Revista EXAME -
O mercado americano de fundos de investimento tem um novo ídolo, Ken Heebner, sócio da pequena gestora de recursos Capital Growth Management, com sede em Boston. O que colocou ambos sob os holofotes foi o impressionante desempenho do principal fundo da empresa, o CGM Focus. Depois de render 80% em 2007 — num ano em que o índice S&P 500, da bolsa de Nova York, subiu meros 3,5% —, o Focus tornou-se o fundo mais rentável dos últimos dez anos nos Estados Unidos. Durante esse período, entregou a seus cotistas uma rentabilidade média de 24% ao ano, o que, no final de uma década, soma invejáveis 759%. Muitos investidores brasileiros dificilmente terão acesso a esse fundo. Apesar de a aplicação mínima ser baixa, de 2 500 dólares, a burocracia e os custos para enviar dinheiro para fora do país podem inviabilizar a aplicação. Ainda assim, porém, vale a pena ficar de olho no que Heebner faz. Hoje, boa parte da carteira do CGM Focus está concentrada em ações de produtoras de commodities, e uma das preferidas de Heebner é a brasileira Petrobras. À imprensa americana, ele declarou que a estatal “pode se tornar a empresa de maior valor de mercado do mundo” (procurado por EXAME, o executivo não quis dar entrevistas).
O diferencial de Ken Heebner é ser um profundo conhecedor dos setores em que atua e das empresas em que investe. “Ele não vive de boatos ou apostas em mercados que não domina. Seu estilo é estudar negócios a fundo e aplicar pesado neles quando decide que são interessantes”, disse a EXAME Matthew Simmons, um dos maiores especialistas mundiais em energia, sócio do banco de investimento Simmons & Company, de Houston. Autor de Twilight in the Desert (“Crepúsculo no deserto”, numa tradução livre), comentado livro sobre a indústria do petróleo publicado em 2005, Simmons conta que ficou impressionado com o quanto Heebner conhece esse setor. “Logo que o conheci, há cerca de quatro anos, ele me mostrou informações detalhadas sobre campos de exploração de petróleo no Oriente Médio que eu mesmo não havia conseguido levantar nas minhas pesquisas para escrever o livro”, diz.
Antes das commodities, o mercado favorito de Heebner era o imobiliário. Entre 2000 e 2004, ele comprou diversos papéis de empresas desse setor para compor a carteira do Focus e também para montar a estratégia de um fundo dedicado apenas a esse mercado, o CGM Realty. Em 2005, porém, passou a se desfazer dessas ações e a operar no mercado de derivativos para fazer vendas futuras desses papéis, por acreditar que o setor imobiliário teria problemas. Sua análise era que havia muitos riscos mal avaliados nesse mercado. Ainda assim, seu fundo imobiliário continuou entregando bons resultados. Nos últimos dez anos, até o fim de julho de 2008, o CGM Realty rendeu 22% ao ano — a melhor média para um fundo do setor nos Estados Unidos, segundo um levantamento feito pela consultoria Morningstar, especializada em analisar o desempenho do mercado americano de fundos. Só em 2007, em pleno colapso do segmento de hipotecas subprime, o CGM Realty entregou aos cotistas uma rentabilidade de 34%.
| Ken Heebner |
| O que faz É gestor de fundos da americana Capital Growth Management |
| Idade |
| Patrimônio sob gestão 8 bilhões de dólares |
| Feito Seu principal fundo de ações, o Focus, rendeu 24% ao ano desde 1998 — o melhor retorno do mercado americano |
| Sobre o Brasil Investe na Petrobras e acredita que a estatal pode se tornar a maior companhia de capital aberto do mundo |
Altos e baixos
Heebner é, hoje, um dos gestores de fundos mais experientes e respeitados dos Estados Unidos. Com exceção de uma temporada de quatro anos em que trabalhou como analista econômico, logo depois de ter se formado na Harvard Business School, Heebner passou o restante de sua carreira administrando fundos de investimento. Foi contemporâneo de Peter Lynch, um dos principais financistas americanos e ex-gestor do lendário Fidelity Magellan, que já foi um dos fundos de ações mais rentáveis dos Estados Unidos. Numa entrevista à revista Fortune, Lynch declarou que “Heebner é uma analista excepcional”. Aos 67 anos, idade em que a maioria de seus colegas já se aposentou ou deixou de lado o dia-a-dia estafante do mercado financeiro, ele não dá sinais de que vá mudar sua rotina tão cedo. “Ken é um craque no jogo de gerir dinheiro e entregar altos retornos a seus clientes. E, praticamente, só fala sobre isso”, diz Matthew Simmons, que tem Heebner como cliente de seu banco de investimento desde 2005.
Apesar de seu passado recente ter sido recheado de recordes positivos, ser cotista dos fundos geridos por Ken Heebner não é tão fácil quanto parece. Em determinados momentos ao longo da última década, foi preciso ter uma calma quase budista para aceitar os constantes altos e baixos do CGM Focus. Da mesma forma que entrega retornos anuais superiores a 50%, pode cair mais de 20% num único mês — em janeiro de 2001, por exemplo, a perda chegou a 24%. Nos últimos três anos, o fundo oscilou, em média, três vezes mais que o S&P 500, da bolsa de Nova York. Além disso, o Focus é o nono fundo mais volátil entre as mais de 7 000 carteiras de ações analisadas pela consultoria Morningstar. Para quem investe na Petrobras, resta esperar que as ações — em queda desde maio na Bolsa de Valores de São Paulo — sigam, ao menos em parte, o desempenho dos fundos de Heebner e voltem a se valorizar.