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Mudar para ganhar

Mais agressivo e flexível, o Itaú garantiu a liderança entre os gestores de recursos de 2008
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Mussolini: mais autonomia aos gestores sem abrir mão dos controles de risco
 
Por Cláudio Gradilone  | 21.08.2008

Revista EXAME - 

A indústria automobilística gerou dois grandes modelos gerenciais desde que surgiu. O mais antigo é o fordismo, derivado da americana Ford. O mais moderno é o toyotismo, inspirado na japonesa Toyota. Suas filosofias são opostas. O fordismo nasceu com base em controles, divisão do trabalho e estratégias de marketing muito rígidas, adequadas a um mercado massificado. O toyotismo inseriu flexibilidade nessa equação, adaptando-se para competir em um mercado mais complexo.

Guardadas as devidas proporções, a mesma mudança ocorreu na empresa de administração de recursos do banco Itaú, premiada como melhor gestor de fundos de 2008. O Itaú alterou profundamente sua maneira de fazer as coisas e rompeu com alguns princípios há muito enraizados em sua cultura. “Hoje, os gestores de fundos têm muito mais flexibilidade do que tinham há dois anos”, diz Carlos Henrique Mussolini, executivo responsável pela área de administração de recursos do banco. “Eles têm mais liberdade para tomar suas decisões e são mais cobrados pelos resultados do que antes.”

Decisões desse tipo são inesperadas num banco como o Itaú. Nascido há mais de 60 anos da formação industrial do engenheiro Olavo Setubal, o Itaú sempre se caracterizou por sua cultura de controles estritos. A gestão de recursos não fugia à regra. Sempre houve uma rígida separação entre a tomada de decisões e sua execução, e um dos mandamentos do banco era que todas as decisões significativas de investimentos eram tomadas de forma colegiada. Essa uniformidade, claro, refletia-se na autonomia (limitada) e na remuneração (relativamente uniforme) dos gestores.

Isso mudou. Sem abrir mão da precisão nos controles de risco, o Itaú agora delega mais responsabilidade a cada um dos principais gestores. “Estabelecemos cenários comuns para a economia brasileira e internacional e avaliamos as probabilidades de cada um”, diz Mussolini. “A partir daí, os gestores têm autonomia para operar, desde que não assumam riscos superiores ao que foi definido em consenso.” O próprio Mussolini mudou de função. “Hoje, sou muito mais um administrador de pessoas e de processos do que de recursos”, diz ele.

Um exemplo de como o novo modelo funciona na prática: os comitês de avaliação definem que o cenário mais provável para a bolsa são novas quedas. A partir daí, cabe ao gestor definir se já é hora de comprar ou se vale a pena esperar mais um pouco, em busca de preços ainda mais convidativos. Quem acertar terá, além dos louros, um significativo aumento na remuneração. “Antes de iniciarmos esse processo, 30% da remuneração de nossos gestores dependia dos resultados, mas hoje esse percentual subiu para até 60%”, diz Mussolini.

Parece simples, quase simplista. Mas essa mudança, iniciada em 2006, representou uma adaptação às mudanças no mercado. Mussolini diz que durante mais de uma década 90% do patrimônio dos fundos destinava-se às aplicações de renda fixa, basicamente títulos da dívida pública. Nesse cenário havia poucas razões para arriscar e nenhum motivo para investir na diferenciação. Hoje, afirma o executivo, o mercado está caminhando rapidamente para uma mudança profunda. “Acreditamos que metade do patrimônio da indústria de fundos estará em ações e derivativos nos próximos três anos”, diz Mussolini.

A maior flexibilidade permitiu à equipe de 120 pessoas que administra quase 145 bilhões de reais em fundos obter dois prêmios, o de melhor gestor do ano e o de melhor gestor de fundos multimercados, além do segundo lugar na gestão de fundos alavancados e o terceiro na de fundos de ações. Dos 140 fundos do Itaú analisados nesta edição do Guia EXAME de Investimentos Pessoais, 14 receberam a pontuação máxima de cinco estrelas. De acordo com os critérios do Guia EXAME, os fundos premiados não são simplesmente os mais rentáveis, mas, sim, aqueles que apresentam a melhor relação entre o retorno e o risco que o investidor teve de correr — o risco é calculado pela oscilação diária das cotas do fundo.

Para obter esses resultados no complicado cenário financeiro entre julho de 2007 e junho de 2008, os profissionais do Itaú souberam reduzir o impacto das turbulências do mercado sobre as carteiras de seus fundos. Não foi um período fácil. No terceiro trimestre do ano passado, as perspectivas para o cenário brasileiro eram muito positivas. As expectativas eram de crescimento econômico, de obtenção do grau de investimento e de conseqüente inundação de recursos internacionais no mercado. “Todo mundo esperava que os juros reais brasileiros convergissem para as taxas dos Estados Unidos já no início de 2009”, diz Aguinaldo Antonio Fonseca, responsável pela gestão dos fundos de renda fixa do Itaú.

No entanto, a deterioração da qualidade do crédito imobiliário americano e os prognósticos de desaceleração da economia dos Estados Unidos reverteram totalmente esse cenário. Mais do que isso, um surto inesperado de inflação global diminuiu o espaço dos bancos centrais ao redor do mundo para estimular o crescimento por meio da redução dos juros. Os mercados acionários, claro, ressentiram-se da abrupta mudança de expectativas e desabaram. No caso brasileiro, a alta da inflação registrada no segundo trimestre do ano e a política dura do Banco Central fizeram os juros subir.

Os gestores do Itaú conseguiram atenuar o impacto dessas mudanças ao observar de perto o mercado de crédito nos Estados Unidos. “Percebemos que o custo dos empréstimos estava subindo muito por lá, mas isso ainda não se refletia no mercado brasileiro”, diz Marcello Siniscalchi, responsável pela gestão dos fundos multimercados. “Isso fez com que tomássemos posições mais defensivas antes da média do mercado.” No caso da renda variável, o que valeu o terceiro lugar ao Itaú foram as apostas corretas e no momento certo na oscilação das commodities. “O setor siderúrgico conseguiu manter boas margens durante o primeiro semestre deste ano”, diz Walter Mendes, responsável pela gestão dos fundos de ações.

Os fundos multimercados 5 estrelas em 2008

 
 
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