Revista EXAME -
Em momentos de alta tensão como o atual, é normal acontecer um descolamento entre o mercado financeiro e a economia real. Assustados, investidores se desfazem de ações de empresas prósperas e lucrativas e acabam jogando o preço desses papéis para baixo junto com os de outras companhias de fato sem futuro. Nos últimos meses, o caso da Petrobras foi o exemplo mais emblemático desse fenômeno — suas ações preferenciais acumulam perda de quase 25% desde o início do ano. Em contraste com o que acontece na bolsa, o desempenho da empresa continua a ser positivo e seu futuro nunca foi tão promissor. No primeiro semestre deste ano, a Petrobras teve lucro recorde de 15,7 bilhões de reais, 44% acima do registrado no mesmo período de 2007. Além disso, todas as atenções do setor estão focadas nas descobertas feitas na bacia de Santos a mais de 6 000 metros abaixo do nível do mar, a chamada camada pré-sal. Espera-se que esses poços, no mínimo, tripliquem as reservas da Petrobras — atualmente em 14 bilhões de barris. A empresa estima que o primeiro dos campos descobertos, Tupi, tenha entre 5 bilhões e 8 bilhões de barris — o que aumentaria as reservas, por baixo, em 35% de uma só tacada. Ainda há nove reservas em prospecção no pré-sal e outras a ser descobertas. “Até agora, a Petrobras encontrou óleo em todos os locais que perfurou no pré-sal”, diz Marco Franklin, sócio da gestora de recursos Paraty.
Essa perspectiva explica o entusiasmo dos analistas ouvidos por EXAME com as ações da Petrobras. Dos 20 profissionais de mercado entrevistados nas primeiras semanas de agosto, 19 aconselham a compra do papel. “As ações da Petrobras estão entre as que mais sofreram com a piora geral no mercado. O resultado é que elas estão hoje muito, mas muito baratas”, diz Auro Rozembaum, analista da Bradesco Corretora. Para o banco americano Goldman Sachs, a estatal brasileira é a empresa de petróleo com o maior potencial de ganho entre as 29 companhias do setor que acompanha em todo o mundo. A expectativa de retorno das ações preferenciais da empresa é de até 90% nos próximos 12 meses, ante a média de 32% para outras companhias com valor de mercado acima de 100 bilhões de dólares.
Na Bolsa de Valores de Nova York, o entusiasmo dos investidores pode ser medido pela mudança de patamar das ADRs (papéis que representam ações de empresas estrangeiras) da Petrobras. Em março, quando o presidente da Agência Nacional de Petróleo, Haroldo Lima, anunciou que as reservas de uma única área poderiam chegar a 30 bilhões de barris, a Petrobras chegou a ter o quinto papel mais negociado no maior mercado financeiro do planeta, atrás apenas dos bancos Wachovia e Citigroup, do conglomerado GE e da varejista Circuit City.
Mesmo com todas essas análises positivas, as ações da Petrobras têm uma parcela de risco. No curto prazo, por sua alta liquidez, elas sofrem com a instabilidade nos mercados financeiros internacionais. Nas últimas semanas, muitos investidores estrangeiros têm retirado dinheiro do Brasil, e fazem isso vendendo os papéis mais procurados, como os da Petrobras. No médio e no longo prazo, o que preocupa os investidores lá fora é outra questão. O governo brasileiro pretende mudar as regras de exploração de petróleo. “O pré-sal não é da Petrobras, mas sim de todos os brasileiros”, disse o presidente Lula recentemente. “Precisamos mexer na Lei do Petróleo.” Uma comissão do governo tem até meados de setembro para propor um novo modelo de exploração. Entre as alternativas em estudo estão a criação de outra estatal para administrar as reservas do pré-sal ou a adoção do modelo de partilha de produção — em que uma parte fica com a empresa exploradora e a outra com o país. O temor dos investidores de fora é que o novo regime ameace o crescimento da Petrobras. “Por causa do risco de mudança nas regras, fazemos ressalvas aos papéis da empresa”, diz Wayne Kozun, vice-presidente do canadense Ontario Teachers, um dos 15 maiores fundos de pensão do mundo.
| Os pontos fortes |
| Por que a Petrobras é considerada uma empresa de destaque mundial do setor |
| Aumento das reservas Espera-se que a descoberta de novas áreas no pré-sal deva, no mínimo, triplicar as reservas da Petrobras, que hoje tem 14 bilhões de barris e é a quarta do mundo entre companhias abertas |
| Pouco risco regulatório É consenso no mercado de que uma eventual nova Lei do Petróleo não vai alterar as regras para os poços que já estão sendo perfurados |
| Na contramão do mercado Enquanto a concorrência internacional tem problemas para achar novas reservas, a Petrobras fez a maior descoberta do mundo nos últimos seis anos |
Essa preocupação não é compartilhada pela maioria dos analistas brasileiros. Para eles, as mudanças, se ocorrerem, só deverão valer para as novas concessões — e não para as licenças de exploração do pré-sal obtidas pela Petrobras nos últimos oito anos. Nem mesmo os desafios tecnológicos e os altos investimentos necessários para explorar o pré-sal diminuem o otimismo. “A Petrobras é líder mundial na exploração em águas profundas, e adaptar a tecnologia existente é questão de tempo”, diz Luiz Broad, analista da Ágora Corretora. A mensagem aos investidores é clara: vale a pena apostar na ação da maior empresa do país.