ou de algum empreendimento vão pagar as contas e gerar uma sobra para o futuro. O segundo é a fase de rendimentos, em que a poupança do passado garante a solvência atual. Aqui, o principal elemento a ser analisado é quanto tempo o investidor tem para recuperar-se de uma perda.
O investidor mais jovem pode correr mais riscos. Quem investiu em uma ação como a da Agrenco, cujos preços caíram de 11 reais, no lançamento, para menos 1 real quando seus principais executivos foram presos, perdeu quase 90% de seu capital. Aos 25 anos de idade, no início de sua vida profissional, o investidor tem décadas para compensar esse prejuízo. Aos 55 anos, já em fim de carreira e pensando mais na aposentadoria do que na próxima promoção, há muito menos tempo para recuperar seu capital.
Portanto, ao começar sua trajetória nas finanças, o investidor poderá ter uma grande fatia de seu dinheiro em fundos de risco, como os fundos de ações e os fundos multimercados mais agressivos. Conforme o tempo passa, a parcela do dinheiro dedicada aos fundos mais tranqüilos, como os DI e os de renda fixa, deve ganhar mais importância.
Não há percentuais fixos — eles variam de acordo com outros fatores que influenciam a decisão, como veremos adiante —, mas uma boa regra de bolso é que o investidor jovem pode ter até dois terços de seu dinheiro em aplicações de risco. O investidor em fim de carreira, que quer apenas defender seu dinheiro da inflação ao longo do tempo, não deveria ter mais do que 20% do dinheiro em aplicações de risco.
2 - Quanto dinheiro eu posso perder? As empresas que administram dinheiro e procuram definir os investidores para saber quais produtos oferecer costumam traçar uma divisão arbitrária entre investidores conservadores, moderados e agressivos.
As perspectivas variam, mas em geral um investidor conservador é aquele que não quer arriscar nem seu capital nem seus rendimentos, ou seja, conforma-se em ganhar pouco para eliminar a probabilidade de não ganhar nada. Um investidor moderado é o que se conforma em não ganhar nada, desde que seu principal não seja ameaçado. E o investidor agressivo topa arriscar o principal, desde que a possibilidade de ganho seja apetitosa.
Essa classificação é correta, mas simples demais. “Um investidor não é conservador, moderado ou agressivo todo o tempo e com todos os seus investimentos”, diz William Eid Júnior, professor de finanças da Fundação Getulio Vargas e responsável pela avaliação dos fundos classificados neste guia. “Ele pode ser ao mesmo tempo agressivo com o que ganhou de bônus e conservador com o dinheiro reservado para comprar a casa própria.”
Para saber qual é mesmo seu perfil, o investidor tem de pensar quanto dinheiro ele pode perder. Se sua renda é elevada e ele consegue fazer sobrar um dinheirinho razoável no fim do mês durante todos os meses, ele não só pode como deve buscar aplicações mais arriscadas, que possibilitem rentabilidade acima da média. Se, ao contrário, a renda é bastante apertada ou os gastos são altos, como quando é preciso gastar muito dinheiro com a educação dos filhos, por exemplo, a possibilidade de arriscar é menor.
Outra boa regra é analisar qual o impacto de uma perda de 20% do patrimônio nas finanças. Se esse prejuízo não for alterar seus planos de curto prazo, como comprar a casa própria, pagar uma pós-graduação ou os estudos das crianças, seu perfil é agressivo. Se uma perda de 10% causar alguns problemas mas puder ser suportada, seu perfil é moderado. E, finalmente, se uma redução de 5% em seu portfólio provocar enormes dores de cabeça, seu perfil é conservador.
3 - Quão confortável eu me sinto investindo dinheiro? Investir dinheiro é aparentemente simples. Basta fazer sobrar um pouco no fim do mês e colocar essa quantia para trabalhar para você, gerando mais dinheiro. É diferente de poupar, que significa deixar de gastar hoje para gastar um pouco mais amanhã. Por isso, tornar-se investidor não depende de uma quantia de dinheiro, mas, sim, de uma atitude.
É possível investir tendo apenas 1 real no bolso, pois os grandes bancos estatais permitem abrir uma caderneta de poupança com esse valor. E é possível ter um patrimônio de vários milhões de reais e não estar investindo nada. Se esse capital estiver imobilizado em imóveis de lazer, carros ou um barco para recreação, ele será apenas uma fonte de prejuízos com gastos e depreciação, não sendo investimento.
Esse princípio simples esconde um universo complexo e tremendamente detalhado, em que aplicações básicas como as cadernetas de poupança convivem lado a lado com fundos sofisticados, que não abrem mão de ferramentas estatísticas avançadas para calcular os preços justos de derivativos, ações, títulos de renda fixa e commodities. Quanto mais sofisticada uma aplicação financeira, mais tempo o investidor deve dedicar a estudá-la.
Investir na poupança é tremendamente simples — tanto que alguns bancos colocam automaticamente nas cadernetas o dinheiro dos clientes que está parado nas contas correntes. Os juros são definidos pelo BC, que informa a rentabilidade mensal, uniforme para todos os poupadores, e não se fala mais no assunto.
Dedicar dinheiro a um fundo que usa derivativos exige mais do investidor. Se quiser de fato saber o que está fazendo, o cliente deve imprimir e ler cuidadosamente os prospectos, estatuto e relatórios de investimento do fundo, conversar com o gestor e traçar um histórico da rentabilidade passada, em especial nos momentos de crise, pois a excelência de um gestor aparece exatamente em sua capacidade de desviar-se da turbulência.
Entender o jargão requer paciência e estudo, e disposição para aprender algo novo freqüentemente, pois o mercado financeiro é muito dinâmico na criação de novos produtos. O investidor que se sente confortável fazendo isso pode se arriscar em aplicações mais sofisticadas. Quem não se sente bem lidando com investimentos ou com os profissionais que trabalham com eles deve preferir as aplicações mais simples e massificadas. O rendimento será menor, mas haverá menos probabilidade de ser surpreendido por um risco mal compreendido.
Agora, é só procurar os melhores fundos, marcados com cinco estrelas na edição deste ano do Guia EXAME de Investimentos Pessoais.
| Entenda a tabela de fundos |
| O Guia EXAME de Investimentos Pessoais apresenta nas próximas páginas uma lista de 900 fundos de investimento analisados pelo Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas. Veja abaixo os conceitos utilizados na tabela |
| Classificação EXAME/FGV |
| Exemplo — Ações Colocada na vertical, à esquerda da tabela, classifica os fundos em seis grandes categorias: ações, alavancados, cambiais, multimercados, renda fixa e outros |
| Nome do fundo |
| Exemplo — XYZ Especial Os fundos estão ordenados pela quantidade de estrelas e em ordem alfabética da empresa gestora — não confundir com a empresa administradora, já que muitos gestores pequenos usam administradores terceirizados |
| Estrelas Guia 2008 |
| Mostra como o fundo foi avaliado nos últimos 12 meses terminados em junho — quanto mais estrelas, melhor (o máximo são cinco). Para que o leitor possa conhecer a consistência do gestor em prazos maiores, também foi avaliado o desempenho em três anos, entre 1o de julho de 2005 e 30 de junho de 2008 |
| Classificação Anbid |
| Exemplo — Referenciado DI Detalha a classificação das carteiras. Um fundo de renda fixa referencia do DI, por exemplo, segue a varia ção da taxa de juro do mercado |
| Taxa de administração (em %/ano) |
| Exemplo — 2,00 É quanto as instituições cobram pelo trabalho de administrar os fundos. A taxa é informada em base anual, mas é debitada proporcionalmente em todos os dias úteis, independentemente do desempenho do fundo |
| Taxa de performance (% sobre o objetivo) |
| Exemplo — N/C Pode ou não ser cobrada (N/C significa que a taxa não é cobrada). Funciona como prêmio para o gestor quando ele supera determinadas metas e, normalmente, representa um percentual daquele que superar o objetivo |
| Depósito inicial (em R$) |
| Exemplo — 5 000 É a quantia mínima exigida pelos administradores para um investidor aplicar no fundo. Em geral, quanto menor o depósito, maior a taxa de administração |
| Movimentação mínima (em R$) |
| Exemplo — 5 000 É a quantia mínima exigida pelos administradores para o investidor sacar ou aplicar mais recursos de um fundo em que já investe |
| Código Anbid |
| É o número de registro do fundo na Associação Nacional de Bancos de Investimento (Anbid), órgão de classe que regula o setor de fundos no Brasil |